A prova de nada – Aquatrekking na Jungle

Para ler ouvindo
 Keny Arkana - Tout tourne autour du soleil

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Não dá nem pra contar quantas vezes bolamos planos de viagens que não saem do papel. Em especial quando tem feriado se aproximando. É sempre um malabarismo tentando equilibrar diferentes vontades e possibilidades e tornar um desses planos realidade. Não ajuda muito o fato de que roteiros e trilhas de trekking não são assim tão comuns.

Para esse feriado de Páscoa que passou tivemos o mesmo brainstorming coletivo de sempre, muitas ideias de onde poderíamos ir, algumas muito distantes, outras muito longas, umas muito curtas… Pensamos em caminhar no Pontal de Tapes, nos cânions da fronteira com Santa Catarina e na cachoeira escondida de Nova Roma do Sul. Aos poucos o grupo foi diminuindo e as opções se limitando até o ponto de decidirmos por uma trilha que encontramos no Wikiloc, chamada “Garapiá-Bananeiras” em Maquiné/RS.

Dia 1 – Sexta

Pegamos o ônibus das 06h30 de Porto Alegre até Osório, teria sido mais confortável pegar o das 07h30, mas em função do feriado não tinha mais lugar para nós quatro. Chegando em Osório tivemos que esperar pelo primeiro ônibus que leva até Maquiné que sai às 09h20 diariamente.  Para passar o tempo, armamos um picnic num terreno baldio em frente à rodoviária, desenrolei o footprint de tyvek e nos posicionamos para nosso merecido desjejum. Nem bem sentamos e começou uma garoa daquelas super finas, fizemos um esforço tentando ignorar a situação e seguir com nosso plano, mas era cedo demais para molhar todas as nossas coisas. Nos escondemos na marquise de uma imobiliária que estava fechada em função do feriado.

Eu tava caindo de sono, a noite tinha sido super curta pois tive que ficar até tarde organizando tudo para a vinda… em geral sou bem metódico e adianto esse empacotamento deixando tudo pronto com antecedência, mas dessa vez foi super corrido e em cima da hora. Estiquei o isolante nos degraus da imobiliária que nos abrigava e tentei um cochilo. Dormir rapidamente e em qualquer posição não é meu forte e o cochilo não vingou.

Catamos nossas coisas e embarcamos no pinga-pinga até Maquiné. Uma hora e quarenta depois e o ônibus nos larga na bifurcação da Barra do Ouro. Chove mais forte agora, casacos impermeáveis, mochilas nas costas e iniciamos a caminhada. O arquivo de GPS inicia justamente aqui, provavelmente es autores também vieram de ônibus, daqui pra frente serão 31km. Na verdade ainda não tínhamos bem certo se faríamos a trilha inteira terminando na RS-486, precisando daí agilizar uma carona para voltar, ou se seria melhor retornar mais ou menos na metade do caminho para pegar o ônibus aqui.

Caminhamos pelas já conhecidas estradas do distrito da Barra do Ouro debaixo de muita chuva, nos abrigamos como pudemos debaixo de uma árvore para comer alguma coisa. Ainda bem que tínhamos alguns sanduíches prontos porque cozinhar com essa chuva não seria tarefa fácil. Não nos demoramos muito, molhades como estávamos perdíamos muito calor parades.

Cerca de dez quilômetros depois a estrada cedia lugar a trilha, mas não antes de cruzar o rio caudaloso. Tivemos bastante trabalho na travessia com água quase nas nossas cinturas. Mas o maior problema não foi cruzar, mais tarde iriamos descobrir que o GPS estava nos pregando uma peça e estávamos na trilha errada já de partida.

A trilha ia subindo bastante, numa mata com características de cerrado e passando por algumas roças de milho e algumas pequenas casas, a chuva não dava trégua e depois de subirmos um pouco começamos a percorrer um caminho de barro bem característico de trilhas criadas por animais. Não demorou para termos que negociar nossa passagem com uma égua que pastava bem no meio do trilho. A negociação foi mal sucedida e acabamos mesmo é dando a volta. A mata foi fechando e os trilhos criados pelos animais eram ambíguos, começamos a perceber que estávamos perdendo controle da direção. Tentando acompanhar o nosso ponto no GPS percebemos que tinha um delay de alguns metros e isso tornava impossível de saber onde estávamos de fato, apenas quando parávamos o ponto azul nos buscava e aí percebíamos que estávamos fora do log.

Depois de ir e voltar tentando reencontrar o caminho, escorregar nos barrancos molhados e muito se arranhar nos milhões de cipós espinhentos resolvemos encarar os fatos; Não fazíamos ideia de quanto faltava para chegarmos aos campos da serrinha onde seria possível acampar, muito menos sabíamos como chegaríamos lá, estávamos na chuva desde as nove da manhã e estava quase anoitecendo. Optamos por dar meia volta, retraçar nossos passos e acampar na barra do ouro, uma opção mais cautelosa.

Descemos rápido, seguindo nossos próprios passos enquanto a luz ia se extinguindo e a trilha ia ganhando uma tonalidade azulada. Cruzamos o rio novamente dessa vez com mais confiança e agilidade e logo estávamos no camping. Tivemos sorte que tinha um galpão onde pudemos cozinhar e estender nossas roupas encharcadas em volta do fogão a lenha.

Apenas um dia de caminhada e já tínhamos bastante história para contar, ficamos rindo de nossas presepadas e amadorismo junto com o dono do camping que prometeu nos levar na trilha certa no dia seguinte.

Dia 2 – Sábado

Como de costume, acordei antes do restante. Não demorou muito e meu companheiro de barraca também despertou, tomamos café da manhã, organizamos nossas coisas e nem sinal da outra barraca. Resolvemos dar um pulo até a Cascata do Garapiá não muito distante dali. Retornamos e o restante do pessoal começava a se mexer. Por volta das 10h começamos a caminhada acompanhados pelo Eduardo, o  proprietário do camping, e uma matilha de cães. Cruzamos o rio em um ponto diferente e lá sim começava a trilha! Um trilho profundo, que as vezes chegava a ter um metro de profundidade, formado por anos de incursões de tropeiros e tropeiras e reforçado pela descida da água do morro.

 

Seguimos esse trilho estreito e profundo atrás do Eduardo que ia nos mostrando o caminho. Apesar de fazer um dia ensolarado a trilha mais parecia um riacho de tanta água que escoava da chuvas do dia anterior. Subimos um bocado até um ponto que nos despedimos do Eduardo e seguimos por conta.

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Apesar da trilha ser bem demarcada, dos barrancos laterais nascem muitos arbustos espinhentos que não permitem um deslocamento muito ligeiro e confortável. Mais um pouco de subida e finalmente um alívio visual, subindo em uma grande pedra é possível ter um panorama do vale da Barra do Ouro. Uma vista que vale muito a pena e que é fácil passar despercebida. De volta a mata fechada que agora ia ganhando mais e mais araucárias e deixando de ser tão espinhenta!

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Depois de 3h de caminhadas chegamos ao mirante na borda do cânion, de lá pode-se ver uma bela cascata que vai terminar alimentando o rio Garapiá. Fizemos um intervalo para o almoço nós e nossa matilha que seguia firme conosco. Tiramos uma sesta apesar de que sentíamos frio por estarmos molhades de caminhar na água e de se esfregar na vegetação encharcada da chuva do dia anterior.

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Iniciamos a descida às 15h, já um pouco tarde, mas contando que descer seria mais rápido do que subir. Depois de um bocado de descida, já com a pele cansada de tanto lutar com os espinhos, começamos a não reconhecer a mata… a selva úmida por onde tínhamos subido tinha dado lugar à uma vegetação mais seca, como se fosse uma face do morro mais exposta ao sol. Decidimos por voltar e buscar a bifurcação onde tínhamos perdido a direção. A gravação de GPS que eu fiz da subida para termos de backup na hora de descer era apenas uma linha reta, e a tal da bifurcação não existia. Optamos por voltar a descer por essa trilha mesmo sabendo que não era a correta.

Andamos pouco e chegamos num ponto onde a trilha parecia acabar. Já passava das 17h e a essa altura já tínhamos perdido toda a confiança em nosso senso de direção e a única certeza que tínhamos era que descendo em linha reta chegaríamos ao rio e de lá seria fácil voltar ao camping. Foi isso que fizemos, nos embrenhamos na mata fechada, barranco abaixo. Ligamos o survival mode, já não contávamos mais piadas, mal dizíamos qualquer coisa.

Nos aliviamos quando a mata se abriu e deu lugar a uma área desmatada e descuidada onde nasceu um capinzal. Foi um alívio visual podermos enxergar que o morro estava acabando e que em algum lugar logo abaixo teria de estar o rio. Mas entrar no capinzal provou que o alívio era mesmo apenas visual, ficamos totalmente encobertos pelo capim alto e denso, não se podia ver mais do que alguns centímetros. Conforme íamos caminhando, caíamos em valas como se o barranco tivesse sido moldado em degraus para algum tipo de cultivo e o que era mata antes agora eram troncos queimados e caídos onde pisávamos em falso.

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Custou muito superar o capinzal, em silêncio fomos aguentando os tombos, torções e cortes que o capim e o terreno iam infringindo na gente. As vezes chamávamos ume pele outre só afim de confirmar que ninguém tinha ficado para trás. O Ogro foi o primeiro a alcançar um riachinho que nos encheu de esperança… talvez seguindo esse curso d’água chegaríamos no rio! A cachorra branca que nos acompanhava seguiu na frente o que foi outro bom sinal, parecia que finalmente ela reconhecia onde estávamos. Já com headlamps acesas começamos a seguir uma trilha fina, uma mangueira d’água e um cabeamento de energia elétrica… era de uma casa onde imaginamos que essa companheira canina vivia, mas que estava fechada e aparentemente vazia. Mais alguns passos apressados e encontramos o inicio do trilho por onde tínhamos subido pela manhã e finalmente o rio no mesmo ponto onde cruzamos.

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Passava das 18h mas agora tudo que tínhamos que fazer era seguir a estrada até o camping. Missão cumprida aos trancos, meio envergonhades de tantos erros e amadorismos. Relembrando juntes mais tarde, percebemos que durante todo o tempo todes estavam fazendo cálculos de quanta água e quanta comida tínhamos em nossas pequenas mochilas de quem só foi passar o dia e imaginando como seria passar a noite enrolados em si mesmes tentando combater o frio. O bom de quando as coisas não saem como planejamos é que aprendemos muito mais.

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