Paysage D’hiver – Caminhando no Passo do Inferno

Para ler ouvindo 
Paysage d'Hiver - Ausklang 
Paysage d'Hiver - Schnee II 

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O inverno nem tinha chegado ainda mas as temperaturas despencaram rapidamente aqui na cidade. Por algumas semanas as mínimas ficaram abaixo dos 10ºC e a previsão para o fim de semana era de temperaturas negativas. Na serra do estado a previsão era de frio intenso e isso foi a desculpa que nos faltava. Fazia um tempo que adiávamos a vontade de revisitar São Francisco de Paula e já tínhamos umas trilhas separadas.

Uma delas, a Trilha das Oito Cachoeiras, acabamos descobrindo que iniciava num terreno de uma pousada que não possuía lugar para acampar, isso envolveria dois custos, o de camping e o de ingresso à propriedade privada e quatro longos deslocamentos de carro para a trilha e de volta dela, porque nossa intenção era dividir o percurso de quase 16 quilômetros em dois dias. Achamos outros campings e um deles, o camping do Parque da Cachoeira, estava muito próximo de duas trilhas que encontramos na internet. Além disso, o Parque contava com duas trilhas dentro da própria propriedade que apesar do meu ceticismo com essas trilhas de parques particulares, me deixou motivado pois não nos faltaria opção.

Sábado – 1º dia

Saímos um pouco antes das 08:00. Depois de duas horas de estrada, entramos na estrada de chão que leva para o Parque das Cachoeiras, outras propriedades rurais e algumas pequenas represas para geração de energia. Logo antes da entrada do parque uma linda ponte metálica conecta as duas montanhas que o rio Caí corta. Descendo do carro o frio mordeu, mas mesmo assim ficamos ali observando a estrutura, o ar gelado e o rio lá embaixo, distante. Tomamos nosso tempo até finalmente cruzar a ponte e fazer a identificação na recepção do parque. A área destinada para camping é toda “reflorestada” com Pinus o que dá bastante cobertura do sol e deve ser uma vantagem no verão, já o restante do parque tem um aspecto mais natural, com cobertura de mata ciliar e campos de cima da serra. Buscamos uma área protegida do vento gelado, eu procurava alguma vista também, mas não dava para ver nada além das linhas de pinus. A área é toda inclinada, mas com platôs criados para montar as barracas. Nessa hora bateu a diferença de ficar em um camping estruturado em relação à acampar selvagem, todas as tomadas, as lâmpadas, as mesas e os banheiros por todos os lados. Mesmo sabendo desde o inicio que íamos ficar em um camping viemos carregando baterias externas, filtros d’água, lanternas e tudo mais para sermos autonomes. Porém essas facilidades de um camping estruturado iam ajudar a compensar o frio e no final das contas, tínhamos o camping inteiro só para nós.

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Armamos as três barracas para abrigar nós cinco em volta de uma mesa e churrasqueira, cozinhamos rapidamente uma massa com pesto e seleta de legumes, e depois de comer e dar uma breve pausa saímos para a primeira trilha. Como estávamos atrasades, optamos por uma trilha curta que o pessoal na recepção sugeriu, a Trilha do Pico da Bandeira, uma rota íngreme morro à cima, logo depois de cruzar a ponte de ferro. A subida foi forte mas não levamos mais do que 15 minutos para subi-la bem lentamente. A vista do topo é muito bonita, de lá pode-se ver a confluência dos rios Cará e Caí, a cachoeira, a ponte, e todo o parque. Lá de cima avistamos também uma trilha do outro lado do rio que saía da mata e serpenteava uma colina de campo. Parecia com uma das trilhas que encontramos na internet.

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Depois de curtir um pouco a vista e o sol no topo, retornamos para o parque, devolvi a chave do portão de acesso à trilha que tínhamos acabado de fazer (sim, a trilha tem entrada cadeada) e confirmei que a trilha que avistamos do topo era a Trilha dos Xaxins Gigantes (que no wikiloc era nomeada como Trilha Circular Dentro do Parque das Cachoeiras – Área nova).

A Trilha dos Xaxins Gigantes é uma trilha circular de pouco menos de 4km que se inicia dentro da mata de xaxins antes de sair pelos campos, passando por algumas ruínas até voltar a mata costeando o rio Cará. Alguns trechos eram de descidas escorregadias e bem expostas, mas tinham cordas bem posicionadas para garantir a caminhada em segurança. Nós levamos cerca de 2h30 fazendo longas pausas, primeiro para um lanche nas ruínas na metade do caminho e depois na beira do rio cogitando a possibilidade de um mergulho (não tivemos coragem de encarar o frio – por hora).

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De volta ao acampamento, hora de reanimar a fogueira improvisada na churrasqueira e aproveitar os últimos raios de sol. Eu, ansioso, já fui fazendo o pré-preparo do jantar: cuscuz com molho de tomate e grão de bico. Sentamos à mesa para jantar já reclamando do frio, o assunto não saía disso, o medo do frio que iria fazer mais tarde e como suportá-lo se já estávamos usando todas nossas roupas. Depois de jantar tomamos um chocolate quente, sem pausa alguma, ansioses para entrar em nossas barracas e sacos de dormir e se aquecer.

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Domingo – 2º dia

A noite foi terrível para umes e tolerável para outres, a temperatura sem dúvida baixou de zero, mas não sabemos o quanto. Muitas coisas estavam congeladas quando acordamos. Fomos levantando de acordo com a qualidade do sono e aos poucos dando inicio ao dia. A minha experiência não foi das piores, com dois isolantes térmicos, saco de dormir conforto 0ºC e várias camadas de roupa, tive uma noite relativamente boa.

Café da manhã ingerido, barracas desmontadas e guardadas e partimos para a Trilha da Toca. Outra trilha dentro do parque e também com aproximadamente quatro quilômetros de extensão, a única diferença é que essa é em sentido único costeando o rio Caí até a Toca e a Cachoeira Escondida, ou seja, dois quilômetros para ir e dois para voltar pela mesma trilha.

Apesar do frio noturno, o sol saiu com força na manhã e nos acompanhou por toda a trilha. Enquanto íamos costeando o rio numa de trilha de rolagem fácil, os casacos iam se indo para as mochilas. Não muito depois chegamos na tal da Cachoeira Escondida, que devido a baixa quantidade de chuvas era uma série de quedas menores descendo de um paredão protuberante e irregular para uma enorme piscina. Tínhamos os corpos aquecidos da caminhada e o sol inundava a piscina… não precisamos de muito convencimento para um mergulho! Minha vontade era de mergulhar e nadar por aquela piscina, mas a água estava tão gelada que ninguém durou mais que alguns segundos submerses.

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Depois de retornar para a pedra quentinha, deixar o sol nos secar e fazer um lanche, retornamos pela mesma trilha. Logo que saímos nos deparamos com um buraco e resolvemos investigar. Era a tal da Toca que também da nome a trilha e que não avistamos na ida, duas grandes rochas sobrepostas com uma passagem no meio que dá em uma pequena ilha. Essa ilha tinha uma vista mais completa da cachoeira e era uma das barreiras que mantinha a piscina. Ficamos apenas alguns momentos ali já que metade do grupo tinha disparado na frente sem perceber a entrada da toca.

No fim das contas foi uma experiência interessante, acampar em temperaturas super baixas, ter um camping inteiro só para nós e conhecer trilhar fáceis e bem demarcadas, algo incomum na região de Porto Alegre. Acabamos não tendo tempo para percorrer uma outra trilha que tínhamos separado do Wikiloc, a Trilha do Passo do Inferno que era um pouco mais longa e fora dos limites do parque, mas as trilhas dentro do parque foram uma ótima surpresa.

 

Se assumindo Randoneiro – meu primeiro Audax

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 Mogwai - Come On Die Young
 I - The Storm I Ride

Enquanto giravam os pedais em uma noite qualquer de entregas, minha mente começou a relembrar as primeiras longas distâncias que eu me aventurei a fazer. A primeira que me lembrei foi uma ida e volta à Belém Novo, bairro distante cerca de 25km do centro da cidade, acompanhado de um amigo de colégio numa época pré-google maps. Naquele tempo eu nem bem sabia que dentro dos pneus da bicicleta haviam câmaras de ar, entre outras coisas simples sobre bicicletas ou o mundo, mas mesmo assim já sonhava em pedalar até lugares tão distintos quanto a Patagônia ou Capão da Canoa.

De lá para cá, usei a bicicleta para alcançar muitos lugares, uns mais distantes que outros mas sempre foi uma experiência única e que me marcou profundamente. O tempo passou mas esse romantismo incrustado em usar seus próprios meios para viajar de um lugar a outro não morreu. Porém tenho descoberto que além da satisfação no deslocamento ponto A – ponto B usando a bicicleta, existe algo em pedalar por horas a fio que é por si só meditativo, simplificador. E isso também é uma recompensa em buscar longas distâncias, quer seja pedalando, correndo ou mesmo caminhando.

Com essa ideia na cabeça, reavivei a minha antiga vontade de fazer uma prova de Audax. Pra quem não sabe, Audax “é o nome dado no Brasil a um evento ciclístico não-competitivo e de longa distância, conhecido internacionalmente pelo nome de Randonneur¹ . Já faz tempo que vou guardando essa vontade em algum cantinho, junto com todos os planos e metas que ficam para depois, que eu gostaria de fazer mas não faço. No caso do Audax, sempre acabei não me comprometendo, achando muito complexo todos os equipamentos obrigatórios ou inventando outras tantas desculpas. Muitas vezes eu dizia pra mim mesmo que seria bem mais simples sair e fazer desafios de longa distância autoimpostos, autônomos, mas nem isso levei adiante. Ás vezes é bobo como pequenas coisas podem mudar uma atitude que levamos há um tempo, bastou alguns documentários na ordem certa (como o Ride The Divide, por exemplo) juntamente com uma conversa com um amigo que recém tinha feito um Audax 300 para me convencer à me comprometer em fazer um o quanto antes.

Busquei no calendário de provas brasileiras no site Randonneurs Brasil e me inscrevi no próximo Audax 200 disponível, uma prova noturna com chegada ao topo, no interior do Rio Grande do Sul, no município de Teutônia. A prova de 200 quilômetros é a entrada oficial para os Audax e a partir dessa, as distâncias são 300, 400, 600, 1000, 1200 e 1400.

Depois de inscrito foi uma questão de organização, consegui os equipos obrigatórios que eu não tinha emprestados, encomendei duas bolsas para levar minha alimentação com o querido Gabé da Eleven Bags e meu pai ofereceu uma providencial carona de ida e volta até Teutônia.

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Na largada tive vários problemas técnicos. O Strava não achava sinal de GPS e o ciclo-computador não tava marcando nada. Sem qualquer um dos dois eu me virava, mas sem os dois ficava muito difícil de eu controlar minha média e ir cuidando minha estratégia de prova. Dei play no Strava assim mesmo, em geral ele dá um jeito na questão do sinal no meio do ride. A prova largou à margem de um lago artificial, no topo de um morro em Teutônia, e deveríamos dar a volta nesse lago para separar o grupo antes da descida brutal que se seguia. Ao final da volta resolvi parar e consertar o ciclo-computador, por mais que ficar pra trás já na largada era emocionalmente devastado, não era uma prova competitiva e o ciclo-computador ia fazer muita falta. Com um pouco de paciência, ajustei o ímã e consegui leitura das tão importantes velocidade média, quilometragem e tempo. Nesse momento eu nem imaginava que o Strava não gravaria nada no percurso todo.

Segui caminho e iniciei de fato a prova, ainda era dia e fui descendo com cautela a ladeira absurda que no fim da prova todos subiríamos. Depois dos quase oito quilômetros de descida que passaram num piscar, o trajeto seguiu por essas estradas menores, rurais com subidas leves e asfalto bom. Fui passando diversos grupos até achar uns pelotões com velocidade parecida com a minha, tentei me acomodar ali porque estava inseguro com as muitas bifurcações e conversões. Quase todxs pareciam ser da região e conhecer bem tudo a nossa volta.

Com pouco mais de uma hora cheguei no primeiro PC, onde devemos carimbar nossos “passaportes” e podemos recarregar nossas garrafas e comer algumas frutas que a organização oferece. Comi umas quatro bananas apesar de ter comido uma barra de frutas secas com cerca de 40 minutos de prova. Enchi as garrafas e segui, muita gente opta por fazer pequenas (ou longas) pausas nos PCs, mas eu começo a ficar preguiçoso se não estou em movimento.

Voltei pela mesma estrada até um ponto, vendo os grupos que iam em direção ao primeiro PC, em determinado ponto segui reto e encontrei um novo grupo com velocidade semelhante a minha para seguir. A noite começava a chegar e ligamos nossas luzes enquanto passávamos por uma região mais urbanizada onde as pessoas curtiam o sábado. O tempo foi passando e chegamos ao segundo PC, onde havia além das frutas e água, uma lancheria onde muitxs estavam parando para comer algo mais consistente. Comi mais umas quatro ou cinco bananas e uma maçã sem desmontar da bicicleta, carimbei meu passaporte e reenchi as caramanholas.

Quando vi, um grupo de cinco ciclistas montou nas bicicletas e voltou à estrada, resolvi segui-los. Não eram muitxs saindo em função da parada pra janta, então não podia ser muito picky. No fim foi uma boa escolha e acabei seguindo esse grupo por quase todo o percurso. Eu era um pouco mais rápido nas subidas, mas eles ganhavam distância nas descidas porque tinham faróis muito melhores e podiam enxergar mais do que apenas cinco metros à frente deles. Minha iluminação precária me prejudicou bastante num trecho em que pedalamos em uma estrada duplicada e muito movimentada porque o acostamento era extremamente sujo com pedaços de pneus e todo o tipo de lataria que eu só enxergava no último segundo. Por sorte esse trecho não foi longo.

O trajeto ia serpenteando por aquela região por onde eu nunca tinha estado antes. Fiquei imaginado como teria sido pedalar por ali durante o dia, mas sem perder a certeza de que a noite estava sendo muito mais agradável e misteriosa. Numa das estradas mais bonitas que pegamos a lua finalmente saiu de trás das nuvens e iluminou o sobe e desce sútil do asfalto. Passamos por um casamento nessa mesma estrada e imagino que nos estranharam tanto quanto eu estranhei elxs e seus hábitos “normais”.

Algo que me surpreendeu muito e me marcou foi que durante todo o percurso o ar estava saturado do cheiro de urina e fezes de galinhas e porcos. Raros foram os momentos em que senti o aroma do campo, aquele que temos em memórias de infância. Parece que estou pensando no meu conforto quando falo isso, mas o choque não é em função do cheiro, mas por deixar sentir, por evidenciar o massacre industrial de milhares de animais que acontece ali. Toda a região está tomada de criações intensivas de animais para serem assassinados e transformados produtos.

Todos esses gatilhos me fizeram não perceber, mas a meta inicial de 66,6km (um terço de prova, coincidentemente) tinha passado fácil e eu já batia 120km sem muitos sinais de cansaço. A estratégia de alimentação e poucas pausas estava dando certo… Comecei a me entendiar e ouvi um pouco de música para me motivar no último terço. Nessa altura me preocupava apenas com a subida final, o grande desafio dessa prova.

Nos últimos quilômetros antes da subida um grupo grande pedalava junto, talvez por estarmos chegando no final o ritmo geral estava se equilibrando. Saímos da estrada maior e entramos no caminho rural que levava a chegada, no pé do morro um PA – posto de alimentação – oferecia salada de frutas estupidamente gelada. Fiquei na dúvida se comia ou não, afinal subir lomba de barriga cheia não tá com nada. Acabei comendo, mas jogando fora os milhões de cubos de gelo, era umas 3h00 da manhã e não fazia muito calor. A ansiedade no PA era palpável, e só relembrar agora já me deixa com um nó no estomago. Como nas outras paradas, resolvi não me demorar, ainda mais faltando tão pouco. Quando uns dois ou três que estavam ali há um tempo saíram focados eu montei na bicicleta e os segui.

Uma curva depois e os oito quilômetros mais lentos do mundo começaram, cada metro sendo ganhado diagonalmente, em um zigue-zague sofrido, numa escuridão total que era no fim aliada por não deixar ver o topo e a inclinação abismal. No caminho alguns ciclistas empurrando, outros tentando achar algum sopro de ar restante no pulmão. Essa parte, mais do que todo o resto, era uma batalha individual consigo mesmx. Custou, mas em algum momento eu cheguei, estava de volta ao lago. Fiz uma foto, ganhei uma medalha, me alonguei e me atirei num canto para esperar a meu pai e a carona de volta.

Quem sabe ainda esse ano eu ache tempo e coragem para me aventurar em desafios de 300, 400 e talvez até mais quilômetros. Quem sabe dessa vez eu não engavete essa e outras vontades e projetos por tanto tempo, mas pensando melhor acho que foi no momento certo.

Para uma próxima, preciso de um farol melhor, mais conhecimento da região/trajeto e provavelmente algum tipo de treino.

O que eu ingeri:

4 Barrinhas de Frutas secas
3 Garrafas de MaltoDextrina
5 Garrafas d’Água
12 Bananas
1 Maçã
2 Sanduíches de melado, banana e manteiga de amendoim
1 Copo de Frukito
1 Copo de Salada de Fruta
1 Pacote de Oreo

O que eu levei:

1 Casaco corta vento Solo
1 Cobertor de Emergência – achava que era obrigatório, mas não era. Por sorte levei pois me  manteve aquecido no pós-prova na madrugada fria.
4 Pilhas reservas AA – para a lanterna dianteira. Desnecessárias, não gastei sequer uma.
4 Pilhas reservas AAA – para o farol dianteiro. Desnecessárias também .
Farol Cateye HL-EL135 – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Farol Knog Blinder – carregamento USB, não serve como lanterna principal pelo regulamento por não ser possível levar baterias reservas. Ilumina muito melhor que a Cateye que levei e poupei para os trechos mais complexos.
Lanterna Traseira Qlite – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Lanterna Traseira Knog Blinder – Idem dianteira.
Ciclo-computador simples com fio.
2 Câmaras reservas
Bomba
Canivete Multiferramentas
Espátulas
Kit de Remendos
Dinheiro reserva
Identidade

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A prova de nada – Aquatrekking na Jungle

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 Keny Arkana - Tout tourne autour du soleil

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Não dá nem pra contar quantas vezes bolamos planos de viagens que não saem do papel. Em especial quando tem feriado se aproximando. É sempre um malabarismo tentando equilibrar diferentes vontades e possibilidades e tornar um desses planos realidade. Não ajuda muito o fato de que roteiros e trilhas de trekking não são assim tão comuns.

Para esse feriado de Páscoa que passou tivemos o mesmo brainstorming coletivo de sempre, muitas ideias de onde poderíamos ir, algumas muito distantes, outras muito longas, umas muito curtas… Pensamos em caminhar no Pontal de Tapes, nos cânions da fronteira com Santa Catarina e na cachoeira escondida de Nova Roma do Sul. Aos poucos o grupo foi diminuindo e as opções se limitando até o ponto de decidirmos por uma trilha que encontramos no Wikiloc, chamada “Garapiá-Bananeiras” em Maquiné/RS.

Dia 1 – Sexta

Pegamos o ônibus das 06h30 de Porto Alegre até Osório, teria sido mais confortável pegar o das 07h30, mas em função do feriado não tinha mais lugar para nós quatro. Chegando em Osório tivemos que esperar pelo primeiro ônibus que leva até Maquiné que sai às 09h20 diariamente.  Para passar o tempo, armamos um picnic num terreno baldio em frente à rodoviária, desenrolei o footprint de tyvek e nos posicionamos para nosso merecido desjejum. Nem bem sentamos e começou uma garoa daquelas super finas, fizemos um esforço tentando ignorar a situação e seguir com nosso plano, mas era cedo demais para molhar todas as nossas coisas. Nos escondemos na marquise de uma imobiliária que estava fechada em função do feriado.

Eu tava caindo de sono, a noite tinha sido super curta pois tive que ficar até tarde organizando tudo para a vinda… em geral sou bem metódico e adianto esse empacotamento deixando tudo pronto com antecedência, mas dessa vez foi super corrido e em cima da hora. Estiquei o isolante nos degraus da imobiliária que nos abrigava e tentei um cochilo. Dormir rapidamente e em qualquer posição não é meu forte e o cochilo não vingou.

Catamos nossas coisas e embarcamos no pinga-pinga até Maquiné. Uma hora e quarenta depois e o ônibus nos larga na bifurcação da Barra do Ouro. Chove mais forte agora, casacos impermeáveis, mochilas nas costas e iniciamos a caminhada. O arquivo de GPS inicia justamente aqui, provavelmente es autores também vieram de ônibus, daqui pra frente serão 31km. Na verdade ainda não tínhamos bem certo se faríamos a trilha inteira terminando na RS-486, precisando daí agilizar uma carona para voltar, ou se seria melhor retornar mais ou menos na metade do caminho para pegar o ônibus aqui.

Caminhamos pelas já conhecidas estradas do distrito da Barra do Ouro debaixo de muita chuva, nos abrigamos como pudemos debaixo de uma árvore para comer alguma coisa. Ainda bem que tínhamos alguns sanduíches prontos porque cozinhar com essa chuva não seria tarefa fácil. Não nos demoramos muito, molhades como estávamos perdíamos muito calor parades.

Cerca de dez quilômetros depois a estrada cedia lugar a trilha, mas não antes de cruzar o rio caudaloso. Tivemos bastante trabalho na travessia com água quase nas nossas cinturas. Mas o maior problema não foi cruzar, mais tarde iriamos descobrir que o GPS estava nos pregando uma peça e estávamos na trilha errada já de partida.

A trilha ia subindo bastante, numa mata com características de cerrado e passando por algumas roças de milho e algumas pequenas casas, a chuva não dava trégua e depois de subirmos um pouco começamos a percorrer um caminho de barro bem característico de trilhas criadas por animais. Não demorou para termos que negociar nossa passagem com uma égua que pastava bem no meio do trilho. A negociação foi mal sucedida e acabamos mesmo é dando a volta. A mata foi fechando e os trilhos criados pelos animais eram ambíguos, começamos a perceber que estávamos perdendo controle da direção. Tentando acompanhar o nosso ponto no GPS percebemos que tinha um delay de alguns metros e isso tornava impossível de saber onde estávamos de fato, apenas quando parávamos o ponto azul nos buscava e aí percebíamos que estávamos fora do log.

Depois de ir e voltar tentando reencontrar o caminho, escorregar nos barrancos molhados e muito se arranhar nos milhões de cipós espinhentos resolvemos encarar os fatos; Não fazíamos ideia de quanto faltava para chegarmos aos campos da serrinha onde seria possível acampar, muito menos sabíamos como chegaríamos lá, estávamos na chuva desde as nove da manhã e estava quase anoitecendo. Optamos por dar meia volta, retraçar nossos passos e acampar na barra do ouro, uma opção mais cautelosa.

Descemos rápido, seguindo nossos próprios passos enquanto a luz ia se extinguindo e a trilha ia ganhando uma tonalidade azulada. Cruzamos o rio novamente dessa vez com mais confiança e agilidade e logo estávamos no camping. Tivemos sorte que tinha um galpão onde pudemos cozinhar e estender nossas roupas encharcadas em volta do fogão a lenha.

Apenas um dia de caminhada e já tínhamos bastante história para contar, ficamos rindo de nossas presepadas e amadorismo junto com o dono do camping que prometeu nos levar na trilha certa no dia seguinte.

Dia 2 – Sábado

Como de costume, acordei antes do restante. Não demorou muito e meu companheiro de barraca também despertou, tomamos café da manhã, organizamos nossas coisas e nem sinal da outra barraca. Resolvemos dar um pulo até a Cascata do Garapiá não muito distante dali. Retornamos e o restante do pessoal começava a se mexer. Por volta das 10h começamos a caminhada acompanhados pelo Eduardo, o  proprietário do camping, e uma matilha de cães. Cruzamos o rio em um ponto diferente e lá sim começava a trilha! Um trilho profundo, que as vezes chegava a ter um metro de profundidade, formado por anos de incursões de tropeiros e tropeiras e reforçado pela descida da água do morro.

 

Seguimos esse trilho estreito e profundo atrás do Eduardo que ia nos mostrando o caminho. Apesar de fazer um dia ensolarado a trilha mais parecia um riacho de tanta água que escoava da chuvas do dia anterior. Subimos um bocado até um ponto que nos despedimos do Eduardo e seguimos por conta.

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Apesar da trilha ser bem demarcada, dos barrancos laterais nascem muitos arbustos espinhentos que não permitem um deslocamento muito ligeiro e confortável. Mais um pouco de subida e finalmente um alívio visual, subindo em uma grande pedra é possível ter um panorama do vale da Barra do Ouro. Uma vista que vale muito a pena e que é fácil passar despercebida. De volta a mata fechada que agora ia ganhando mais e mais araucárias e deixando de ser tão espinhenta!

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Depois de 3h de caminhadas chegamos ao mirante na borda do cânion, de lá pode-se ver uma bela cascata que vai terminar alimentando o rio Garapiá. Fizemos um intervalo para o almoço nós e nossa matilha que seguia firme conosco. Tiramos uma sesta apesar de que sentíamos frio por estarmos molhades de caminhar na água e de se esfregar na vegetação encharcada da chuva do dia anterior.

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Iniciamos a descida às 15h, já um pouco tarde, mas contando que descer seria mais rápido do que subir. Depois de um bocado de descida, já com a pele cansada de tanto lutar com os espinhos, começamos a não reconhecer a mata… a selva úmida por onde tínhamos subido tinha dado lugar à uma vegetação mais seca, como se fosse uma face do morro mais exposta ao sol. Decidimos por voltar e buscar a bifurcação onde tínhamos perdido a direção. A gravação de GPS que eu fiz da subida para termos de backup na hora de descer era apenas uma linha reta, e a tal da bifurcação não existia. Optamos por voltar a descer por essa trilha mesmo sabendo que não era a correta.

Andamos pouco e chegamos num ponto onde a trilha parecia acabar. Já passava das 17h e a essa altura já tínhamos perdido toda a confiança em nosso senso de direção e a única certeza que tínhamos era que descendo em linha reta chegaríamos ao rio e de lá seria fácil voltar ao camping. Foi isso que fizemos, nos embrenhamos na mata fechada, barranco abaixo. Ligamos o survival mode, já não contávamos mais piadas, mal dizíamos qualquer coisa.

Nos aliviamos quando a mata se abriu e deu lugar a uma área desmatada e descuidada onde nasceu um capinzal. Foi um alívio visual podermos enxergar que o morro estava acabando e que em algum lugar logo abaixo teria de estar o rio. Mas entrar no capinzal provou que o alívio era mesmo apenas visual, ficamos totalmente encobertos pelo capim alto e denso, não se podia ver mais do que alguns centímetros. Conforme íamos caminhando, caíamos em valas como se o barranco tivesse sido moldado em degraus para algum tipo de cultivo e o que era mata antes agora eram troncos queimados e caídos onde pisávamos em falso.

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Custou muito superar o capinzal, em silêncio fomos aguentando os tombos, torções e cortes que o capim e o terreno iam infringindo na gente. As vezes chamávamos ume pele outre só afim de confirmar que ninguém tinha ficado para trás. O Ogro foi o primeiro a alcançar um riachinho que nos encheu de esperança… talvez seguindo esse curso d’água chegaríamos no rio! A cachorra branca que nos acompanhava seguiu na frente o que foi outro bom sinal, parecia que finalmente ela reconhecia onde estávamos. Já com headlamps acesas começamos a seguir uma trilha fina, uma mangueira d’água e um cabeamento de energia elétrica… era de uma casa onde imaginamos que essa companheira canina vivia, mas que estava fechada e aparentemente vazia. Mais alguns passos apressados e encontramos o inicio do trilho por onde tínhamos subido pela manhã e finalmente o rio no mesmo ponto onde cruzamos.

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Passava das 18h mas agora tudo que tínhamos que fazer era seguir a estrada até o camping. Missão cumprida aos trancos, meio envergonhades de tantos erros e amadorismos. Relembrando juntes mais tarde, percebemos que durante todo o tempo todes estavam fazendo cálculos de quanta água e quanta comida tínhamos em nossas pequenas mochilas de quem só foi passar o dia e imaginando como seria passar a noite enrolados em si mesmes tentando combater o frio. O bom de quando as coisas não saem como planejamos é que aprendemos muito mais.

Descobrindo que somos iniciantes no Circuito das Cascatas e Montanhas

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Para ler ouvindo:
 Deafheaven - SUNBATHER
 Modest Mouse - The Moon and Antarctica

Fazia um tempo que pesquisava sobre esses roteiros de cicloturismo que vem surgindo nos últimos anos. O Circuito das Cascatas e Montanhas por ser bem próximo de Porto Alegre era um dos que mais chamava a atenção e mais de uma vez tinha pensado em percorrê-lo a pé, ao invés de bicicleta. Quando o João me convidou para ir com ele não precisei pensar muito, de bike não precisaríamos de muitos dias nem de muita logística.

O roteiro é dividido em 4 etapas que é o formato que sugerem que seja feito, iniciando por Rolante, seguindo por Riozinho, Boa Esperança, São Francisco de Paula e retornando pra Rolante. Com uma média de cerca de 35km por etapa e paradas estratégicas para pernoitar nas cidades com infraestrutura. Preferimos fazer o trajeto em menos dias e de forma autônoma, levando nossa própria comida e acampando onde fosse possível. Dividimos em 3 etapas de cerca de 50km cada, sem fazer muita questão de decidir exatamente onde pararíamos a cada dia, tornando mais solta a viagem e deixando mais liberdade para mudanças de ideias pelo caminho.

Dia 1 – Porto Alegre

Acordamos cedo e fomos até a rodoviária para pegar o ônibus até Taquara/RS. O ônibus das 07h00 estava lotado e tivemos que aguardar para pegar o das 09h00. Embarcar no ônibus com as bicicletas é sempre uma luta, para piorar a cobradora lembrava de termos embarcado outra vez e ela ter deixado claro que aquela seria a última…  estávamos tentando a sorte, com um pouco de insistência conseguimos e dessa vez sim seria a última😛

Desembarcamos passando das 10h em Taquara, duas horas mais tarde que o planejado, e prontamente pegamos o asfalto rumo ao inicio do Circuito. No caminho a fome ia começando a corroer nossos pensamentos… o plano inicial era um lanche em algum lugar já bem pra frente do percurso, mas como tudo tinha atrasado optamos por parar num restaurante bem no pórtico de Rolante.

Todos as variações possíveis de carboidratos ingeridas, barriga cheia, sol rasgando a pele e lá vamos nós! Poucos quilômetros adiante entramos de fato no centro de Rolante, a ideia era pegar o manual do Circuito, mas obviamente em cidade pequena tudo fecha nesse horário.

Seguimos então confiando só nos logs que tinhamos baixado e nas placas informativas. O sol estava fritando nossa pele e a sensação de calor no vale de Rolante era altíssima. Me fazia lembrar do documentário que assisti outro dia sobre ultramaratonas no deserto e essa lembrança mantinha minha mente sólida.

Só por volta das 15h algumas nuvens começaram a rolar pelo céu e até trouxeram alguns pingos de chuva. Mal tínhamos começado e já estávamos enfrentando subidas íngremes e com pedras soltas que nos fizeram empurrar as bikes, algo que eu não imaginava que rolaria nesse Circuito que é classificado como de nível iniciante.

Mas já que tem montanhas tem que ter cascatas! A primeira do Circuito é a da Colônia dos Monges, em um terreno da Prefeitura, o acesso é fácil e pudemos chegar com as bicicletas quase até a água. A cascata tem uma queda de cerca de 2 metros de altura, e quando estivemos lá estava com pouca vazão então nos refrescamos direto debaixo da queda! Um banho gelado e forte massageando nossos corpos e refrescando nossas mentes! No terreno tem uma torneira onde aproveitamos para recarregar nossas garrafas e bolsas de hidratação.

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A tarde ia correndo, mais e mais nuvens se acumularam no céu encobrindo totalmente o sol. Já estava chegando a hora de encontrar um lugar para passar a noite. Uma última subida íngreme já debaixo de chuva fina e gelada e encontramos uma bifurcação para uma estrada menor e nessa uma antiga estrada já há muito abandonada onde escolhemos montar nosso acampamento.

Fizemos um reconhecimento do terreno, a chuva deu uma trégua e enquanto o João armava a barraca, eu estendia o saco de bivaque, depois iniciamos a janta. Cardápio de hoje: Massa instantânea com Feijão Carioquinha Orgânico pré pronto, batata palha, azeite de oliva e pimenta, bastante pimenta.

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Dia 2 – Em algum lugar no interior de Riozinho

Não foi a melhor das noites, mesmo para mim que já não durmo muito bem nem na cidade. Primeiro foi o calor dentro do saco de bivaque, depois o isolante inflável furado, então a chuva. Cansado de tentar, olhei para o relógio torcendo para que já fosse hora de acordar: 23h40. Vou ter que tentar dormir “um pouco mais” … por incrível que pareça a chuva foi a solução porque ajudou a baixar a temperatura e consegui voltar pro bivaque. Dormi, uma sucessão de cochilos e tive todos os sonhos possíveis e imagináveis, mas ainda assim dormi. As 06h eu finalmente estava farto da batalha e me pus de pé.

Logo João também despertou e começamos a organizar as coisas e tomar nosso café da manhã: Aveia hidratada com passas diversas, farinha de amendoim, chia e açúcar mascavo. Terminamos de empacotar e deixamos nosso lar inclinado na mata antes das 08h00.

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Nem bem saímos e começamos a subir… o dia estava mais fresco e volta e meia garoava levemente. Poucos quilômetros depois uma placa informava que a estrada por onde devíamos seguir estava interditada. Tudo indicava que o caminho era esse e chegamos a conclusão de que a interdição fosse apenas para carros e caminhões, já que as placas não levam muito em consideração as pessoas em bicicletas. Seguimos e a estrada foi virando duas trilhas lado a lado, o mato tomando conta no meio e as pedras rolando como bem entendem sem serem compactadas pelas toneladas de aço. O nível técnico dessa parte do percurso era altíssimo, ao menos para bicicletas de cross carregadas com equipamentos de camping e comida para três dias… íamos descendo e rindo disso todo o tempo… se isso era para iniciantes, imagina o que seria para experientes?!

Seguíamos descendo por esta trilha pedregosa e cheia de curvas, me fazendo pensar o porque de subir tanto para depois descer tudo e ter que subir outra vez! Enquanto minha mente se distraia voei e só me dei por mim no chão, estirado debaixo da bike! Tudo doía e eu nem bem tinha força de tirar a bicicleta carregada de cima de mim. João veio me ajudar e fiquei ali contemplando meus esfolados e avaliando se tinha algum ferimento grave; tudo muito dolorido e esfolado e começando a inchar, mas nada grave a principio. Tentando descobrir o porque da queda percebemos que com a trepidação intensa da descida irregular um dos pneus reservas que eu levava saiu do lugar e entrou na roda dianteira me ejetando da bicicleta! :/ Depois de uma dessas a pouca confiança que eu tinha na minha destreza em guiar minha bike por aquele terreno ficou bem balançada e a ideia de desistir começou a passar pela minha cabeça.

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Mais umas curvas – e um trecho de trilha que somente pilotos de downhill em bicicletas fullsuspension poderiam encarar – e chegamos na segunda cascata do Circuito: a Cascata do Chuvisqueiro. Já caia uma chuva fina e fria à essas alturas, mas uma coisa que aprendi é “sempre mergulhe quando a oportunidade aparecer”. A Cascata do Chuvisqueiro é linda e gigantesca com 78 metros de altura, uma piscina ampla e de fácil acesso, o terreno é particular e conta com área de camping, parece que o acesso é cobrado, mas nós não pagamos nada, talvez em função da chuva não tinha movimento por lá. Daria facilmente para passar o dia inteiro por lá… mas precisávamos seguir.

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Pouco adiante é a entrada para a terceira cascata, a das Três Quedas. Essa optamos por não ir para não nos atrasarmos. Falta informação muitas vezes de quão longe as Cascatas estão da estrada principal e qual a condição da estrada, para ficar mais fácil de avaliar o tempo que vai tomar. Como nossa intenção era em fazer o Circuito em 3 dias, tínhamos que manter certo ritmo.

Logo em seguida chegamos em Mascarada, uma pequena vila onde pegamos uma bifurcação para a Cascata das Andorinhas. A partir da bifurcação andamos uns 2 quilômetros por uma estrada bem embarrada que aos poucos se tornou uma trilha e por fim o caminho era pelo próprio leito do rio por cerca de 200 metros, tudo com a bicicleta cheia de tralhas nas costas. Finalmente avistamos a gruta curvada em S, como que um mini cânion que esconde a cascata das Andorinhas. Um lugar realmente único e muito bonito, como nada que eu tinha visto antes.

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Voltamos pelo mesmo caminho, parando no cemitério para repor nossa água, passando novamente por Mascarada e já quase chegando em Boa Esperança encontramos uma sombra debaixo de dois grandes plátanos para fazer uma pausa para o almoço: Polenta cozida direto no molho vermelho e massa instantânea com seleta de legumes. Tiramos um tempo para uma soneca também, seria bom se esconder um pouco do sol que voltara a dar as caras e também já tínhamos completado 25km, metade da meta do dia.

Não tínhamos noção, mas nossa pausa do almoço foi justamente antes do inicio da subida da serra, a tão temida 3ª Etapa do circuito que nós resolvemos juntar no segundo dia. Em menos de 10km subimos quase 500 metros, chegando a 980 metros acima do nível do mar! Foi menos íngreme do que algumas subidas que enfrentamos no dia anterior, mas foi constante e cada curva escondia mais e mais subidas. Rapidamente a paisagem foi mudando de plantações de milho e eucalipto para plantações de pinus e volta e meia umas matas de araucárias resistindo a expansão humana. Nas beiradas da estradinha de chão agora tinham hortênsias, naturais da China e do Japão, mas que estranhamente viraram sinônimo de Serra no Rio Grande do Sul.

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Quando chegamos de fato ao topo, a estrada de chão tomou grandes proporções e tinha largura suficiente para dois caminhões grandes lado a lado e não demorou para que a gente começasse a notar esse fluxo. Caminhões carregados de toras passavam volta e meia e me fizeram lembrar daqueles vídeos que mostram a construção da Transamazônica… claro, em escala um tanto menor.

Começou a chover fino e tivemos nosso primeiro pneu furado. Não consegui trocar sozinho porque meu polegar esquerdo tinha inchado muito, nesses momentos percebemos como os polegares são importantes. Com o trabalho em equipe a troca foi super ágil apesar do pneu largo não casar bem com o aro de bicicleta de estrada. Eram já umas 16h00 e começávamos a cansar e olhar para os lados da estrada buscando um esconderijo para a noite. Plantações e mais plantações de pinus e no fundinho eu me sentia meio que ludibriado por toda a propaganda que tinha sido feita sobre o trecho dos campos de cima da serra… onde eles estavam? Só o que eu via era o impacto da indústria da celulose e as árvores em linha, geometricamente plantadas por máquinas, onde nada mais vive.  Seguíamos tocando, no plano desenvolvíamos facilmente até que a chuva apertou muito e trovões começaram a soar. Paramos para pegar água na única construção em muito tempo, a sede da empresa de celulose. Aproveitamos para nos abrigar da chuva grossa e pegamos algumas dicas de alojamento em São Francisco de Paula, caso não desse certo o plano de ficar pela mata.

Água reabastecida, dicas anotadas e tempestade mais calma. Nos encasacamos e seguimos. Eu estava tão gelado e cansado que começava a achar que um hotelzinho barato em São Francisco de Paula seria uma boa pedida, não falamos sobre isso, só pedalamos e quando vimos estávamos na cidade. Paramos no Hotel barato que tinham nos indicado mas o valor era alto demais e não oferecia nada… resolvemos pedalar pela cidade em busca de alternativas. Acabamos no Corpo de Bombeiros, pedi alguma sugestão de lugar para acampar e obviamente nos ofereceram para ficar por ali mesmo.

Nos acomodamos atrás das viaturas, vestimos roupas secas e cozinhamos polenta com lentilha e seleta de legumes.

Dia 3 – São Francisco de Paula

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Quem poderia reclamar, foi uma noite seca e gratuita… mas ainda assim foi conturbada. Bombeiros para lá e para cá, lampadas fluorecentes potentes ligadas e chão muito mais duro que na mata. Mas teria sido muito mais miserável qualquer outra opção já que boa parte de nossas coisas estavam molhadas.

Levantamos um pouco mais tarde e nos enrolamos para sair. A chuva que caiu à noite toda seguia forte. A etapa de hoje era principalmente de descidas e apenas uns 40km.

Sair na chuva nunca é fácil, algo que aprendemos desde cedo é não pegar chuva, do contrário você morrerá de uma gripe terrível! Mas muita gente vive pegando chuva e está vivinha, incluindo a gente🙂

Nos encasacamos, agradecemos os bombeiros de plantão e pegamos a estrada. O dia de hoje prometia ser mais fácil em função de ser principalmente em declive, mas eu tava com receio dessa multitude de descidas molhadas, escorregadias e íngremes, nesse momento preferiria fazer força subindo.

Saindo do centro de São Chico chegamos ao Lago São Bernardo que é ponto turístico da cidade. A chuva fina e a neblina deixavam tudo com um ar ainda mais tipico. Paramos para uma foto e duas quadras mais além chegávamos de volta à estrada de chão. A partir daí descemos todo o tempo, volta e meia não tínhamos escolha senão parar um pouco e dar uma folga para nossas mãos e pastilhas de freio.
Boa parte da estrada não era tão técnica como em alguns dos trechos dos dias anteriores, mas o barro não ajudava muito na tração.

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Em uma bifurcação acabamos errando o caminho e só percebemos muito pra frente o que nos fez optar por seguir por essa estrada que no fim era paralela à oficial. Chegamos por volta do meio dia e meio na RS-239 bem na altura do mesmo restaurante onde almoçamos no primeiro dia. Obviamente estávamos cansados, encharcados e com fome então resolvemos parar para o almoço.

Durante o almoço desistimos de ir pedalando de volta para Porto Alegre, as minhas marchas não trocavam mais em função do barro, não tínhamos mais freio e já estava ficando tarde para cobrir a distância toda. Optamos por pedalar até Taquara e tentar a sorte de pôr as bikes no ônibus para PoA.

Voltar pro asfalto não era algo pelo qual eu estava ansioso, depois veio a rodoviária, o ônibus e as grandes cidades que fazer parte da região metropolitana de Porto Alegre, a grande mancha cinza que encobre o mapa. Nunca é uma transição fácil e essa ainda tinha gosto de final de férias e volta à rotina.

Vou sentir falta de ter várias cascatas no meio dos meus trajetos.

O que eu levei:

Cozinha:
Fogareiro à Álcool
Panela tipo marmita de R$1,99
Pote Plástico (para auxiliar na “cozinha”)
Faca Opinel Nº 09
Spork LightMyFire

Ferramentas:
Canivete de Ferramentas EMT Sport SPZ
Bomba Airace
02 câmaras reservas 700x40c
02 pneus reservas 700x32c
02 câmaras reservas 700x32c
Chain Tool Topeak

Roupas:
02 camisas de linho mangas longa
01 camiseta sintética manga curta
01 camiseta polar manga longa
01 cueca para dormir
Calção de corrida (pra banho)
Bretele
Par de luvas de ciclismo com dedos
Toalha de linho UL
02 pares de meias
Bandana
Jaqueta Impermeável

Abrigo:
Saco de Bivaque Rab Storm Bivvy
Saco de Dormir Deuter Dream Light 500
Isolante Inflável Mammut CMP SlideStop

Packs
Mochila de Hidratação 2L+10L Curtlo X-Skin
Bolsa de Guidom Tour de France Impermeável
Saco estanque 12L Silva
Saco estanque 5L Sea to Summit

 

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Encarando estradas de chão só pelo pernoite a.k.a Inventando desculpa pra testar o saco de bivak

Assim, de uma hora pra outra, resolvi pegar a bici, juntar o que eu tinha de equipamentos em mãos e ir. Não é de agora que estou buscando estradinhas aqui perto de Porto Alegre para me perder, pedalar sem o estresse dos carros, curtir uma paisagem bucólica e, quem sabe, passar a  noite sob as estrelas. Tinha algumas rotas em especial arquivadas nas gavetas virtuais do mundo… só esperando o momento certo.

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Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 2

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Continuação…

A chuva não veio, apesar de que o medo dela tirou meu sono e meu saco de dormir não venceu o pouco frio que fez. Os dois trens que passaram na madrugada também nos acordaram, mas isso era esperado e pode-se dizer antecipado até, durante todo o primeiro dia não tinhamos visto um trem sequer. Acordamos de fato pouco antes das 06:00 e depois de desarmar o acampamento e tomar o café-da-manhã, reiniciamos a caminhada. O dia amanheceu nublado, mas ainda nada da chuva para nossa sorte. Estávamos divididxs entre tocar todo o dia e concluir a trilha, ou manter um ritmo mais tranquilo, acampar mais um dia e deixar alguns quilômetros finais para o dia seguinte. Como sempre os principais motivadores das decisões eram o cansaço versus a possibilidade de chuva torrencial que prometia a previsão.

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Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 1

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A previsão de chuva intensa para o fim de semana não nos desengajou, depois de ter superado o medo-do-medo-de-altura e o medo da claustrofobia uma chuva não era de assustar. A trilha na ferrovia do trigo, localizada na serra do Rio Grande do Sul, era uma caminhada que vínhamos falando em fazer há um tempo. Um misto de natureza e exploração urbana, a caminhada segue os trilhos da ferrovia construída para escoar o trigo nos anos 1970, passando por túneis extensos e totalmente claustrofóbicos e pontes altíssimas, construídas para superar os vales dos afluentes do Rio Guaporé. Muito se falava sobre a dificuldade de andar entre os trilhos, tendo que aterrissar os pés entre dormentes e britas pontudas e soltas, mas me preocupava mais as sensações que os túneis e pontes teriam em mim. Agora, enquanto escrevo esse relato, meus pés e panturrilhas doem de uma forma totalmente nova na minha curta experiência em trekking, a trilha-sem-trilha, a trilha ausente cobrou seu preço sobre nossos corpos.

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