Uma viagem dentro de outra – Pico Marumbi, Paraná

Para ler ouvindo:  
Petrograd - Get a Fuckin' Life
Raça Negra - Cheia de Manias

Eu não tinha sequer ouvido falar do Pico Marumbi antes. Eu nunca tinha olhado para essa montanha e pensado: Um dia vou subir lá no topo! Como com muitas outras viagens antes, fazer essa trilha não era meu sonho. Começa com um convite, com um sonho alheio, um plano de alguém próximo. Geralmente depois disso vem uma pesquisa extensa, leio relatos diversos, descrições sobre o lugar e as rotas, examino logs de trilha. Mas não dessa vez.

Larguei mão! Estou viajando há umas semanas e essa caminhada era apenas mais uma das etapas que eu tinha que me preparar. Pouco me informei sobre o Pico Marumbi, e isso explica muito o perrengue que passamos.

Curitiba

Saímos de São Paulo com destino à Curitiba num ônibus numa quinta-feira. Chegamos à noite com muito frio e depois de deixar nossas coisas fomos comer algo e caminhar pelas redondezas. Para sexta estava marcada a greve geral e torcíamos para que fosse ampla e paralisante, mas ao mesmo tempo precisávamos comprar nossos mantimentos e as passagens de ônibus para o Parque. Despertamos cedo e começamos uma jornada mista de compras, passeios, e visitas a amigos. Fomos muitos bem recebidos, com comida, conversas divertidas e profundas, e nos doaram alguns itens que faltavam na nossa lista de mantimentos.  Eu não estava em Curitiba desde 1993 e foi bom caminhar pela cidade. Andamos mais de 15km passando pelo centro, parques e muito mais. Isso adicionou cansaço às pernas que já vinham caminhando e correndo bastante em São Paulo.

De Curitiba há duas maneiras de se chegar ao Parque Estadual Pico do Marumbi, por trem ou por ônibus. Minha vontade maior era ir de trem, descer a montanha nessa máquina estranha, no seu ritmo estranho. Outra vantagem do trem é que o desembarque é no pé da montanha, direto na Estação Marumbi, onde também está localizado o acampamento base (para mais infos sobre o trem busque Serra Verde Express). Mas o valor da passagem é mais que o dobro do valor do ônibus, e não estou podendo gastar. De ônibus existem duas partidas pela linha Morretes (via Estrada da Graciosa), uma às 7h45 e outra às 9h. Pegamos o primeiro horário no sábado por falta de opção mesmo. Viajar no feriado é osso. Mas isso só depois de buscar nossa companheira de trilha que chegou em CWB no ônibus das 5h vinda de São Paulo.

Itupava

Fomos perguntando e descobrindo os macetes para chegar ao Parque. Seguem algumas dicas:
Quando embarcar no ônibus, peça para pular na ponte antes de Porto de Cima, um pequeno distrito da cidade de Morretes. Indique para o motorista o caminho de Itupava que é onde começa a estrada que leva até as estações. Pela estrada são quase 9km caminhando até o acampamento, existe uma outra possibilidade de chegar ao parque através de uma trilha de 25km de extensão, chamada Caminho de Itupava, mas só descobri isso depois. O caminho que fizemos é quase que inteiramente em estrada de chão, com cobertura de árvores e pouca exposição ao sol, seguindo o rio Nhudiaquara, sempre subindo, especialmente no fim. Na metade do caminho chega-se ao Centro de Visitantes, onde é possível pegar mais informações, recarregar a água e usar o banheiro. Se você vem de carro de passeio, é aqui que deve deixá-lo, porque a partir daqui a estrada só serve para carros tracionados. Mais quatro quilômetros e você chega na Estação Lange, a partir daí a caminhada segue uma trilha de pedras por mais 900 metros até a estação Marumbi (485m). Aqui você deve se identificar na Administração antes de mais nada – é importante que você já tenha reserva porque o camping tem limite de visitantes!

Estação Marumbi

Fomos logo montar nossa barraca e começar a pensar no que comer. O camping é bem estruturado, conta com banheiros com chuveiro quente, espaço coberto para cozinhar, energia elétrica e uma área gramada e bem drenada. Do camping se tem uma ótima vista dos picos do Parque Marumbi. Aqui a coisa começou a ficar tensa. O dia estava lindo e se podia ver com detalhe os cumes despontando. Era quase impossível imaginar que daria para subir aquelas pedras nuas e íngremes, encravadas na montanha verde, sem qualquer equipamento de escalada. Só o que se falava no acampamento base era sobre os desafios da caminhada. Não demorou muito para eu começar a ficar cheio de dúvidas.

Pouco depois de nos assentarmos, chegou o restante do nosso grupo. Tínhamos nos encontrado no Centro de Visitantes, mas subimos na frente. Com a barraca montada e a barriga cheia, fomos fazer a Trilha do Rochedinho (625m de altura), uma das menores do parque e que leva menos de duas horas para fazer. Nessa trilha tivemos nosso primeiro contato com os grampos: barras de metal fixadas nas pedras para possibilitar a ascensão e que estão presentes nas partes mais íngremes das trilhas. Próximo ao topo essa trilha segue pela cumeeira da montanha, dando um gostinho num grau muito menor da exposição ao risco de queda que caracterizam as trilhas principais. A vista lá de cima é incrível. Com tempo bom é possível ver o acampamento, a estação, todos os picos do Parque Marumbi, o rio Nhundiaquara e os trilhos do trem serpenteando vale acima passando por pontes e desfiladeiros.

De volta ao acampamento os planos para a subida começaram a tomar forma. Existem vários caminhos para a ascensão ao cume identificados por cores. A trilha vermelha, ou Noroeste, é descrita como a mais pesada e exposta, e passa por outros picos antes de chegar ao Olimpo. A trilha branca, ou Frontal, sobe diretamente ao Olimpo e é descrita como média-pesada. Fomos nos dividindo entre quem queria subir pela trilha vermelha e descer pela branca e quem ficava mais confortável em fazer todo o trajeto pela branca. A vermelha é famosa por uma longa subida vertical em um paredão cheia de grampos. Fiquei com bastante medo dessa parte e isso me fez me juntar ao grupo que escolheu fazer a ascensão pela branca.

Ascensão

Choveu um pouco durante a noite, uma garoa fina. Como não tínhamos muita confiança na barraca, acordamos para checar se estava tudo seco. O trem passa com certa frequência e isso também atrapalha o sono. Algumas das locomotivas soam como o apocalipse. Acordamos de fato pouco antes das seis, com objetivo de pegar a trilha por volta das sete. Durante o café da manhã boa parte do grupo decidiu não fazer nenhuma das trilhas em função da garoa. Segui com o plano de subir e descer pela branca, e outras pessoas se somaram a essa ideia.

Passamos na administração para avisar da nossa saída e pegar mais algumas dicas – é muito importante informar qual trilha você irá fazer para o pessoal da administração, pois assim é possível que enviem resgate caso você tenha algum acidente. Eram 7h15 quando demos os primeiros passos morro acima. A trilha inicia por um caminho de pedra no meio da mata, mas logo se transforma em uma trilha orgânica, de barro e raízes e cada passo é como que numa escada. Os degraus vão ficando mais íngremes e depois de cerca de um quilômetro começam as cordas e grampos para auxiliar na subida. Durante todo o trajeto, não tem um passo que seja nivelado. Usa-se muito as coxas e os braços, e pessoas de baixa estatura enfrentam mais dificuldade, até porque os grampos estão colocados em uma distância que favorece as pessoas altas.

Quase quatro horas depois e começamos a enfrentar as longas paredes verticais com grampos. O dia estava bastante fechado e com neblina… Não consigo decidir se isso ajudava ou atrapalhava: ao mesmo tempo que era bom não poder ver o precipício, era terrível e paralisante encarar esse vazio total. Eu só queria passar rápido por essa etapa. Minha pressão começou a baixar, sentia minhas mãos ficando geladas e uma sensação de enjoo. Eu não parava de pensar em quão difícil seria voltar.

Depois de mais um lance de grampos, chegamos a um platô estreito que antecedia um paredão ainda mais longo. Ali decidimos que não iríamos continuar. Não foi uma decisão fácil, mas não tínhamos que provar nada a ninguém. Já fazia horas que caminhávamos morro acima, progredindo lentamente, e nosso GPS dizia que ainda faltava 1km vertical. Ficamos um bom tempo ali nos alimentando, enquanto um de nós subiu um pouco mais por curiosidade. A cada minuto chegava um novo grupo e demonstrava espanto com mais essa parede

vertical. Brincamos que seria hilário ficar ali filmando as reações. Porém invariavelmente seguiam.  Me pareceu que algumas pessoas estavam preparadas enquanto outras nem tanto, umas sequer sabiam ao certo o que estavam enfrentando e o que tinham pela frente. Cada qual com sua forma de se motivar, se garantir, e infelizmente outras subiam por pressão do grupo. Alguns tentavam nos incentivar também, mas não tiveram sucesso.

Não muito depois chegou o resto do nosso acampamento, que tinham decidido não fazer a trilha quando acordamos. Tinham mudado de ideia com o decorrer da manhã e agora subiam rápido. Passaram por nós no momento em que decidiamos por almoçar ali, mas descobrimos que nosso almoço tinha estragado. Sem muito mais o que comer e ainda bastantes cansados, iniciamos o caminho de volta, lomba a baixo, menos de 1km do cume.

Tucanos voam engraçado

De volta ao acampamento, nos alimentamos e compartilhamos nossas histórias com os outros grupos. Descansamos as pernas, enquanto observamos os tucanos, de árvore em árvore, com seu voo estranho, as gralhas-azuis, e o vai-e-vem ritmado dos trens escoando toneladas de grãos pra alimentar animais para o abate. O cansaço de 8h de trilha batia forte. Mesmo sem ter chegado ao topo, foi uma puxada e tanto. Se tivéssemos tido a gana de seguir, teríamos adicionado pelos menos 2h ao nosso percurso. Isso era muito mais do que eu tinha imaginado. A minha expectativa era de uma trilha difícil pela exposição, mas não pela exigência física.

Essa viagem serviu para pensar muitas coisas, entre elas, reavaliar minhas capacidades físicas e fazer uma distinção mais clara entre trekking e montanhismo. Nessa tarde que ficamos pela cozinha coletiva ouvimos que essa subida é a terceira mais difícil do Bra$il. E eu avaliando a dificuldade da trilha baseado apenas na extensão da trilha.

Quando estiver por lá, vale reservar um tempo para fazer outras trilhas além das clássicas. Teria sido muito legal chegar ao Parque pela trilha do Caminho do Itupava, por exemplo. De ascensão, além da branca e da vermelha, tem também a Facãozinho, que estava interditada para recuperação. E tem as mais curtas que não sobem o morro, como as Trilhas do Rochedinho, da Pedra Lascada, Cemitério dos Grampos, Cachoeira dos Marombistas e Salto dos Macacos.

Para mais informações visite o site do COSMO – Corpo de Socorro em Montanha.

 

Anúncios

4 pensamentos sobre “Uma viagem dentro de outra – Pico Marumbi, Paraná

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s