Se assumindo Randoneiro – meu primeiro Audax

Para ler ouvindo:
 Mogwai - Come On Die Young
 I - The Storm I Ride

Enquanto giravam os pedais em uma noite qualquer de entregas, minha mente começou a relembrar as primeiras longas distâncias que eu me aventurei a fazer. A primeira que me lembrei foi uma ida e volta à Belém Novo, bairro distante cerca de 25km do centro da cidade, acompanhado de um amigo de colégio numa época pré-google maps. Naquele tempo eu nem bem sabia que dentro dos pneus da bicicleta haviam câmaras de ar, entre outras coisas simples sobre bicicletas ou o mundo, mas mesmo assim já sonhava em pedalar até lugares tão distintos quanto a Patagônia ou Capão da Canoa.

De lá para cá, usei a bicicleta para alcançar muitos lugares, uns mais distantes que outros mas sempre foi uma experiência única e que me marcou profundamente. O tempo passou mas esse romantismo incrustado em usar seus próprios meios para viajar de um lugar a outro não morreu. Porém tenho descoberto que além da satisfação no deslocamento ponto A – ponto B usando a bicicleta, existe algo em pedalar por horas a fio que é por si só meditativo, simplificador. E isso também é uma recompensa em buscar longas distâncias, quer seja pedalando, correndo ou mesmo caminhando.

Com essa ideia na cabeça, reavivei a minha antiga vontade de fazer uma prova de Audax. Pra quem não sabe, Audax “é o nome dado no Brasil a um evento ciclístico não-competitivo e de longa distância, conhecido internacionalmente pelo nome de Randonneur¹ . Já faz tempo que vou guardando essa vontade em algum cantinho, junto com todos os planos e metas que ficam para depois, que eu gostaria de fazer mas não faço. No caso do Audax, sempre acabei não me comprometendo, achando muito complexo todos os equipamentos obrigatórios ou inventando outras tantas desculpas. Muitas vezes eu dizia pra mim mesmo que seria bem mais simples sair e fazer desafios de longa distância autoimpostos, autônomos, mas nem isso levei adiante. Ás vezes é bobo como pequenas coisas podem mudar uma atitude que levamos há um tempo, bastou alguns documentários na ordem certa (como o Ride The Divide, por exemplo) juntamente com uma conversa com um amigo que recém tinha feito um Audax 300 para me convencer à me comprometer em fazer um o quanto antes.

Busquei no calendário de provas brasileiras no site Randonneurs Brasil e me inscrevi no próximo Audax 200 disponível, uma prova noturna com chegada ao topo, no interior do Rio Grande do Sul, no município de Teutônia. A prova de 200 quilômetros é a entrada oficial para os Audax e a partir dessa, as distâncias são 300, 400, 600, 1000, 1200 e 1400.

Depois de inscrito foi uma questão de organização, consegui os equipos obrigatórios que eu não tinha emprestados, encomendei duas bolsas para levar minha alimentação com o querido Gabé da Eleven Bags e meu pai ofereceu uma providencial carona de ida e volta até Teutônia.

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Na largada tive vários problemas técnicos. O Strava não achava sinal de GPS e o ciclo-computador não tava marcando nada. Sem qualquer um dos dois eu me virava, mas sem os dois ficava muito difícil de eu controlar minha média e ir cuidando minha estratégia de prova. Dei play no Strava assim mesmo, em geral ele dá um jeito na questão do sinal no meio do ride. A prova largou à margem de um lago artificial, no topo de um morro em Teutônia, e deveríamos dar a volta nesse lago para separar o grupo antes da descida brutal que se seguia. Ao final da volta resolvi parar e consertar o ciclo-computador, por mais que ficar pra trás já na largada era emocionalmente devastado, não era uma prova competitiva e o ciclo-computador ia fazer muita falta. Com um pouco de paciência, ajustei o ímã e consegui leitura das tão importantes velocidade média, quilometragem e tempo. Nesse momento eu nem imaginava que o Strava não gravaria nada no percurso todo.

Segui caminho e iniciei de fato a prova, ainda era dia e fui descendo com cautela a ladeira absurda que no fim da prova todos subiríamos. Depois dos quase oito quilômetros de descida que passaram num piscar, o trajeto seguiu por essas estradas menores, rurais com subidas leves e asfalto bom. Fui passando diversos grupos até achar uns pelotões com velocidade parecida com a minha, tentei me acomodar ali porque estava inseguro com as muitas bifurcações e conversões. Quase todxs pareciam ser da região e conhecer bem tudo a nossa volta.

Com pouco mais de uma hora cheguei no primeiro PC, onde devemos carimbar nossos “passaportes” e podemos recarregar nossas garrafas e comer algumas frutas que a organização oferece. Comi umas quatro bananas apesar de ter comido uma barra de frutas secas com cerca de 40 minutos de prova. Enchi as garrafas e segui, muita gente opta por fazer pequenas (ou longas) pausas nos PCs, mas eu começo a ficar preguiçoso se não estou em movimento.

Voltei pela mesma estrada até um ponto, vendo os grupos que iam em direção ao primeiro PC, em determinado ponto segui reto e encontrei um novo grupo com velocidade semelhante a minha para seguir. A noite começava a chegar e ligamos nossas luzes enquanto passávamos por uma região mais urbanizada onde as pessoas curtiam o sábado. O tempo foi passando e chegamos ao segundo PC, onde havia além das frutas e água, uma lancheria onde muitxs estavam parando para comer algo mais consistente. Comi mais umas quatro ou cinco bananas e uma maçã sem desmontar da bicicleta, carimbei meu passaporte e reenchi as caramanholas.

Quando vi, um grupo de cinco ciclistas montou nas bicicletas e voltou à estrada, resolvi segui-los. Não eram muitxs saindo em função da parada pra janta, então não podia ser muito picky. No fim foi uma boa escolha e acabei seguindo esse grupo por quase todo o percurso. Eu era um pouco mais rápido nas subidas, mas eles ganhavam distância nas descidas porque tinham faróis muito melhores e podiam enxergar mais do que apenas cinco metros à frente deles. Minha iluminação precária me prejudicou bastante num trecho em que pedalamos em uma estrada duplicada e muito movimentada porque o acostamento era extremamente sujo com pedaços de pneus e todo o tipo de lataria que eu só enxergava no último segundo. Por sorte esse trecho não foi longo.

O trajeto ia serpenteando por aquela região por onde eu nunca tinha estado antes. Fiquei imaginado como teria sido pedalar por ali durante o dia, mas sem perder a certeza de que a noite estava sendo muito mais agradável e misteriosa. Numa das estradas mais bonitas que pegamos a lua finalmente saiu de trás das nuvens e iluminou o sobe e desce sútil do asfalto. Passamos por um casamento nessa mesma estrada e imagino que nos estranharam tanto quanto eu estranhei elxs e seus hábitos “normais”.

Algo que me surpreendeu muito e me marcou foi que durante todo o percurso o ar estava saturado do cheiro de urina e fezes de galinhas e porcos. Raros foram os momentos em que senti o aroma do campo, aquele que temos em memórias de infância. Parece que estou pensando no meu conforto quando falo isso, mas o choque não é em função do cheiro, mas por deixar sentir, por evidenciar o massacre industrial de milhares de animais que acontece ali. Toda a região está tomada de criações intensivas de animais para serem assassinados e transformados produtos.

Todos esses gatilhos me fizeram não perceber, mas a meta inicial de 66,6km (um terço de prova, coincidentemente) tinha passado fácil e eu já batia 120km sem muitos sinais de cansaço. A estratégia de alimentação e poucas pausas estava dando certo… Comecei a me entendiar e ouvi um pouco de música para me motivar no último terço. Nessa altura me preocupava apenas com a subida final, o grande desafio dessa prova.

Nos últimos quilômetros antes da subida um grupo grande pedalava junto, talvez por estarmos chegando no final o ritmo geral estava se equilibrando. Saímos da estrada maior e entramos no caminho rural que levava a chegada, no pé do morro um PA – posto de alimentação – oferecia salada de frutas estupidamente gelada. Fiquei na dúvida se comia ou não, afinal subir lomba de barriga cheia não tá com nada. Acabei comendo, mas jogando fora os milhões de cubos de gelo, era umas 3h00 da manhã e não fazia muito calor. A ansiedade no PA era palpável, e só relembrar agora já me deixa com um nó no estomago. Como nas outras paradas, resolvi não me demorar, ainda mais faltando tão pouco. Quando uns dois ou três que estavam ali há um tempo saíram focados eu montei na bicicleta e os segui.

Uma curva depois e os oito quilômetros mais lentos do mundo começaram, cada metro sendo ganhado diagonalmente, em um zigue-zague sofrido, numa escuridão total que era no fim aliada por não deixar ver o topo e a inclinação abismal. No caminho alguns ciclistas empurrando, outros tentando achar algum sopro de ar restante no pulmão. Essa parte, mais do que todo o resto, era uma batalha individual consigo mesmx. Custou, mas em algum momento eu cheguei, estava de volta ao lago. Fiz uma foto, ganhei uma medalha, me alonguei e me atirei num canto para esperar a meu pai e a carona de volta.

Quem sabe ainda esse ano eu ache tempo e coragem para me aventurar em desafios de 300, 400 e talvez até mais quilômetros. Quem sabe dessa vez eu não engavete essa e outras vontades e projetos por tanto tempo, mas pensando melhor acho que foi no momento certo.

Para uma próxima, preciso de um farol melhor, mais conhecimento da região/trajeto e provavelmente algum tipo de treino.

O que eu ingeri:

4 Barrinhas de Frutas secas
3 Garrafas de MaltoDextrina
5 Garrafas d’Água
12 Bananas
1 Maçã
2 Sanduíches de melado, banana e manteiga de amendoim
1 Copo de Frukito
1 Copo de Salada de Fruta
1 Pacote de Oreo

O que eu levei:

1 Casaco corta vento Solo
1 Cobertor de Emergência – achava que era obrigatório, mas não era. Por sorte levei pois me  manteve aquecido no pós-prova na madrugada fria.
4 Pilhas reservas AA – para a lanterna dianteira. Desnecessárias, não gastei sequer uma.
4 Pilhas reservas AAA – para o farol dianteiro. Desnecessárias também .
Farol Cateye HL-EL135 – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Farol Knog Blinder – carregamento USB, não serve como lanterna principal pelo regulamento por não ser possível levar baterias reservas. Ilumina muito melhor que a Cateye que levei e poupei para os trechos mais complexos.
Lanterna Traseira Qlite – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Lanterna Traseira Knog Blinder – Idem dianteira.
Ciclo-computador simples com fio.
2 Câmaras reservas
Bomba
Canivete Multiferramentas
Espátulas
Kit de Remendos
Dinheiro reserva
Identidade

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A prova de nada – Aquatrekking na Jungle

Para ler ouvindo
 Keny Arkana - Tout tourne autour du soleil

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Não dá nem pra contar quantas vezes bolamos planos de viagens que não saem do papel. Em especial quando tem feriado se aproximando. É sempre um malabarismo tentando equilibrar diferentes vontades e possibilidades e tornar um desses planos realidade. Não ajuda muito o fato de que roteiros e trilhas de trekking não são assim tão comuns.

Para esse feriado de Páscoa que passou tivemos o mesmo brainstorming coletivo de sempre, muitas ideias de onde poderíamos ir, algumas muito distantes, outras muito longas, umas muito curtas… Pensamos em caminhar no Pontal de Tapes, nos cânions da fronteira com Santa Catarina e na cachoeira escondida de Nova Roma do Sul. Aos poucos o grupo foi diminuindo e as opções se limitando até o ponto de decidirmos por uma trilha que encontramos no Wikiloc, chamada “Garapiá-Bananeiras” em Maquiné/RS.

Dia 1 – Sexta

Pegamos o ônibus das 06h30 de Porto Alegre até Osório, teria sido mais confortável pegar o das 07h30, mas em função do feriado não tinha mais lugar para nós quatro. Chegando em Osório tivemos que esperar pelo primeiro ônibus que leva até Maquiné que sai às 09h20 diariamente.  Para passar o tempo, armamos um picnic num terreno baldio em frente à rodoviária, desenrolei o footprint de tyvek e nos posicionamos para nosso merecido desjejum. Nem bem sentamos e começou uma garoa daquelas super finas, fizemos um esforço tentando ignorar a situação e seguir com nosso plano, mas era cedo demais para molhar todas as nossas coisas. Nos escondemos na marquise de uma imobiliária que estava fechada em função do feriado.

Eu tava caindo de sono, a noite tinha sido super curta pois tive que ficar até tarde organizando tudo para a vinda… em geral sou bem metódico e adianto esse empacotamento deixando tudo pronto com antecedência, mas dessa vez foi super corrido e em cima da hora. Estiquei o isolante nos degraus da imobiliária que nos abrigava e tentei um cochilo. Dormir rapidamente e em qualquer posição não é meu forte e o cochilo não vingou.

Catamos nossas coisas e embarcamos no pinga-pinga até Maquiné. Uma hora e quarenta depois e o ônibus nos larga na bifurcação da Barra do Ouro. Chove mais forte agora, casacos impermeáveis, mochilas nas costas e iniciamos a caminhada. O arquivo de GPS inicia justamente aqui, provavelmente es autores também vieram de ônibus, daqui pra frente serão 31km. Na verdade ainda não tínhamos bem certo se faríamos a trilha inteira terminando na RS-486, precisando daí agilizar uma carona para voltar, ou se seria melhor retornar mais ou menos na metade do caminho para pegar o ônibus aqui.

Caminhamos pelas já conhecidas estradas do distrito da Barra do Ouro debaixo de muita chuva, nos abrigamos como pudemos debaixo de uma árvore para comer alguma coisa. Ainda bem que tínhamos alguns sanduíches prontos porque cozinhar com essa chuva não seria tarefa fácil. Não nos demoramos muito, molhades como estávamos perdíamos muito calor parades.

Cerca de dez quilômetros depois a estrada cedia lugar a trilha, mas não antes de cruzar o rio caudaloso. Tivemos bastante trabalho na travessia com água quase nas nossas cinturas. Mas o maior problema não foi cruzar, mais tarde iriamos descobrir que o GPS estava nos pregando uma peça e estávamos na trilha errada já de partida.

A trilha ia subindo bastante, numa mata com características de cerrado e passando por algumas roças de milho e algumas pequenas casas, a chuva não dava trégua e depois de subirmos um pouco começamos a percorrer um caminho de barro bem característico de trilhas criadas por animais. Não demorou para termos que negociar nossa passagem com uma égua que pastava bem no meio do trilho. A negociação foi mal sucedida e acabamos mesmo é dando a volta. A mata foi fechando e os trilhos criados pelos animais eram ambíguos, começamos a perceber que estávamos perdendo controle da direção. Tentando acompanhar o nosso ponto no GPS percebemos que tinha um delay de alguns metros e isso tornava impossível de saber onde estávamos de fato, apenas quando parávamos o ponto azul nos buscava e aí percebíamos que estávamos fora do log.

Depois de ir e voltar tentando reencontrar o caminho, escorregar nos barrancos molhados e muito se arranhar nos milhões de cipós espinhentos resolvemos encarar os fatos; Não fazíamos ideia de quanto faltava para chegarmos aos campos da serrinha onde seria possível acampar, muito menos sabíamos como chegaríamos lá, estávamos na chuva desde as nove da manhã e estava quase anoitecendo. Optamos por dar meia volta, retraçar nossos passos e acampar na barra do ouro, uma opção mais cautelosa.

Descemos rápido, seguindo nossos próprios passos enquanto a luz ia se extinguindo e a trilha ia ganhando uma tonalidade azulada. Cruzamos o rio novamente dessa vez com mais confiança e agilidade e logo estávamos no camping. Tivemos sorte que tinha um galpão onde pudemos cozinhar e estender nossas roupas encharcadas em volta do fogão a lenha.

Apenas um dia de caminhada e já tínhamos bastante história para contar, ficamos rindo de nossas presepadas e amadorismo junto com o dono do camping que prometeu nos levar na trilha certa no dia seguinte.

Dia 2 – Sábado

Como de costume, acordei antes do restante. Não demorou muito e meu companheiro de barraca também despertou, tomamos café da manhã, organizamos nossas coisas e nem sinal da outra barraca. Resolvemos dar um pulo até a Cascata do Garapiá não muito distante dali. Retornamos e o restante do pessoal começava a se mexer. Por volta das 10h começamos a caminhada acompanhados pelo Eduardo, o  proprietário do camping, e uma matilha de cães. Cruzamos o rio em um ponto diferente e lá sim começava a trilha! Um trilho profundo, que as vezes chegava a ter um metro de profundidade, formado por anos de incursões de tropeiros e tropeiras e reforçado pela descida da água do morro.

 

Seguimos esse trilho estreito e profundo atrás do Eduardo que ia nos mostrando o caminho. Apesar de fazer um dia ensolarado a trilha mais parecia um riacho de tanta água que escoava da chuvas do dia anterior. Subimos um bocado até um ponto que nos despedimos do Eduardo e seguimos por conta.

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Apesar da trilha ser bem demarcada, dos barrancos laterais nascem muitos arbustos espinhentos que não permitem um deslocamento muito ligeiro e confortável. Mais um pouco de subida e finalmente um alívio visual, subindo em uma grande pedra é possível ter um panorama do vale da Barra do Ouro. Uma vista que vale muito a pena e que é fácil passar despercebida. De volta a mata fechada que agora ia ganhando mais e mais araucárias e deixando de ser tão espinhenta!

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Depois de 3h de caminhadas chegamos ao mirante na borda do cânion, de lá pode-se ver uma bela cascata que vai terminar alimentando o rio Garapiá. Fizemos um intervalo para o almoço nós e nossa matilha que seguia firme conosco. Tiramos uma sesta apesar de que sentíamos frio por estarmos molhades de caminhar na água e de se esfregar na vegetação encharcada da chuva do dia anterior.

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Iniciamos a descida às 15h, já um pouco tarde, mas contando que descer seria mais rápido do que subir. Depois de um bocado de descida, já com a pele cansada de tanto lutar com os espinhos, começamos a não reconhecer a mata… a selva úmida por onde tínhamos subido tinha dado lugar à uma vegetação mais seca, como se fosse uma face do morro mais exposta ao sol. Decidimos por voltar e buscar a bifurcação onde tínhamos perdido a direção. A gravação de GPS que eu fiz da subida para termos de backup na hora de descer era apenas uma linha reta, e a tal da bifurcação não existia. Optamos por voltar a descer por essa trilha mesmo sabendo que não era a correta.

Andamos pouco e chegamos num ponto onde a trilha parecia acabar. Já passava das 17h e a essa altura já tínhamos perdido toda a confiança em nosso senso de direção e a única certeza que tínhamos era que descendo em linha reta chegaríamos ao rio e de lá seria fácil voltar ao camping. Foi isso que fizemos, nos embrenhamos na mata fechada, barranco abaixo. Ligamos o survival mode, já não contávamos mais piadas, mal dizíamos qualquer coisa.

Nos aliviamos quando a mata se abriu e deu lugar a uma área desmatada e descuidada onde nasceu um capinzal. Foi um alívio visual podermos enxergar que o morro estava acabando e que em algum lugar logo abaixo teria de estar o rio. Mas entrar no capinzal provou que o alívio era mesmo apenas visual, ficamos totalmente encobertos pelo capim alto e denso, não se podia ver mais do que alguns centímetros. Conforme íamos caminhando, caíamos em valas como se o barranco tivesse sido moldado em degraus para algum tipo de cultivo e o que era mata antes agora eram troncos queimados e caídos onde pisávamos em falso.

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Custou muito superar o capinzal, em silêncio fomos aguentando os tombos, torções e cortes que o capim e o terreno iam infringindo na gente. As vezes chamávamos ume pele outre só afim de confirmar que ninguém tinha ficado para trás. O Ogro foi o primeiro a alcançar um riachinho que nos encheu de esperança… talvez seguindo esse curso d’água chegaríamos no rio! A cachorra branca que nos acompanhava seguiu na frente o que foi outro bom sinal, parecia que finalmente ela reconhecia onde estávamos. Já com headlamps acesas começamos a seguir uma trilha fina, uma mangueira d’água e um cabeamento de energia elétrica… era de uma casa onde imaginamos que essa companheira canina vivia, mas que estava fechada e aparentemente vazia. Mais alguns passos apressados e encontramos o inicio do trilho por onde tínhamos subido pela manhã e finalmente o rio no mesmo ponto onde cruzamos.

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Passava das 18h mas agora tudo que tínhamos que fazer era seguir a estrada até o camping. Missão cumprida aos trancos, meio envergonhades de tantos erros e amadorismos. Relembrando juntes mais tarde, percebemos que durante todo o tempo todes estavam fazendo cálculos de quanta água e quanta comida tínhamos em nossas pequenas mochilas de quem só foi passar o dia e imaginando como seria passar a noite enrolados em si mesmes tentando combater o frio. O bom de quando as coisas não saem como planejamos é que aprendemos muito mais.

Encarando estradas de chão só pelo pernoite a.k.a Inventando desculpa pra testar o saco de bivak

Assim, de uma hora pra outra, resolvi pegar a bici, juntar o que eu tinha de equipamentos em mãos e ir. Não é de agora que estou buscando estradinhas aqui perto de Porto Alegre para me perder, pedalar sem o estresse dos carros, curtir uma paisagem bucólica e, quem sabe, passar a  noite sob as estrelas. Tinha algumas rotas em especial arquivadas nas gavetas virtuais do mundo… só esperando o momento certo.

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