Caminho

Para ler ouvindo:
Dead Can Dance - Labour of Love
Aldebaran - Embracing The Lightless Depths

 

 

Desço as ruas com nomes de pedras que desconheço.
Atravesso a pequena passarela amarela onde fui assaltado aquele dia.
Chego à pista de lazer e invejo as pessoas que correm.
Passo pelo senhor de black grisalho e as roupas surradas, com seu caminhar dificultado pela idade. Ele vindo e eu indo, sempre no mesmo ponto, pontual e rotineiro assim como eu. Penso em dar um bom dia.
Cruzo a Andradas, desvio do Boulevard e atravesso a Contorno.
Pela Grão Pará eu vou bem reto. Cruzo a Brasil e dou de ombros para a placa “rua sem saída” na esquina da Matriz da Sta. Efigênia. Essa esquina tem um cheiro pungente da fogueira de dias atrás que fizeram pra extinguir o gerivá. Querem que ele morra na raiz.
Nessa área de hospitais, tem sempre essa picape ambulância que eu adoraria transformar numa casa.
Uma subida súbita e os prédios começam a mudar. Na frente do Manhattan Residence mora um casal atrás de caixas de ar-condicionado split e impressoras profissionais Ricoh.
Atinjo a Getúlio. Em Beagá a Grão Pará é transversal à Getúlio e não paralela.
O busto de Getúlio ainda no canteiro central à espera de ser decepado. Parece que mesmo os café-com-leite com o tempo passaram a adorar o tirano.
Cruzo a Afonso Pena. Por esse vão de 8 pistas extremamente largas dá para ver o parque municipal e o centro lá embaixo.
Sigo na Getúlio passando pela sorveteria São Domingos e pouco depois pela saída da cidade rumo ao sul, a mesma que vou pegar dentro de alguns dias.
Assim do nada, o urbanismo para pedestres da Savassi toma conta: as esquinas largas, com faixa elevada e bancos no cruzamento da Cristovão, e as vagas-vivas assassinadas pelo capital, cobertas de patrocínio e pinturas de Rogério Fernandes com suas girafas, rinocerontes e moças em balanços com saias rodadas.
No canteiro onde eu almoço também tem uma dessas girafas. E depois dali, eu dobro a esquerda e chego ao meu destino. Tô adiantado.
O caminho longo e diário já me entedia, mas sei que vou sentir falta de cada uma dessas passagens.

Anúncios

Uma Travessia Metropolitana

Para ler ouvindo:
Skagos - Anarchic IV-V 
Petrograd - Mullet 

A primeira imagem que me chegou de Belo Horizonte, ainda antes de eu aterrissar por aqui, foi uma vista do bairro Saudade e das Vilas Fazendinha, Marçola e Nossa Senhora de Fátima. Minha mãe tirou essa foto da vista que se tem da casa de minha tia, onde fui recebido com muito carinho nesse tempo que estou aqui pela cidade. Lá no fundo da foto estava a Serra do Curral com o Pico de Belo Horizonte despontando. Quando eu cheguei aqui, peguei o hábito de ficar admirando essa montanha dia e noite. Subo numa pilha de tijolos com todo o cuidado pra não pisar em nenhum dos calangos que ali vivem e espio sobre o muro, observando essa formação geológica tão diferente das que se encontram lá na região onde eu moro.

Buscando por trilhas na região através do Wikiloc, encontrei essa travessia que inicia aqui em Belo Horizonte e vai até a cidade de Nova Lima que fica na região metropolitana logo atrás do morro, passando justamente por esse pico. Na hora fiquei com muita vontade de fazer a caminhada, mas fiquei apreensivo com a proximidade da área urbana e sem ter muita confiança para fazer esse caminho sem alguém local. Um conhecido disse que estavam organizando um grupo para fazer essa caminhada por lá, mas seria num fim de semana que eu não poderia participar. Acabamos perdendo contato e sequer fiquei sabendo se a caminhada aconteceu ou não.

Como a parceria não apareceu, eu arquivei essa ideia e foquei em outras travessias mais distantes dos centros urbanos. Pensei em fazer uma parte da Estrada Real, percurso de longa distância que existe aqui no sudeste seguindo caminhos coloniais de escoamento de ouro e outros minerais. Para fazer a rota que escolhi, precisava chegar até a cidade de Ouro Preto onde tinha inicio a caminhada. Minha intenção era conseguir uma carona de Belo Horizonte para Ouro Preto e economizar na passagem. Conversando com o pessoal da cidade, descobri que o melhor lugar para conseguir carona em direção ao sul do estado é no Posto Chefão, que fica na BR-040 na cidade de Nova Lima. Eu até poderia pegar um ônibus metropolitano de Beagá até Nova Lima, mas essa coincidência me pareceu com um chamado para retomar minha ideia e fazer a travessia do Pico de Belo Horizonte.

Iniciei logo cedo, sete da manhã já estava caminhando pelas calçadas do bairro. O inicio da trilha em si não estava distante mais do que 4km da casa da minha tia, então não precisei de outro tipo de locomoção que não as minhas próprias pernas. No dia interior fiz um reconhecimento dessa primeira parte do percurso, a parte mais urbana da caminhada. Passei pelas ruas que me levariam até o inicio da trilha e conheci os bairros por onde iria passar carregado na manhã seguinte. Eu sentia uma ansiedade gostosa de estar vivendo muitas coisas inéditas. Essa era a primeira trilha que eu estava fazendo em Minas Gerais, era a minha primeira trilha no cerrado e também minha primeira travessia sozinho.

A caminhada já começou com subidas intermitentes, mesmo ainda nas partes com calçamento. Depois de cerca de 40 minutos caminhando passei pela Seção de Ortopedia do Hospital Baleia e entrei no inicio da trilha, na minha esquerda. Ignorei a placa que proibia a entrada e continuei subindo, só que agora por uma trilha batida e pedregosa. Nessa parte ainda há bastante lixo e as trilhas são confusas, indo em diversas direções, umas mais marcadas que outras.

Pouco tempo depois do inicio da trilha íngreme, a natureza começa a parecer mais preservada e uma sensação de ter deixado a civilização para trás começou a me tomar por inteiro. Essa ilusão não durou muito porque logo comecei a ouvir os grunhidos das máquinas de mineração. Apesar de eu estar fazendo uma versão da Travessia que desvia do canteiro da mineradora, a rota ainda assim passa muito próximo das crateras que vão sendo aprofundadas a cada minuto. As máquinas vão transformando a montanha em uma pedra oca, me fazendo lembrar que a civilização dificilmente fica para trás, mesmo quando deixamos a cidade. A civilização se estende muito além dos limites urbanos e suas construções, e não por acaso, esconde seu maior impacto ali logo depois da curva. Na Serra do Curral isso fica evidente: uma montanha escolhida em plebiscito como ícone de Belo Horizonte, nada mais é que uma casquinha oca. De qualquer forma, o panorama que se tem da cidade segue sem rastros da destruição.

As crateras estavam a minha esquerda e a trilha que eu seguia ia se direcionando lentamente para a direita, descendo uma depressão para logo em seguida iniciar uma subida íngreme. Quando atingi o fundo da trilha, pouco antes da subida comecei a ouvir vozes. Alguém falava alto, como que discutindo, mas eu não conseguia entender o que dizia nem localizar onde a pessoa estava. Iniciei a subida e avistei um homem lá no topo, aparentemente falando sozinho ou no telefone. A trilha que subia interceptava uma pequena estrada de terra que vem da cidade passando pela entrada do Parque Mangabeiras e chegando até as muitas antenas de televisão, rádio e telefonia e um posto da Policia Militar localizados no pico. Pelo menos não era alguém no meio do mato gritando ao telefone, e sim numa estrada. Acho que ambos estranharam a presença um do outro, esses encontros assim no meio do nada são sempre carregados de uma tensão subliminar.

Segui meu rumo pela estrada, dando as costas para o homem ao telefone. A estrada ia virando para a esquerda em direção a mineradora. Agora a caminhada tinha uma vista incrível de toda a cidade mesmo eu não tendo atingido o Pico ainda. Mais alguns metros nessa estrada e avistei uma placa muito irônica que dizia: “Proibido acesso de Ciclistas e Pedestres. Área em Recuperação. EMPABRA – Empresa de Mineração Pau Branco” Logo abaixo dessa placa, as crateras, as máquinas e os muitos caminhões alinhados zombavam de qualquer definição de “práticas de mínimo impacto”. Outra vez ignorei o aviso, dessa vez com orgulho. Dali a estrada fazia uma curva para a direita e a trilha sai numa tangente subindo quase que em linha reta até o Pico. Subi patinando na pedra solta, um tipo de brita preta e graúda, usando muito as mãos e tentando recuperar o folego a cada passada até atingir uma trilha batida que serpenteava o contorno do Pico em si.

Cheguei ao topo em exatas duas horas. Uma visão panorâmica da cidade de Belo Horizonte, com o Parque Mangabeiras e as crateras de mineração em primeiro plano e os milhares de prédios logo atrás a perder de vista. Olhando para o outro lado, a lagoa da Mina de Águas Claras, fechada há 16 anos e com acesso interditado¹, e os municípios de Raposos e Nova Lima, meu destino. Fiz um rápido lanche e tirei uma porção de fotos que não ficaram muito boas. Comecei a descida íngreme em direção a Nova Lima, curioso para ver com o que esse lado da montanha se parecia.

Dizem que para descer todo o santo ajuda, e quando a rampa é íngreme e com pedrisco solto ajuda mesmo! No tracklog que eu seguia esse trecho era chamado de “descida rala bunda”, e com razão, tomei três tombos em poucos metros. Percebi na prática porque os bastões de caminhada nunca devem estar presos aos pulsos nas descidas. Sobrevivi a essa parte com apenas um esfolado na canela. A rota se juntou à uma estrada vicinal para depois entrar em uma mata seca em um trilho bem profundo, provavelmente cavocado por mountain bikes. Seguiu assim por um bom tempo até a chegada do asfalto e das primeiras casas de Nova Lima. Trilha concluída ao meio dia, na hora exata para pegar um almoço reforçado em algum self-service sem balança da cidade.

 

 

 

 

¹A Mina de Águas Claras foi intensamente explorada por sucessivas mineradoras, incluindo a MBR e a Vale, que detém o terreno até hoje. Desde que deixou de ser utilizada, existe ampla pressão para que seja dado um fim para a área e acesso público. O lago está enchendo lentamente com água de três córregos da região e quando terminar de encher será o lago mais profundo do Brasil com 234m. Essa Mina levou Carlos Drummond de Andrade a escrever o poema Triste Horizonte.

Belô Horizonte – uma semana depois

Para ler ouvindo:
S - This Way Always
Caves - The Mess I Made

Fez uma semana que cheguei em Belo Horizonte. O retrato da cidade que vivia na minha imaginação vai se dissipando aos poucos e uma imagem da BH que eu vou trilhando vai tomando seu lugar. Na minha ignorância tinha imaginado uma cidade antiga, com arquitetura colonial, mas me surpreendi com essa cidade planejada e com pouco mais de 100 anos. Falo em surpresa e pode soar como uma coisa boa mas na verdade essa surpresa é neutra. A arquitetura me interessa e obviamente conta uma história, porém sempre uma história de poder, seja a do poder colonial ou, nesse caso, do poder do capitalismo modernista. No fim uma cidade é sempre uma cidade e o que vai afetar nossa percepção são os encontros, as pessoas e o impacto dessas pessoas nesse lugar.

A impressão que construímos de uma cidade é muito influenciada por como se dão nossos deslocamentos. Estar hospedado próximo do centro permite que eu faça quase tudo a pé. Pensei em trazer minha bicicleta, mas estou contente que não trouxe. Caminhar é muito diferente, tem um ritmo mais meditativo e é um exercício de paciência. O tempo da caminhada me fascina. Não só a mim, claro. Tava lendo outro dia sobre como alguns filósofos conhecidos tinham a caminhada como um hábito diário, alguns caminhavam de forma metódica e outros de um jeito mais espontâneo, refletindo sua personalidade e a forma como desenvolviam suas ideias. Muita coisa vem à cabeça quando caminhamos, e na maioria das vezes parece tudo mais simples e organizado do que é, de fato, a realidade.

A história também é relativa, influenciada por nossa perspectiva e construída a cada segundo. Numa cidade nova desconhecemos as cicatrizes, os traumas de cada avenida e rua, e os prédios estão em branco esperando que a gente construa alguma memória ali ou desencave o seu passado. Até mesmo as pessoas são como novos mundos em potencial, sem ranços, predisposições ou tretas. Talvez a aventura da descoberta de novos universos e de escrever histórias frescas em cada esquina seja a grande recompensa de viajar.

Uma viagem dentro de outra – Pico Marumbi, Paraná

Para ler ouvindo:  
Petrograd - Get a Fuckin' Life
Raça Negra - Cheia de Manias

Eu não tinha sequer ouvido falar do Pico Marumbi antes. Eu nunca tinha olhado para essa montanha e pensado: Um dia vou subir lá no topo! Como com muitas outras viagens antes, fazer essa trilha não era meu sonho. Começa com um convite, com um sonho alheio, um plano de alguém próximo. Geralmente depois disso vem uma pesquisa extensa, leio relatos diversos, descrições sobre o lugar e as rotas, examino logs de trilha. Mas não dessa vez.

Larguei mão! Estou viajando há umas semanas e essa caminhada era apenas mais uma das etapas que eu tinha que me preparar. Pouco me informei sobre o Pico Marumbi, e isso explica muito o perrengue que passamos.

Curitiba

Saímos de São Paulo com destino à Curitiba num ônibus numa quinta-feira. Chegamos à noite com muito frio e depois de deixar nossas coisas fomos comer algo e caminhar pelas redondezas. Para sexta estava marcada a greve geral e torcíamos para que fosse ampla e paralisante, mas ao mesmo tempo precisávamos comprar nossos mantimentos e as passagens de ônibus para o Parque. Despertamos cedo e começamos uma jornada mista de compras, passeios, e visitas a amigos. Fomos muitos bem recebidos, com comida, conversas divertidas e profundas, e nos doaram alguns itens que faltavam na nossa lista de mantimentos.  Eu não estava em Curitiba desde 1993 e foi bom caminhar pela cidade. Andamos mais de 15km passando pelo centro, parques e muito mais. Isso adicionou cansaço às pernas que já vinham caminhando e correndo bastante em São Paulo.

De Curitiba há duas maneiras de se chegar ao Parque Estadual Pico do Marumbi, por trem ou por ônibus. Minha vontade maior era ir de trem, descer a montanha nessa máquina estranha, no seu ritmo estranho. Outra vantagem do trem é que o desembarque é no pé da montanha, direto na Estação Marumbi, onde também está localizado o acampamento base (para mais infos sobre o trem busque Serra Verde Express). Mas o valor da passagem é mais que o dobro do valor do ônibus, e não estou podendo gastar. De ônibus existem duas partidas pela linha Morretes (via Estrada da Graciosa), uma às 7h45 e outra às 9h. Pegamos o primeiro horário no sábado por falta de opção mesmo. Viajar no feriado é osso. Mas isso só depois de buscar nossa companheira de trilha que chegou em CWB no ônibus das 5h vinda de São Paulo.

Itupava

Fomos perguntando e descobrindo os macetes para chegar ao Parque. Seguem algumas dicas:
Quando embarcar no ônibus, peça para pular na ponte antes de Porto de Cima, um pequeno distrito da cidade de Morretes. Indique para o motorista o caminho de Itupava que é onde começa a estrada que leva até as estações. Pela estrada são quase 9km caminhando até o acampamento, existe uma outra possibilidade de chegar ao parque através de uma trilha de 25km de extensão, chamada Caminho de Itupava, mas só descobri isso depois. O caminho que fizemos é quase que inteiramente em estrada de chão, com cobertura de árvores e pouca exposição ao sol, seguindo o rio Nhudiaquara, sempre subindo, especialmente no fim. Na metade do caminho chega-se ao Centro de Visitantes, onde é possível pegar mais informações, recarregar a água e usar o banheiro. Se você vem de carro de passeio, é aqui que deve deixá-lo, porque a partir daqui a estrada só serve para carros tracionados. Mais quatro quilômetros e você chega na Estação Lange, a partir daí a caminhada segue uma trilha de pedras por mais 900 metros até a estação Marumbi (485m). Aqui você deve se identificar na Administração antes de mais nada – é importante que você já tenha reserva porque o camping tem limite de visitantes!

Estação Marumbi

Fomos logo montar nossa barraca e começar a pensar no que comer. O camping é bem estruturado, conta com banheiros com chuveiro quente, espaço coberto para cozinhar, energia elétrica e uma área gramada e bem drenada. Do camping se tem uma ótima vista dos picos do Parque Marumbi. Aqui a coisa começou a ficar tensa. O dia estava lindo e se podia ver com detalhe os cumes despontando. Era quase impossível imaginar que daria para subir aquelas pedras nuas e íngremes, encravadas na montanha verde, sem qualquer equipamento de escalada. Só o que se falava no acampamento base era sobre os desafios da caminhada. Não demorou muito para eu começar a ficar cheio de dúvidas.

Pouco depois de nos assentarmos, chegou o restante do nosso grupo. Tínhamos nos encontrado no Centro de Visitantes, mas subimos na frente. Com a barraca montada e a barriga cheia, fomos fazer a Trilha do Rochedinho (625m de altura), uma das menores do parque e que leva menos de duas horas para fazer. Nessa trilha tivemos nosso primeiro contato com os grampos: barras de metal fixadas nas pedras para possibilitar a ascensão e que estão presentes nas partes mais íngremes das trilhas. Próximo ao topo essa trilha segue pela cumeeira da montanha, dando um gostinho num grau muito menor da exposição ao risco de queda que caracterizam as trilhas principais. A vista lá de cima é incrível. Com tempo bom é possível ver o acampamento, a estação, todos os picos do Parque Marumbi, o rio Nhundiaquara e os trilhos do trem serpenteando vale acima passando por pontes e desfiladeiros.

De volta ao acampamento os planos para a subida começaram a tomar forma. Existem vários caminhos para a ascensão ao cume identificados por cores. A trilha vermelha, ou Noroeste, é descrita como a mais pesada e exposta, e passa por outros picos antes de chegar ao Olimpo. A trilha branca, ou Frontal, sobe diretamente ao Olimpo e é descrita como média-pesada. Fomos nos dividindo entre quem queria subir pela trilha vermelha e descer pela branca e quem ficava mais confortável em fazer todo o trajeto pela branca. A vermelha é famosa por uma longa subida vertical em um paredão cheia de grampos. Fiquei com bastante medo dessa parte e isso me fez me juntar ao grupo que escolheu fazer a ascensão pela branca.

Ascensão

Choveu um pouco durante a noite, uma garoa fina. Como não tínhamos muita confiança na barraca, acordamos para checar se estava tudo seco. O trem passa com certa frequência e isso também atrapalha o sono. Algumas das locomotivas soam como o apocalipse. Acordamos de fato pouco antes das seis, com objetivo de pegar a trilha por volta das sete. Durante o café da manhã boa parte do grupo decidiu não fazer nenhuma das trilhas em função da garoa. Segui com o plano de subir e descer pela branca, e outras pessoas se somaram a essa ideia.

Passamos na administração para avisar da nossa saída e pegar mais algumas dicas – é muito importante informar qual trilha você irá fazer para o pessoal da administração, pois assim é possível que enviem resgate caso você tenha algum acidente. Eram 7h15 quando demos os primeiros passos morro acima. A trilha inicia por um caminho de pedra no meio da mata, mas logo se transforma em uma trilha orgânica, de barro e raízes e cada passo é como que numa escada. Os degraus vão ficando mais íngremes e depois de cerca de um quilômetro começam as cordas e grampos para auxiliar na subida. Durante todo o trajeto, não tem um passo que seja nivelado. Usa-se muito as coxas e os braços, e pessoas de baixa estatura enfrentam mais dificuldade, até porque os grampos estão colocados em uma distância que favorece as pessoas altas.

Quase quatro horas depois e começamos a enfrentar as longas paredes verticais com grampos. O dia estava bastante fechado e com neblina… Não consigo decidir se isso ajudava ou atrapalhava: ao mesmo tempo que era bom não poder ver o precipício, era terrível e paralisante encarar esse vazio total. Eu só queria passar rápido por essa etapa. Minha pressão começou a baixar, sentia minhas mãos ficando geladas e uma sensação de enjoo. Eu não parava de pensar em quão difícil seria voltar.

Depois de mais um lance de grampos, chegamos a um platô estreito que antecedia um paredão ainda mais longo. Ali decidimos que não iríamos continuar. Não foi uma decisão fácil, mas não tínhamos que provar nada a ninguém. Já fazia horas que caminhávamos morro acima, progredindo lentamente, e nosso GPS dizia que ainda faltava 1km vertical. Ficamos um bom tempo ali nos alimentando, enquanto um de nós subiu um pouco mais por curiosidade. A cada minuto chegava um novo grupo e demonstrava espanto com mais essa parede

vertical. Brincamos que seria hilário ficar ali filmando as reações. Porém invariavelmente seguiam.  Me pareceu que algumas pessoas estavam preparadas enquanto outras nem tanto, umas sequer sabiam ao certo o que estavam enfrentando e o que tinham pela frente. Cada qual com sua forma de se motivar, se garantir, e infelizmente outras subiam por pressão do grupo. Alguns tentavam nos incentivar também, mas não tiveram sucesso.

Não muito depois chegou o resto do nosso acampamento, que tinham decidido não fazer a trilha quando acordamos. Tinham mudado de ideia com o decorrer da manhã e agora subiam rápido. Passaram por nós no momento em que decidiamos por almoçar ali, mas descobrimos que nosso almoço tinha estragado. Sem muito mais o que comer e ainda bastantes cansados, iniciamos o caminho de volta, lomba a baixo, menos de 1km do cume.

Tucanos voam engraçado

De volta ao acampamento, nos alimentamos e compartilhamos nossas histórias com os outros grupos. Descansamos as pernas, enquanto observamos os tucanos, de árvore em árvore, com seu voo estranho, as gralhas-azuis, e o vai-e-vem ritmado dos trens escoando toneladas de grãos pra alimentar animais para o abate. O cansaço de 8h de trilha batia forte. Mesmo sem ter chegado ao topo, foi uma puxada e tanto. Se tivéssemos tido a gana de seguir, teríamos adicionado pelos menos 2h ao nosso percurso. Isso era muito mais do que eu tinha imaginado. A minha expectativa era de uma trilha difícil pela exposição, mas não pela exigência física.

Essa viagem serviu para pensar muitas coisas, entre elas, reavaliar minhas capacidades físicas e fazer uma distinção mais clara entre trekking e montanhismo. Nessa tarde que ficamos pela cozinha coletiva ouvimos que essa subida é a terceira mais difícil do Bra$il. E eu avaliando a dificuldade da trilha baseado apenas na extensão da trilha.

Quando estiver por lá, vale reservar um tempo para fazer outras trilhas além das clássicas. Teria sido muito legal chegar ao Parque pela trilha do Caminho do Itupava, por exemplo. De ascensão, além da branca e da vermelha, tem também a Facãozinho, que estava interditada para recuperação. E tem as mais curtas que não sobem o morro, como as Trilhas do Rochedinho, da Pedra Lascada, Cemitério dos Grampos, Cachoeira dos Marombistas e Salto dos Macacos.

Para mais informações visite o site do COSMO – Corpo de Socorro em Montanha.

 

BikeHandling em TdP

Amanhã o pessoal do Bike Handling vai dar os primeiros passos numa jornada de 10 dias ao redor do massivo Paine Grande. No inicio de 2015 fiz essa caminhada também e foi algo que impactou minha vida enormemente. Nesse trekking de 2015 entre nós estava também João Vitor que acabou não conseguindo seguir viagem por problemas no joelho e agora retorna ao parque para retomar a caminhada de onde parou. Desejo muita sorte, bom tempo e bons ventos para elas e eles. Que as montanhas tratem vocês muito bem! Esperamos ansiosxs pelas fotos e relatos e por dividir essa experiência 🙂

ps: Já que você provávelmente vai dar um pulo no site do BH, aproveita e acompanha as aventuras do Expresso Patagônia. Meu amigo Freitas desceu de bicicleta daqui do sul do Bra$il até o Ushuaia pelas estradas inóspitas do leste Argentino e de lá está iniciando o caminho de volta ao norte pelo oeste chileno.

Paysage D’hiver – Caminhando no Passo do Inferno

Para ler ouvindo 
Paysage d'Hiver - Ausklang 
Paysage d'Hiver - Schnee II 

photo_2016-06-13_09-51-43

O inverno nem tinha chegado ainda mas as temperaturas despencaram rapidamente aqui na cidade. Por algumas semanas as mínimas ficaram abaixo dos 10ºC e a previsão para o fim de semana era de temperaturas negativas. Na serra do estado a previsão era de frio intenso e isso foi a desculpa que nos faltava. Fazia um tempo que adiávamos a vontade de revisitar São Francisco de Paula e já tínhamos umas trilhas separadas.

Uma delas, a Trilha das Oito Cachoeiras, acabamos descobrindo que iniciava num terreno de uma pousada que não possuía lugar para acampar, isso envolveria dois custos, o de camping e o de ingresso à propriedade privada e quatro longos deslocamentos de carro para a trilha e de volta dela, porque nossa intenção era dividir o percurso de quase 16 quilômetros em dois dias. Achamos outros campings e um deles, o camping do Parque da Cachoeira, estava muito próximo de duas trilhas que encontramos na internet. Além disso, o Parque contava com duas trilhas dentro da própria propriedade que apesar do meu ceticismo com essas trilhas de parques particulares, me deixou motivado pois não nos faltaria opção.

Sábado – 1º dia

Saímos um pouco antes das 08:00. Depois de duas horas de estrada, entramos na estrada de chão que leva para o Parque das Cachoeiras, outras propriedades rurais e algumas pequenas represas para geração de energia. Logo antes da entrada do parque uma linda ponte metálica conecta as duas montanhas que o rio Caí corta. Descendo do carro o frio mordeu, mas mesmo assim ficamos ali observando a estrutura, o ar gelado e o rio lá embaixo, distante. Tomamos nosso tempo até finalmente cruzar a ponte e fazer a identificação na recepção do parque. A área destinada para camping é toda “reflorestada” com Pinus o que dá bastante cobertura do sol e deve ser uma vantagem no verão, já o restante do parque tem um aspecto mais natural, com cobertura de mata ciliar e campos de cima da serra. Buscamos uma área protegida do vento gelado, eu procurava alguma vista também, mas não dava para ver nada além das linhas de pinus. A área é toda inclinada, mas com platôs criados para montar as barracas. Nessa hora bateu a diferença de ficar em um camping estruturado em relação à acampar selvagem, todas as tomadas, as lâmpadas, as mesas e os banheiros por todos os lados. Mesmo sabendo desde o inicio que íamos ficar em um camping viemos carregando baterias externas, filtros d’água, lanternas e tudo mais para sermos autonomes. Porém essas facilidades de um camping estruturado iam ajudar a compensar o frio e no final das contas, tínhamos o camping inteiro só para nós.

IMG_8315

Armamos as três barracas para abrigar nós cinco em volta de uma mesa e churrasqueira, cozinhamos rapidamente uma massa com pesto e seleta de legumes, e depois de comer e dar uma breve pausa saímos para a primeira trilha. Como estávamos atrasades, optamos por uma trilha curta que o pessoal na recepção sugeriu, a Trilha do Pico da Bandeira, uma rota íngreme morro à cima, logo depois de cruzar a ponte de ferro. A subida foi forte mas não levamos mais do que 15 minutos para subi-la bem lentamente. A vista do topo é muito bonita, de lá pode-se ver a confluência dos rios Cará e Caí, a cachoeira, a ponte, e todo o parque. Lá de cima avistamos também uma trilha do outro lado do rio que saía da mata e serpenteava uma colina de campo. Parecia com uma das trilhas que encontramos na internet.

photo_2016-06-13_09-46-03

Depois de curtir um pouco a vista e o sol no topo, retornamos para o parque, devolvi a chave do portão de acesso à trilha que tínhamos acabado de fazer (sim, a trilha tem entrada cadeada) e confirmei que a trilha que avistamos do topo era a Trilha dos Xaxins Gigantes (que no wikiloc era nomeada como Trilha Circular Dentro do Parque das Cachoeiras – Área nova).

A Trilha dos Xaxins Gigantes é uma trilha circular de pouco menos de 4km que se inicia dentro da mata de xaxins antes de sair pelos campos, passando por algumas ruínas até voltar a mata costeando o rio Cará. Alguns trechos eram de descidas escorregadias e bem expostas, mas tinham cordas bem posicionadas para garantir a caminhada em segurança. Nós levamos cerca de 2h30 fazendo longas pausas, primeiro para um lanche nas ruínas na metade do caminho e depois na beira do rio cogitando a possibilidade de um mergulho (não tivemos coragem de encarar o frio – por hora).

photo_2016-06-13_09-46-09

De volta ao acampamento, hora de reanimar a fogueira improvisada na churrasqueira e aproveitar os últimos raios de sol. Eu, ansioso, já fui fazendo o pré-preparo do jantar: cuscuz com molho de tomate e grão de bico. Sentamos à mesa para jantar já reclamando do frio, o assunto não saía disso, o medo do frio que iria fazer mais tarde e como suportá-lo se já estávamos usando todas nossas roupas. Depois de jantar tomamos um chocolate quente, sem pausa alguma, ansioses para entrar em nossas barracas e sacos de dormir e se aquecer.

photo_2016-06-13_09-46-14

Domingo – 2º dia

A noite foi terrível para umes e tolerável para outres, a temperatura sem dúvida baixou de zero, mas não sabemos o quanto. Muitas coisas estavam congeladas quando acordamos. Fomos levantando de acordo com a qualidade do sono e aos poucos dando inicio ao dia. A minha experiência não foi das piores, com dois isolantes térmicos, saco de dormir conforto 0ºC e várias camadas de roupa, tive uma noite relativamente boa.

Café da manhã ingerido, barracas desmontadas e guardadas e partimos para a Trilha da Toca. Outra trilha dentro do parque e também com aproximadamente quatro quilômetros de extensão, a única diferença é que essa é em sentido único costeando o rio Caí até a Toca e a Cachoeira Escondida, ou seja, dois quilômetros para ir e dois para voltar pela mesma trilha.

Apesar do frio noturno, o sol saiu com força na manhã e nos acompanhou por toda a trilha. Enquanto íamos costeando o rio numa de trilha de rolagem fácil, os casacos iam se indo para as mochilas. Não muito depois chegamos na tal da Cachoeira Escondida, que devido a baixa quantidade de chuvas era uma série de quedas menores descendo de um paredão protuberante e irregular para uma enorme piscina. Tínhamos os corpos aquecidos da caminhada e o sol inundava a piscina… não precisamos de muito convencimento para um mergulho! Minha vontade era de mergulhar e nadar por aquela piscina, mas a água estava tão gelada que ninguém durou mais que alguns segundos submerses.

photo_2016-06-13_09-47-00

Depois de retornar para a pedra quentinha, deixar o sol nos secar e fazer um lanche, retornamos pela mesma trilha. Logo que saímos nos deparamos com um buraco e resolvemos investigar. Era a tal da Toca que também da nome a trilha e que não avistamos na ida, duas grandes rochas sobrepostas com uma passagem no meio que dá em uma pequena ilha. Essa ilha tinha uma vista mais completa da cachoeira e era uma das barreiras que mantinha a piscina. Ficamos apenas alguns momentos ali já que metade do grupo tinha disparado na frente sem perceber a entrada da toca.

No fim das contas foi uma experiência interessante, acampar em temperaturas super baixas, ter um camping inteiro só para nós e conhecer trilhar fáceis e bem demarcadas, algo incomum na região de Porto Alegre. Acabamos não tendo tempo para percorrer uma outra trilha que tínhamos separado do Wikiloc, a Trilha do Passo do Inferno que era um pouco mais longa e fora dos limites do parque, mas as trilhas dentro do parque foram uma ótima surpresa.

 

Se assumindo Randoneiro – meu primeiro Audax

Para ler ouvindo:
 Mogwai - Come On Die Young
 I - The Storm I Ride

Enquanto giravam os pedais em uma noite qualquer de entregas, minha mente começou a relembrar as primeiras longas distâncias que eu me aventurei a fazer. A primeira que me lembrei foi uma ida e volta à Belém Novo, bairro distante cerca de 25km do centro da cidade, acompanhado de um amigo de colégio numa época pré-google maps. Naquele tempo eu nem bem sabia que dentro dos pneus da bicicleta haviam câmaras de ar, entre outras coisas simples sobre bicicletas ou o mundo, mas mesmo assim já sonhava em pedalar até lugares tão distintos quanto a Patagônia ou Capão da Canoa.

De lá para cá, usei a bicicleta para alcançar muitos lugares, uns mais distantes que outros mas sempre foi uma experiência única e que me marcou profundamente. O tempo passou mas esse romantismo incrustado em usar seus próprios meios para viajar de um lugar a outro não morreu. Porém tenho descoberto que além da satisfação no deslocamento ponto A – ponto B usando a bicicleta, existe algo em pedalar por horas a fio que é por si só meditativo, simplificador. E isso também é uma recompensa em buscar longas distâncias, quer seja pedalando, correndo ou mesmo caminhando.

Com essa ideia na cabeça, reavivei a minha antiga vontade de fazer uma prova de Audax. Pra quem não sabe, Audax “é o nome dado no Brasil a um evento ciclístico não-competitivo e de longa distância, conhecido internacionalmente pelo nome de Randonneur¹ . Já faz tempo que vou guardando essa vontade em algum cantinho, junto com todos os planos e metas que ficam para depois, que eu gostaria de fazer mas não faço. No caso do Audax, sempre acabei não me comprometendo, achando muito complexo todos os equipamentos obrigatórios ou inventando outras tantas desculpas. Muitas vezes eu dizia pra mim mesmo que seria bem mais simples sair e fazer desafios de longa distância autoimpostos, autônomos, mas nem isso levei adiante. Ás vezes é bobo como pequenas coisas podem mudar uma atitude que levamos há um tempo, bastou alguns documentários na ordem certa (como o Ride The Divide, por exemplo) juntamente com uma conversa com um amigo que recém tinha feito um Audax 300 para me convencer à me comprometer em fazer um o quanto antes.

Busquei no calendário de provas brasileiras no site Randonneurs Brasil e me inscrevi no próximo Audax 200 disponível, uma prova noturna com chegada ao topo, no interior do Rio Grande do Sul, no município de Teutônia. A prova de 200 quilômetros é a entrada oficial para os Audax e a partir dessa, as distâncias são 300, 400, 600, 1000, 1200 e 1400.

Depois de inscrito foi uma questão de organização, consegui os equipos obrigatórios que eu não tinha emprestados, encomendei duas bolsas para levar minha alimentação com o querido Gabé da Eleven Bags e meu pai ofereceu uma providencial carona de ida e volta até Teutônia.

photo_2016-03-29_22-46-16

Na largada tive vários problemas técnicos. O Strava não achava sinal de GPS e o ciclo-computador não tava marcando nada. Sem qualquer um dos dois eu me virava, mas sem os dois ficava muito difícil de eu controlar minha média e ir cuidando minha estratégia de prova. Dei play no Strava assim mesmo, em geral ele dá um jeito na questão do sinal no meio do ride. A prova largou à margem de um lago artificial, no topo de um morro em Teutônia, e deveríamos dar a volta nesse lago para separar o grupo antes da descida brutal que se seguia. Ao final da volta resolvi parar e consertar o ciclo-computador, por mais que ficar pra trás já na largada era emocionalmente devastado, não era uma prova competitiva e o ciclo-computador ia fazer muita falta. Com um pouco de paciência, ajustei o ímã e consegui leitura das tão importantes velocidade média, quilometragem e tempo. Nesse momento eu nem imaginava que o Strava não gravaria nada no percurso todo.

Segui caminho e iniciei de fato a prova, ainda era dia e fui descendo com cautela a ladeira absurda que no fim da prova todos subiríamos. Depois dos quase oito quilômetros de descida que passaram num piscar, o trajeto seguiu por essas estradas menores, rurais com subidas leves e asfalto bom. Fui passando diversos grupos até achar uns pelotões com velocidade parecida com a minha, tentei me acomodar ali porque estava inseguro com as muitas bifurcações e conversões. Quase todxs pareciam ser da região e conhecer bem tudo a nossa volta.

Com pouco mais de uma hora cheguei no primeiro PC, onde devemos carimbar nossos “passaportes” e podemos recarregar nossas garrafas e comer algumas frutas que a organização oferece. Comi umas quatro bananas apesar de ter comido uma barra de frutas secas com cerca de 40 minutos de prova. Enchi as garrafas e segui, muita gente opta por fazer pequenas (ou longas) pausas nos PCs, mas eu começo a ficar preguiçoso se não estou em movimento.

Voltei pela mesma estrada até um ponto, vendo os grupos que iam em direção ao primeiro PC, em determinado ponto segui reto e encontrei um novo grupo com velocidade semelhante a minha para seguir. A noite começava a chegar e ligamos nossas luzes enquanto passávamos por uma região mais urbanizada onde as pessoas curtiam o sábado. O tempo foi passando e chegamos ao segundo PC, onde havia além das frutas e água, uma lancheria onde muitxs estavam parando para comer algo mais consistente. Comi mais umas quatro ou cinco bananas e uma maçã sem desmontar da bicicleta, carimbei meu passaporte e reenchi as caramanholas.

Quando vi, um grupo de cinco ciclistas montou nas bicicletas e voltou à estrada, resolvi segui-los. Não eram muitxs saindo em função da parada pra janta, então não podia ser muito picky. No fim foi uma boa escolha e acabei seguindo esse grupo por quase todo o percurso. Eu era um pouco mais rápido nas subidas, mas eles ganhavam distância nas descidas porque tinham faróis muito melhores e podiam enxergar mais do que apenas cinco metros à frente deles. Minha iluminação precária me prejudicou bastante num trecho em que pedalamos em uma estrada duplicada e muito movimentada porque o acostamento era extremamente sujo com pedaços de pneus e todo o tipo de lataria que eu só enxergava no último segundo. Por sorte esse trecho não foi longo.

O trajeto ia serpenteando por aquela região por onde eu nunca tinha estado antes. Fiquei imaginado como teria sido pedalar por ali durante o dia, mas sem perder a certeza de que a noite estava sendo muito mais agradável e misteriosa. Numa das estradas mais bonitas que pegamos a lua finalmente saiu de trás das nuvens e iluminou o sobe e desce sútil do asfalto. Passamos por um casamento nessa mesma estrada e imagino que nos estranharam tanto quanto eu estranhei elxs e seus hábitos “normais”.

Algo que me surpreendeu muito e me marcou foi que durante todo o percurso o ar estava saturado do cheiro de urina e fezes de galinhas e porcos. Raros foram os momentos em que senti o aroma do campo, aquele que temos em memórias de infância. Parece que estou pensando no meu conforto quando falo isso, mas o choque não é em função do cheiro, mas por deixar sentir, por evidenciar o massacre industrial de milhares de animais que acontece ali. Toda a região está tomada de criações intensivas de animais para serem assassinados e transformados produtos.

Todos esses gatilhos me fizeram não perceber, mas a meta inicial de 66,6km (um terço de prova, coincidentemente) tinha passado fácil e eu já batia 120km sem muitos sinais de cansaço. A estratégia de alimentação e poucas pausas estava dando certo… Comecei a me entendiar e ouvi um pouco de música para me motivar no último terço. Nessa altura me preocupava apenas com a subida final, o grande desafio dessa prova.

Nos últimos quilômetros antes da subida um grupo grande pedalava junto, talvez por estarmos chegando no final o ritmo geral estava se equilibrando. Saímos da estrada maior e entramos no caminho rural que levava a chegada, no pé do morro um PA – posto de alimentação – oferecia salada de frutas estupidamente gelada. Fiquei na dúvida se comia ou não, afinal subir lomba de barriga cheia não tá com nada. Acabei comendo, mas jogando fora os milhões de cubos de gelo, era umas 3h00 da manhã e não fazia muito calor. A ansiedade no PA era palpável, e só relembrar agora já me deixa com um nó no estomago. Como nas outras paradas, resolvi não me demorar, ainda mais faltando tão pouco. Quando uns dois ou três que estavam ali há um tempo saíram focados eu montei na bicicleta e os segui.

Uma curva depois e os oito quilômetros mais lentos do mundo começaram, cada metro sendo ganhado diagonalmente, em um zigue-zague sofrido, numa escuridão total que era no fim aliada por não deixar ver o topo e a inclinação abismal. No caminho alguns ciclistas empurrando, outros tentando achar algum sopro de ar restante no pulmão. Essa parte, mais do que todo o resto, era uma batalha individual consigo mesmx. Custou, mas em algum momento eu cheguei, estava de volta ao lago. Fiz uma foto, ganhei uma medalha, me alonguei e me atirei num canto para esperar a meu pai e a carona de volta.

Quem sabe ainda esse ano eu ache tempo e coragem para me aventurar em desafios de 300, 400 e talvez até mais quilômetros. Quem sabe dessa vez eu não engavete essa e outras vontades e projetos por tanto tempo, mas pensando melhor acho que foi no momento certo.

Para uma próxima, preciso de um farol melhor, mais conhecimento da região/trajeto e provavelmente algum tipo de treino.

O que eu ingeri:

4 Barrinhas de Frutas secas
3 Garrafas de MaltoDextrina
5 Garrafas d’Água
12 Bananas
1 Maçã
2 Sanduíches de melado, banana e manteiga de amendoim
1 Copo de Frukito
1 Copo de Salada de Fruta
1 Pacote de Oreo

O que eu levei:

1 Casaco corta vento Solo
1 Cobertor de Emergência – achava que era obrigatório, mas não era. Por sorte levei pois me  manteve aquecido no pós-prova na madrugada fria.
4 Pilhas reservas AA – para a lanterna dianteira. Desnecessárias, não gastei sequer uma.
4 Pilhas reservas AAA – para o farol dianteiro. Desnecessárias também .
Farol Cateye HL-EL135 – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Farol Knog Blinder – carregamento USB, não serve como lanterna principal pelo regulamento por não ser possível levar baterias reservas. Ilumina muito melhor que a Cateye que levei e poupei para os trechos mais complexos.
Lanterna Traseira Qlite – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Lanterna Traseira Knog Blinder – Idem dianteira.
Ciclo-computador simples com fio.
2 Câmaras reservas
Bomba
Canivete Multiferramentas
Espátulas
Kit de Remendos
Dinheiro reserva
Identidade

photo_2016-03-29_22-46-29