Uma viagem dentro de outra – Pico Marumbi, Paraná

Para ler ouvindo:  
Petrograd - Get a Fuckin' Life
Raça Negra - Cheia de Manias

Eu não tinha sequer ouvido falar do Pico Marumbi antes. Eu nunca tinha olhado para essa montanha e pensado: Um dia vou subir lá no topo! Como com muitas outras viagens antes, fazer essa trilha não era meu sonho. Começa com um convite, com um sonho alheio, um plano de alguém próximo. Geralmente depois disso vem uma pesquisa extensa, leio relatos diversos, descrições sobre o lugar e as rotas, examino logs de trilha. Mas não dessa vez.

Larguei mão! Estou viajando há umas semanas e essa caminhada era apenas mais uma das etapas que eu tinha que me preparar. Pouco me informei sobre o Pico Marumbi, e isso explica muito o perrengue que passamos.

Curitiba

Saímos de São Paulo com destino à Curitiba num ônibus numa quinta-feira. Chegamos à noite com muito frio e depois de deixar nossas coisas fomos comer algo e caminhar pelas redondezas. Para sexta estava marcada a greve geral e torcíamos para que fosse ampla e paralisante, mas ao mesmo tempo precisávamos comprar nossos mantimentos e as passagens de ônibus para o Parque. Despertamos cedo e começamos uma jornada mista de compras, passeios, e visitas a amigos. Fomos muitos bem recebidos, com comida, conversas divertidas e profundas, e nos doaram alguns itens que faltavam na nossa lista de mantimentos.  Eu não estava em Curitiba desde 1993 e foi bom caminhar pela cidade. Andamos mais de 15km passando pelo centro, parques e muito mais. Isso adicionou cansaço às pernas que já vinham caminhando e correndo bastante em São Paulo.

De Curitiba há duas maneiras de se chegar ao Parque Estadual Pico do Marumbi, por trem ou por ônibus. Minha vontade maior era ir de trem, descer a montanha nessa máquina estranha, no seu ritmo estranho. Outra vantagem do trem é que o desembarque é no pé da montanha, direto na Estação Marumbi, onde também está localizado o acampamento base (para mais infos sobre o trem busque Serra Verde Express). Mas o valor da passagem é mais que o dobro do valor do ônibus, e não estou podendo gastar. De ônibus existem duas partidas pela linha Morretes (via Estrada da Graciosa), uma às 7h45 e outra às 9h. Pegamos o primeiro horário no sábado por falta de opção mesmo. Viajar no feriado é osso. Mas isso só depois de buscar nossa companheira de trilha que chegou em CWB no ônibus das 5h vinda de São Paulo.

Itupava

Fomos perguntando e descobrindo os macetes para chegar ao Parque. Seguem algumas dicas:
Quando embarcar no ônibus, peça para pular na ponte antes de Porto de Cima, um pequeno distrito da cidade de Morretes. Indique para o motorista o caminho de Itupava que é onde começa a estrada que leva até as estações. Pela estrada são quase 9km caminhando até o acampamento, existe uma outra possibilidade de chegar ao parque através de uma trilha de 25km de extensão, chamada Caminho de Itupava, mas só descobri isso depois. O caminho que fizemos é quase que inteiramente em estrada de chão, com cobertura de árvores e pouca exposição ao sol, seguindo o rio Nhudiaquara, sempre subindo, especialmente no fim. Na metade do caminho chega-se ao Centro de Visitantes, onde é possível pegar mais informações, recarregar a água e usar o banheiro. Se você vem de carro de passeio, é aqui que deve deixá-lo, porque a partir daqui a estrada só serve para carros tracionados. Mais quatro quilômetros e você chega na Estação Lange, a partir daí a caminhada segue uma trilha de pedras por mais 900 metros até a estação Marumbi (485m). Aqui você deve se identificar na Administração antes de mais nada – é importante que você já tenha reserva porque o camping tem limite de visitantes!

Estação Marumbi

Fomos logo montar nossa barraca e começar a pensar no que comer. O camping é bem estruturado, conta com banheiros com chuveiro quente, espaço coberto para cozinhar, energia elétrica e uma área gramada e bem drenada. Do camping se tem uma ótima vista dos picos do Parque Marumbi. Aqui a coisa começou a ficar tensa. O dia estava lindo e se podia ver com detalhe os cumes despontando. Era quase impossível imaginar que daria para subir aquelas pedras nuas e íngremes, encravadas na montanha verde, sem qualquer equipamento de escalada. Só o que se falava no acampamento base era sobre os desafios da caminhada. Não demorou muito para eu começar a ficar cheio de dúvidas.

Pouco depois de nos assentarmos, chegou o restante do nosso grupo. Tínhamos nos encontrado no Centro de Visitantes, mas subimos na frente. Com a barraca montada e a barriga cheia, fomos fazer a Trilha do Rochedinho (625m de altura), uma das menores do parque e que leva menos de duas horas para fazer. Nessa trilha tivemos nosso primeiro contato com os grampos: barras de metal fixadas nas pedras para possibilitar a ascensão e que estão presentes nas partes mais íngremes das trilhas. Próximo ao topo essa trilha segue pela cumeeira da montanha, dando um gostinho num grau muito menor da exposição ao risco de queda que caracterizam as trilhas principais. A vista lá de cima é incrível. Com tempo bom é possível ver o acampamento, a estação, todos os picos do Parque Marumbi, o rio Nhundiaquara e os trilhos do trem serpenteando vale acima passando por pontes e desfiladeiros.

De volta ao acampamento os planos para a subida começaram a tomar forma. Existem vários caminhos para a ascensão ao cume identificados por cores. A trilha vermelha, ou Noroeste, é descrita como a mais pesada e exposta, e passa por outros picos antes de chegar ao Olimpo. A trilha branca, ou Frontal, sobe diretamente ao Olimpo e é descrita como média-pesada. Fomos nos dividindo entre quem queria subir pela trilha vermelha e descer pela branca e quem ficava mais confortável em fazer todo o trajeto pela branca. A vermelha é famosa por uma longa subida vertical em um paredão cheia de grampos. Fiquei com bastante medo dessa parte e isso me fez me juntar ao grupo que escolheu fazer a ascensão pela branca.

Ascensão

Choveu um pouco durante a noite, uma garoa fina. Como não tínhamos muita confiança na barraca, acordamos para checar se estava tudo seco. O trem passa com certa frequência e isso também atrapalha o sono. Algumas das locomotivas soam como o apocalipse. Acordamos de fato pouco antes das seis, com objetivo de pegar a trilha por volta das sete. Durante o café da manhã boa parte do grupo decidiu não fazer nenhuma das trilhas em função da garoa. Segui com o plano de subir e descer pela branca, e outras pessoas se somaram a essa ideia.

Passamos na administração para avisar da nossa saída e pegar mais algumas dicas – é muito importante informar qual trilha você irá fazer para o pessoal da administração, pois assim é possível que enviem resgate caso você tenha algum acidente. Eram 7h15 quando demos os primeiros passos morro acima. A trilha inicia por um caminho de pedra no meio da mata, mas logo se transforma em uma trilha orgânica, de barro e raízes e cada passo é como que numa escada. Os degraus vão ficando mais íngremes e depois de cerca de um quilômetro começam as cordas e grampos para auxiliar na subida. Durante todo o trajeto, não tem um passo que seja nivelado. Usa-se muito as coxas e os braços, e pessoas de baixa estatura enfrentam mais dificuldade, até porque os grampos estão colocados em uma distância que favorece as pessoas altas.

Quase quatro horas depois e começamos a enfrentar as longas paredes verticais com grampos. O dia estava bastante fechado e com neblina… Não consigo decidir se isso ajudava ou atrapalhava: ao mesmo tempo que era bom não poder ver o precipício, era terrível e paralisante encarar esse vazio total. Eu só queria passar rápido por essa etapa. Minha pressão começou a baixar, sentia minhas mãos ficando geladas e uma sensação de enjoo. Eu não parava de pensar em quão difícil seria voltar.

Depois de mais um lance de grampos, chegamos a um platô estreito que antecedia um paredão ainda mais longo. Ali decidimos que não iríamos continuar. Não foi uma decisão fácil, mas não tínhamos que provar nada a ninguém. Já fazia horas que caminhávamos morro acima, progredindo lentamente, e nosso GPS dizia que ainda faltava 1km vertical. Ficamos um bom tempo ali nos alimentando, enquanto um de nós subiu um pouco mais por curiosidade. A cada minuto chegava um novo grupo e demonstrava espanto com mais essa parede

vertical. Brincamos que seria hilário ficar ali filmando as reações. Porém invariavelmente seguiam.  Me pareceu que algumas pessoas estavam preparadas enquanto outras nem tanto, umas sequer sabiam ao certo o que estavam enfrentando e o que tinham pela frente. Cada qual com sua forma de se motivar, se garantir, e infelizmente outras subiam por pressão do grupo. Alguns tentavam nos incentivar também, mas não tiveram sucesso.

Não muito depois chegou o resto do nosso acampamento, que tinham decidido não fazer a trilha quando acordamos. Tinham mudado de ideia com o decorrer da manhã e agora subiam rápido. Passaram por nós no momento em que decidiamos por almoçar ali, mas descobrimos que nosso almoço tinha estragado. Sem muito mais o que comer e ainda bastantes cansados, iniciamos o caminho de volta, lomba a baixo, menos de 1km do cume.

Tucanos voam engraçado

De volta ao acampamento, nos alimentamos e compartilhamos nossas histórias com os outros grupos. Descansamos as pernas, enquanto observamos os tucanos, de árvore em árvore, com seu voo estranho, as gralhas-azuis, e o vai-e-vem ritmado dos trens escoando toneladas de grãos pra alimentar animais para o abate. O cansaço de 8h de trilha batia forte. Mesmo sem ter chegado ao topo, foi uma puxada e tanto. Se tivéssemos tido a gana de seguir, teríamos adicionado pelos menos 2h ao nosso percurso. Isso era muito mais do que eu tinha imaginado. A minha expectativa era de uma trilha difícil pela exposição, mas não pela exigência física.

Essa viagem serviu para pensar muitas coisas, entre elas, reavaliar minhas capacidades físicas e fazer uma distinção mais clara entre trekking e montanhismo. Nessa tarde que ficamos pela cozinha coletiva ouvimos que essa subida é a terceira mais difícil do Bra$il. E eu avaliando a dificuldade da trilha baseado apenas na extensão da trilha.

Quando estiver por lá, vale reservar um tempo para fazer outras trilhas além das clássicas. Teria sido muito legal chegar ao Parque pela trilha do Caminho do Itupava, por exemplo. De ascensão, além da branca e da vermelha, tem também a Facãozinho, que estava interditada para recuperação. E tem as mais curtas que não sobem o morro, como as Trilhas do Rochedinho, da Pedra Lascada, Cemitério dos Grampos, Cachoeira dos Marombistas e Salto dos Macacos.

Para mais informações visite o site do COSMO – Corpo de Socorro em Montanha.

 

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BikeHandling em TdP

Amanhã o pessoal do Bike Handling vai dar os primeiros passos numa jornada de 10 dias ao redor do massivo Paine Grande. No inicio de 2015 fiz essa caminhada também e foi algo que impactou minha vida enormemente. Nesse trekking de 2015 entre nós estava também João Vitor que acabou não conseguindo seguir viagem por problemas no joelho e agora retorna ao parque para retomar a caminhada de onde parou. Desejo muita sorte, bom tempo e bons ventos para elas e eles. Que as montanhas tratem vocês muito bem! Esperamos ansiosxs pelas fotos e relatos e por dividir essa experiência 🙂

ps: Já que você provávelmente vai dar um pulo no site do BH, aproveita e acompanha as aventuras do Expresso Patagônia. Meu amigo Freitas desceu de bicicleta daqui do sul do Bra$il até o Ushuaia pelas estradas inóspitas do leste Argentino e de lá está iniciando o caminho de volta ao norte pelo oeste chileno.

Descobrindo que somos iniciantes no Circuito das Cascatas e Montanhas

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Para ler ouvindo:
 Deafheaven - SUNBATHER
 Modest Mouse - The Moon and Antarctica

Fazia um tempo que pesquisava sobre esses roteiros de cicloturismo que vem surgindo nos últimos anos. O Circuito das Cascatas e Montanhas por ser bem próximo de Porto Alegre era um dos que mais chamava a atenção e mais de uma vez tinha pensado em percorrê-lo a pé, ao invés de bicicleta. Quando o João me convidou para ir com ele não precisei pensar muito, de bike não precisaríamos de muitos dias nem de muita logística.

O roteiro é dividido em 4 etapas que é o formato que sugerem que seja feito, iniciando por Rolante, seguindo por Riozinho, Boa Esperança, São Francisco de Paula e retornando pra Rolante. Com uma média de cerca de 35km por etapa e paradas estratégicas para pernoitar nas cidades com infraestrutura. Preferimos fazer o trajeto em menos dias e de forma autônoma, levando nossa própria comida e acampando onde fosse possível. Dividimos em 3 etapas de cerca de 50km cada, sem fazer muita questão de decidir exatamente onde pararíamos a cada dia, tornando mais solta a viagem e deixando mais liberdade para mudanças de ideias pelo caminho.

Dia 1 – Porto Alegre

Acordamos cedo e fomos até a rodoviária para pegar o ônibus até Taquara/RS. O ônibus das 07h00 estava lotado e tivemos que aguardar para pegar o das 09h00. Embarcar no ônibus com as bicicletas é sempre uma luta, para piorar a cobradora lembrava de termos embarcado outra vez e ela ter deixado claro que aquela seria a última…  estávamos tentando a sorte, com um pouco de insistência conseguimos e dessa vez sim seria a última 😛

Desembarcamos passando das 10h em Taquara, duas horas mais tarde que o planejado, e prontamente pegamos o asfalto rumo ao inicio do Circuito. No caminho a fome ia começando a corroer nossos pensamentos… o plano inicial era um lanche em algum lugar já bem pra frente do percurso, mas como tudo tinha atrasado optamos por parar num restaurante bem no pórtico de Rolante.

Todos as variações possíveis de carboidratos ingeridas, barriga cheia, sol rasgando a pele e lá vamos nós! Poucos quilômetros adiante entramos de fato no centro de Rolante, a ideia era pegar o manual do Circuito, mas obviamente em cidade pequena tudo fecha nesse horário.

Seguimos então confiando só nos logs que tinhamos baixado e nas placas informativas. O sol estava fritando nossa pele e a sensação de calor no vale de Rolante era altíssima. Me fazia lembrar do documentário que assisti outro dia sobre ultramaratonas no deserto e essa lembrança mantinha minha mente sólida.

Só por volta das 15h algumas nuvens começaram a rolar pelo céu e até trouxeram alguns pingos de chuva. Mal tínhamos começado e já estávamos enfrentando subidas íngremes e com pedras soltas que nos fizeram empurrar as bikes, algo que eu não imaginava que rolaria nesse Circuito que é classificado como de nível iniciante.

Mas já que tem montanhas tem que ter cascatas! A primeira do Circuito é a da Colônia dos Monges, em um terreno da Prefeitura, o acesso é fácil e pudemos chegar com as bicicletas quase até a água. A cascata tem uma queda de cerca de 2 metros de altura, e quando estivemos lá estava com pouca vazão então nos refrescamos direto debaixo da queda! Um banho gelado e forte massageando nossos corpos e refrescando nossas mentes! No terreno tem uma torneira onde aproveitamos para recarregar nossas garrafas e bolsas de hidratação.

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A tarde ia correndo, mais e mais nuvens se acumularam no céu encobrindo totalmente o sol. Já estava chegando a hora de encontrar um lugar para passar a noite. Uma última subida íngreme já debaixo de chuva fina e gelada e encontramos uma bifurcação para uma estrada menor e nessa uma antiga estrada já há muito abandonada onde escolhemos montar nosso acampamento.

Fizemos um reconhecimento do terreno, a chuva deu uma trégua e enquanto o João armava a barraca, eu estendia o saco de bivaque, depois iniciamos a janta. Cardápio de hoje: Massa instantânea com Feijão Carioquinha Orgânico pré pronto, batata palha, azeite de oliva e pimenta, bastante pimenta.

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Dia 2 – Em algum lugar no interior de Riozinho

Não foi a melhor das noites, mesmo para mim que já não durmo muito bem nem na cidade. Primeiro foi o calor dentro do saco de bivaque, depois o isolante inflável furado, então a chuva. Cansado de tentar, olhei para o relógio torcendo para que já fosse hora de acordar: 23h40. Vou ter que tentar dormir “um pouco mais” … por incrível que pareça a chuva foi a solução porque ajudou a baixar a temperatura e consegui voltar pro bivaque. Dormi, uma sucessão de cochilos e tive todos os sonhos possíveis e imagináveis, mas ainda assim dormi. As 06h eu finalmente estava farto da batalha e me pus de pé.

Logo João também despertou e começamos a organizar as coisas e tomar nosso café da manhã: Aveia hidratada com passas diversas, farinha de amendoim, chia e açúcar mascavo. Terminamos de empacotar e deixamos nosso lar inclinado na mata antes das 08h00.

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Nem bem saímos e começamos a subir… o dia estava mais fresco e volta e meia garoava levemente. Poucos quilômetros depois uma placa informava que a estrada por onde devíamos seguir estava interditada. Tudo indicava que o caminho era esse e chegamos a conclusão de que a interdição fosse apenas para carros e caminhões, já que as placas não levam muito em consideração as pessoas em bicicletas. Seguimos e a estrada foi virando duas trilhas lado a lado, o mato tomando conta no meio e as pedras rolando como bem entendem sem serem compactadas pelas toneladas de aço. O nível técnico dessa parte do percurso era altíssimo, ao menos para bicicletas de cross carregadas com equipamentos de camping e comida para três dias… íamos descendo e rindo disso todo o tempo… se isso era para iniciantes, imagina o que seria para experientes?!

Seguíamos descendo por esta trilha pedregosa e cheia de curvas, me fazendo pensar o porque de subir tanto para depois descer tudo e ter que subir outra vez! Enquanto minha mente se distraia voei e só me dei por mim no chão, estirado debaixo da bike! Tudo doía e eu nem bem tinha força de tirar a bicicleta carregada de cima de mim. João veio me ajudar e fiquei ali contemplando meus esfolados e avaliando se tinha algum ferimento grave; tudo muito dolorido e esfolado e começando a inchar, mas nada grave a principio. Tentando descobrir o porque da queda percebemos que com a trepidação intensa da descida irregular um dos pneus reservas que eu levava saiu do lugar e entrou na roda dianteira me ejetando da bicicleta!  :/ Depois de uma dessas a pouca confiança que eu tinha na minha destreza em guiar minha bike por aquele terreno ficou bem balançada e a ideia de desistir começou a passar pela minha cabeça.

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Mais umas curvas – e um trecho de trilha que somente pilotos de downhill em bicicletas fullsuspension poderiam encarar – e chegamos na segunda cascata do Circuito: a Cascata do Chuvisqueiro. Já caia uma chuva fina e fria à essas alturas, mas uma coisa que aprendi é “sempre mergulhe quando a oportunidade aparecer”. A Cascata do Chuvisqueiro é linda e gigantesca com 78 metros de altura, uma piscina ampla e de fácil acesso, o terreno é particular e conta com área de camping, parece que o acesso é cobrado, mas nós não pagamos nada, talvez em função da chuva não tinha movimento por lá. Daria facilmente para passar o dia inteiro por lá… mas precisávamos seguir.

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Pouco adiante é a entrada para a terceira cascata, a das Três Quedas. Essa optamos por não ir para não nos atrasarmos. Falta informação muitas vezes de quão longe as Cascatas estão da estrada principal e qual a condição da estrada, para ficar mais fácil de avaliar o tempo que vai tomar. Como nossa intenção era em fazer o Circuito em 3 dias, tínhamos que manter certo ritmo.

Logo em seguida chegamos em Mascarada, uma pequena vila onde pegamos uma bifurcação para a Cascata das Andorinhas. A partir da bifurcação andamos uns 2 quilômetros por uma estrada bem embarrada que aos poucos se tornou uma trilha e por fim o caminho era pelo próprio leito do rio por cerca de 200 metros, tudo com a bicicleta cheia de tralhas nas costas. Finalmente avistamos a gruta curvada em S, como que um mini cânion que esconde a cascata das Andorinhas. Um lugar realmente único e muito bonito, como nada que eu tinha visto antes.

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Voltamos pelo mesmo caminho, parando no cemitério para repor nossa água, passando novamente por Mascarada e já quase chegando em Boa Esperança encontramos uma sombra debaixo de dois grandes plátanos para fazer uma pausa para o almoço: Polenta cozida direto no molho vermelho e massa instantânea com seleta de legumes. Tiramos um tempo para uma soneca também, seria bom se esconder um pouco do sol que voltara a dar as caras e também já tínhamos completado 25km, metade da meta do dia.

Não tínhamos noção, mas nossa pausa do almoço foi justamente antes do inicio da subida da serra, a tão temida 3ª Etapa do circuito que nós resolvemos juntar no segundo dia. Em menos de 10km subimos quase 500 metros, chegando a 980 metros acima do nível do mar! Foi menos íngreme do que algumas subidas que enfrentamos no dia anterior, mas foi constante e cada curva escondia mais e mais subidas. Rapidamente a paisagem foi mudando de plantações de milho e eucalipto para plantações de pinus e volta e meia umas matas de araucárias resistindo a expansão humana. Nas beiradas da estradinha de chão agora tinham hortênsias, naturais da China e do Japão, mas que estranhamente viraram sinônimo de Serra no Rio Grande do Sul.

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Quando chegamos de fato ao topo, a estrada de chão tomou grandes proporções e tinha largura suficiente para dois caminhões grandes lado a lado e não demorou para que a gente começasse a notar esse fluxo. Caminhões carregados de toras passavam volta e meia e me fizeram lembrar daqueles vídeos que mostram a construção da Transamazônica… claro, em escala um tanto menor.

Começou a chover fino e tivemos nosso primeiro pneu furado. Não consegui trocar sozinho porque meu polegar esquerdo tinha inchado muito, nesses momentos percebemos como os polegares são importantes. Com o trabalho em equipe a troca foi super ágil apesar do pneu largo não casar bem com o aro de bicicleta de estrada. Eram já umas 16h00 e começávamos a cansar e olhar para os lados da estrada buscando um esconderijo para a noite. Plantações e mais plantações de pinus e no fundinho eu me sentia meio que ludibriado por toda a propaganda que tinha sido feita sobre o trecho dos campos de cima da serra… onde eles estavam? Só o que eu via era o impacto da indústria da celulose e as árvores em linha, geometricamente plantadas por máquinas, onde nada mais vive.  Seguíamos tocando, no plano desenvolvíamos facilmente até que a chuva apertou muito e trovões começaram a soar. Paramos para pegar água na única construção em muito tempo, a sede da empresa de celulose. Aproveitamos para nos abrigar da chuva grossa e pegamos algumas dicas de alojamento em São Francisco de Paula, caso não desse certo o plano de ficar pela mata.

Água reabastecida, dicas anotadas e tempestade mais calma. Nos encasacamos e seguimos. Eu estava tão gelado e cansado que começava a achar que um hotelzinho barato em São Francisco de Paula seria uma boa pedida, não falamos sobre isso, só pedalamos e quando vimos estávamos na cidade. Paramos no Hotel barato que tinham nos indicado mas o valor era alto demais e não oferecia nada… resolvemos pedalar pela cidade em busca de alternativas. Acabamos no Corpo de Bombeiros, pedi alguma sugestão de lugar para acampar e obviamente nos ofereceram para ficar por ali mesmo.

Nos acomodamos atrás das viaturas, vestimos roupas secas e cozinhamos polenta com lentilha e seleta de legumes.

Dia 3 – São Francisco de Paula

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Quem poderia reclamar, foi uma noite seca e gratuita… mas ainda assim foi conturbada. Bombeiros para lá e para cá, lampadas fluorecentes potentes ligadas e chão muito mais duro que na mata. Mas teria sido muito mais miserável qualquer outra opção já que boa parte de nossas coisas estavam molhadas.

Levantamos um pouco mais tarde e nos enrolamos para sair. A chuva que caiu à noite toda seguia forte. A etapa de hoje era principalmente de descidas e apenas uns 40km.

Sair na chuva nunca é fácil, algo que aprendemos desde cedo é não pegar chuva, do contrário você morrerá de uma gripe terrível! Mas muita gente vive pegando chuva e está vivinha, incluindo a gente 🙂

Nos encasacamos, agradecemos os bombeiros de plantão e pegamos a estrada. O dia de hoje prometia ser mais fácil em função de ser principalmente em declive, mas eu tava com receio dessa multitude de descidas molhadas, escorregadias e íngremes, nesse momento preferiria fazer força subindo.

Saindo do centro de São Chico chegamos ao Lago São Bernardo que é ponto turístico da cidade. A chuva fina e a neblina deixavam tudo com um ar ainda mais tipico. Paramos para uma foto e duas quadras mais além chegávamos de volta à estrada de chão. A partir daí descemos todo o tempo, volta e meia não tínhamos escolha senão parar um pouco e dar uma folga para nossas mãos e pastilhas de freio.
Boa parte da estrada não era tão técnica como em alguns dos trechos dos dias anteriores, mas o barro não ajudava muito na tração.

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Em uma bifurcação acabamos errando o caminho e só percebemos muito pra frente o que nos fez optar por seguir por essa estrada que no fim era paralela à oficial. Chegamos por volta do meio dia e meio na RS-239 bem na altura do mesmo restaurante onde almoçamos no primeiro dia. Obviamente estávamos cansados, encharcados e com fome então resolvemos parar para o almoço.

Durante o almoço desistimos de ir pedalando de volta para Porto Alegre, as minhas marchas não trocavam mais em função do barro, não tínhamos mais freio e já estava ficando tarde para cobrir a distância toda. Optamos por pedalar até Taquara e tentar a sorte de pôr as bikes no ônibus para PoA.

Voltar pro asfalto não era algo pelo qual eu estava ansioso, depois veio a rodoviária, o ônibus e as grandes cidades que fazer parte da região metropolitana de Porto Alegre, a grande mancha cinza que encobre o mapa. Nunca é uma transição fácil e essa ainda tinha gosto de final de férias e volta à rotina.

Vou sentir falta de ter várias cascatas no meio dos meus trajetos.

O que eu levei:

Cozinha:
Fogareiro à Álcool
Panela tipo marmita de R$1,99
Pote Plástico (para auxiliar na “cozinha”)
Faca Opinel Nº 09
Spork LightMyFire

Ferramentas:
Canivete de Ferramentas EMT Sport SPZ
Bomba Airace
02 câmaras reservas 700x40c
02 pneus reservas 700x32c
02 câmaras reservas 700x32c
Chain Tool Topeak

Roupas:
02 camisas de linho mangas longa
01 camiseta sintética manga curta
01 camiseta polar manga longa
01 cueca para dormir
Calção de corrida (pra banho)
Bretele
Par de luvas de ciclismo com dedos
Toalha de linho UL
02 pares de meias
Bandana
Jaqueta Impermeável

Abrigo:
Saco de Bivaque Rab Storm Bivvy
Saco de Dormir Deuter Dream Light 500
Isolante Inflável Mammut CMP SlideStop

Packs
Mochila de Hidratação 2L+10L Curtlo X-Skin
Bolsa de Guidom Tour de France Impermeável
Saco estanque 12L Silva
Saco estanque 5L Sea to Summit

 

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Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 2

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Continuação…

A chuva não veio, apesar de que o medo dela tirou meu sono e meu saco de dormir não venceu o pouco frio que fez. Os dois trens que passaram na madrugada também nos acordaram, mas isso era esperado e pode-se dizer antecipado até, durante todo o primeiro dia não tinhamos visto um trem sequer. Acordamos de fato pouco antes das 06:00 e depois de desarmar o acampamento e tomar o café-da-manhã, reiniciamos a caminhada. O dia amanheceu nublado, mas ainda nada da chuva para nossa sorte. Estávamos divididxs entre tocar todo o dia e concluir a trilha, ou manter um ritmo mais tranquilo, acampar mais um dia e deixar alguns quilômetros finais para o dia seguinte. Como sempre os principais motivadores das decisões eram o cansaço versus a possibilidade de chuva torrencial que prometia a previsão.

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Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 1

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A previsão de chuva intensa para o fim de semana não nos desengajou, depois de ter superado o medo-do-medo-de-altura e o medo da claustrofobia uma chuva não era de assustar. A trilha na ferrovia do trigo, localizada na serra do Rio Grande do Sul, era uma caminhada que vínhamos falando em fazer há um tempo. Um misto de natureza e exploração urbana, a caminhada segue os trilhos da ferrovia construída para escoar o trigo nos anos 1970, passando por túneis extensos e totalmente claustrofóbicos e pontes altíssimas, construídas para superar os vales dos afluentes do Rio Guaporé. Muito se falava sobre a dificuldade de andar entre os trilhos, tendo que aterrissar os pés entre dormentes e britas pontudas e soltas, mas me preocupava mais as sensações que os túneis e pontes teriam em mim. Agora, enquanto escrevo esse relato, meus pés e panturrilhas doem de uma forma totalmente nova na minha curta experiência em trekking, a trilha-sem-trilha, a trilha ausente cobrou seu preço sobre nossos corpos.

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Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 2

Em Março de 2015 embarquei numa jornada com mais quatro amigos para a Patagônia Chilena. Um sonho de infância se tornou realidade meio que sem querer… meio que de última hora. Vendi o que pude, me endividei, comprei equipamentos de segunda-mão e peguei algumas coisas emprestadas.
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Todas as fotos por Suryan Cury, exceto quanto citado.

Continuação. Essa é a segunda parte. Leia a primeira aqui.

24 de março – Dia 8 – Campamento Serón

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Mais um dia épico. Caminhamos das 6h30 da manhã até as 16h! Do acampamento torres até o Mirante Las Torres para o nascer do sol, dali voltamos ao camping, pegamos nossas coisas e rumamos até o acampamento Chileno. Lá pegamos ainda mais coisas, comida e roupas que deixamos para fazer a trilha de subida um pouco mais leves. Refizemos a divisão das comidas e do peso e organizamos as mochilas antes de descer pelo vale até o Hotel Las Torres onde paramos para o almoço. Comemos uma sopa rápida, engrossada com purê de batatas em pó.

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Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 1

Em Março de 2015 embarquei numa jornada com mais quatro amigos para a Patagônia Chilena. Um sonho de infância se tornou realidade meio que sem querer… meio que de última hora. Vendi o que pude, me endividei, comprei equipamentos de segunda-mão e peguei algumas coisas emprestadas.
#clipouefoi
Todas as fotos por Suryan Cury, exceto quanto citado.

Minha experiência em trekking era zero, e ao darmos os primeiros passos essa realidade me tomou por inteiro: “Como fui entrar nessa, totalmente inexperiente embarcando logo numa trilha de 10 dias na temida Patagônia!”
De certa forma esses primeiros metros, esse primeiro dia foi de fato o mais difícil de todos os que viriam pela frente. Nossas mochilas ultrapassavam os trinta quilos, a ansiedade era enorme e o terreno plano nos dava pouca proteção contra o vento que rugia. Quilometro à quilometro a paisagem ia tomando conta e enxugando nossos medos.

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