Caminho

Para ler ouvindo:
Dead Can Dance - Labour of Love
Aldebaran - Embracing The Lightless Depths

 

 

Desço as ruas com nomes de pedras que desconheço.
Atravesso a pequena passarela amarela onde fui assaltado aquele dia.
Chego à pista de lazer e invejo as pessoas que correm.
Passo pelo senhor de black grisalho e as roupas surradas, com seu caminhar dificultado pela idade. Ele vindo e eu indo, sempre no mesmo ponto, pontual e rotineiro assim como eu. Penso em dar um bom dia.
Cruzo a Andradas, desvio do Boulevard e atravesso a Contorno.
Pela Grão Pará eu vou bem reto. Cruzo a Brasil e dou de ombros para a placa “rua sem saída” na esquina da Matriz da Sta. Efigênia. Essa esquina tem um cheiro pungente da fogueira de dias atrás que fizeram pra extinguir o gerivá. Querem que ele morra na raiz.
Nessa área de hospitais, tem sempre essa picape ambulância que eu adoraria transformar numa casa.
Uma subida súbita e os prédios começam a mudar. Na frente do Manhattan Residence mora um casal atrás de caixas de ar-condicionado split e impressoras profissionais Ricoh.
Atinjo a Getúlio. Em Beagá a Grão Pará é transversal à Getúlio e não paralela.
O busto de Getúlio ainda no canteiro central à espera de ser decepado. Parece que mesmo os café-com-leite com o tempo passaram a adorar o tirano.
Cruzo a Afonso Pena. Por esse vão de 8 pistas extremamente largas dá para ver o parque municipal e o centro lá embaixo.
Sigo na Getúlio passando pela sorveteria São Domingos e pouco depois pela saída da cidade rumo ao sul, a mesma que vou pegar dentro de alguns dias.
Assim do nada, o urbanismo para pedestres da Savassi toma conta: as esquinas largas, com faixa elevada e bancos no cruzamento da Cristovão, e as vagas-vivas assassinadas pelo capital, cobertas de patrocínio e pinturas de Rogério Fernandes com suas girafas, rinocerontes e moças em balanços com saias rodadas.
No canteiro onde eu almoço também tem uma dessas girafas. E depois dali, eu dobro a esquerda e chego ao meu destino. Tô adiantado.
O caminho longo e diário já me entedia, mas sei que vou sentir falta de cada uma dessas passagens.

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Uma Travessia Metropolitana

Para ler ouvindo:
Skagos - Anarchic IV-V 
Petrograd - Mullet 

A primeira imagem que me chegou de Belo Horizonte, ainda antes de eu aterrissar por aqui, foi uma vista do bairro Saudade e das Vilas Fazendinha, Marçola e Nossa Senhora de Fátima. Minha mãe tirou essa foto da vista que se tem da casa de minha tia, onde fui recebido com muito carinho nesse tempo que estou aqui pela cidade. Lá no fundo da foto estava a Serra do Curral com o Pico de Belo Horizonte despontando. Quando eu cheguei aqui, peguei o hábito de ficar admirando essa montanha dia e noite. Subo numa pilha de tijolos com todo o cuidado pra não pisar em nenhum dos calangos que ali vivem e espio sobre o muro, observando essa formação geológica tão diferente das que se encontram lá na região onde eu moro.

Buscando por trilhas na região através do Wikiloc, encontrei essa travessia que inicia aqui em Belo Horizonte e vai até a cidade de Nova Lima que fica na região metropolitana logo atrás do morro, passando justamente por esse pico. Na hora fiquei com muita vontade de fazer a caminhada, mas fiquei apreensivo com a proximidade da área urbana e sem ter muita confiança para fazer esse caminho sem alguém local. Um conhecido disse que estavam organizando um grupo para fazer essa caminhada por lá, mas seria num fim de semana que eu não poderia participar. Acabamos perdendo contato e sequer fiquei sabendo se a caminhada aconteceu ou não.

Como a parceria não apareceu, eu arquivei essa ideia e foquei em outras travessias mais distantes dos centros urbanos. Pensei em fazer uma parte da Estrada Real, percurso de longa distância que existe aqui no sudeste seguindo caminhos coloniais de escoamento de ouro e outros minerais. Para fazer a rota que escolhi, precisava chegar até a cidade de Ouro Preto onde tinha inicio a caminhada. Minha intenção era conseguir uma carona de Belo Horizonte para Ouro Preto e economizar na passagem. Conversando com o pessoal da cidade, descobri que o melhor lugar para conseguir carona em direção ao sul do estado é no Posto Chefão, que fica na BR-040 na cidade de Nova Lima. Eu até poderia pegar um ônibus metropolitano de Beagá até Nova Lima, mas essa coincidência me pareceu com um chamado para retomar minha ideia e fazer a travessia do Pico de Belo Horizonte.

Iniciei logo cedo, sete da manhã já estava caminhando pelas calçadas do bairro. O inicio da trilha em si não estava distante mais do que 4km da casa da minha tia, então não precisei de outro tipo de locomoção que não as minhas próprias pernas. No dia interior fiz um reconhecimento dessa primeira parte do percurso, a parte mais urbana da caminhada. Passei pelas ruas que me levariam até o inicio da trilha e conheci os bairros por onde iria passar carregado na manhã seguinte. Eu sentia uma ansiedade gostosa de estar vivendo muitas coisas inéditas. Essa era a primeira trilha que eu estava fazendo em Minas Gerais, era a minha primeira trilha no cerrado e também minha primeira travessia sozinho.

A caminhada já começou com subidas intermitentes, mesmo ainda nas partes com calçamento. Depois de cerca de 40 minutos caminhando passei pela Seção de Ortopedia do Hospital Baleia e entrei no inicio da trilha, na minha esquerda. Ignorei a placa que proibia a entrada e continuei subindo, só que agora por uma trilha batida e pedregosa. Nessa parte ainda há bastante lixo e as trilhas são confusas, indo em diversas direções, umas mais marcadas que outras.

Pouco tempo depois do inicio da trilha íngreme, a natureza começa a parecer mais preservada e uma sensação de ter deixado a civilização para trás começou a me tomar por inteiro. Essa ilusão não durou muito porque logo comecei a ouvir os grunhidos das máquinas de mineração. Apesar de eu estar fazendo uma versão da Travessia que desvia do canteiro da mineradora, a rota ainda assim passa muito próximo das crateras que vão sendo aprofundadas a cada minuto. As máquinas vão transformando a montanha em uma pedra oca, me fazendo lembrar que a civilização dificilmente fica para trás, mesmo quando deixamos a cidade. A civilização se estende muito além dos limites urbanos e suas construções, e não por acaso, esconde seu maior impacto ali logo depois da curva. Na Serra do Curral isso fica evidente: uma montanha escolhida em plebiscito como ícone de Belo Horizonte, nada mais é que uma casquinha oca. De qualquer forma, o panorama que se tem da cidade segue sem rastros da destruição.

As crateras estavam a minha esquerda e a trilha que eu seguia ia se direcionando lentamente para a direita, descendo uma depressão para logo em seguida iniciar uma subida íngreme. Quando atingi o fundo da trilha, pouco antes da subida comecei a ouvir vozes. Alguém falava alto, como que discutindo, mas eu não conseguia entender o que dizia nem localizar onde a pessoa estava. Iniciei a subida e avistei um homem lá no topo, aparentemente falando sozinho ou no telefone. A trilha que subia interceptava uma pequena estrada de terra que vem da cidade passando pela entrada do Parque Mangabeiras e chegando até as muitas antenas de televisão, rádio e telefonia e um posto da Policia Militar localizados no pico. Pelo menos não era alguém no meio do mato gritando ao telefone, e sim numa estrada. Acho que ambos estranharam a presença um do outro, esses encontros assim no meio do nada são sempre carregados de uma tensão subliminar.

Segui meu rumo pela estrada, dando as costas para o homem ao telefone. A estrada ia virando para a esquerda em direção a mineradora. Agora a caminhada tinha uma vista incrível de toda a cidade mesmo eu não tendo atingido o Pico ainda. Mais alguns metros nessa estrada e avistei uma placa muito irônica que dizia: “Proibido acesso de Ciclistas e Pedestres. Área em Recuperação. EMPABRA – Empresa de Mineração Pau Branco” Logo abaixo dessa placa, as crateras, as máquinas e os muitos caminhões alinhados zombavam de qualquer definição de “práticas de mínimo impacto”. Outra vez ignorei o aviso, dessa vez com orgulho. Dali a estrada fazia uma curva para a direita e a trilha sai numa tangente subindo quase que em linha reta até o Pico. Subi patinando na pedra solta, um tipo de brita preta e graúda, usando muito as mãos e tentando recuperar o folego a cada passada até atingir uma trilha batida que serpenteava o contorno do Pico em si.

Cheguei ao topo em exatas duas horas. Uma visão panorâmica da cidade de Belo Horizonte, com o Parque Mangabeiras e as crateras de mineração em primeiro plano e os milhares de prédios logo atrás a perder de vista. Olhando para o outro lado, a lagoa da Mina de Águas Claras, fechada há 16 anos e com acesso interditado¹, e os municípios de Raposos e Nova Lima, meu destino. Fiz um rápido lanche e tirei uma porção de fotos que não ficaram muito boas. Comecei a descida íngreme em direção a Nova Lima, curioso para ver com o que esse lado da montanha se parecia.

Dizem que para descer todo o santo ajuda, e quando a rampa é íngreme e com pedrisco solto ajuda mesmo! No tracklog que eu seguia esse trecho era chamado de “descida rala bunda”, e com razão, tomei três tombos em poucos metros. Percebi na prática porque os bastões de caminhada nunca devem estar presos aos pulsos nas descidas. Sobrevivi a essa parte com apenas um esfolado na canela. A rota se juntou à uma estrada vicinal para depois entrar em uma mata seca em um trilho bem profundo, provavelmente cavocado por mountain bikes. Seguiu assim por um bom tempo até a chegada do asfalto e das primeiras casas de Nova Lima. Trilha concluída ao meio dia, na hora exata para pegar um almoço reforçado em algum self-service sem balança da cidade.

 

 

 

 

¹A Mina de Águas Claras foi intensamente explorada por sucessivas mineradoras, incluindo a MBR e a Vale, que detém o terreno até hoje. Desde que deixou de ser utilizada, existe ampla pressão para que seja dado um fim para a área e acesso público. O lago está enchendo lentamente com água de três córregos da região e quando terminar de encher será o lago mais profundo do Brasil com 234m. Essa Mina levou Carlos Drummond de Andrade a escrever o poema Triste Horizonte.

Belô Horizonte – uma semana depois

Para ler ouvindo:
S - This Way Always
Caves - The Mess I Made

Fez uma semana que cheguei em Belo Horizonte. O retrato da cidade que vivia na minha imaginação vai se dissipando aos poucos e uma imagem da BH que eu vou trilhando vai tomando seu lugar. Na minha ignorância tinha imaginado uma cidade antiga, com arquitetura colonial, mas me surpreendi com essa cidade planejada e com pouco mais de 100 anos. Falo em surpresa e pode soar como uma coisa boa mas na verdade essa surpresa é neutra. A arquitetura me interessa e obviamente conta uma história, porém sempre uma história de poder, seja a do poder colonial ou, nesse caso, do poder do capitalismo modernista. No fim uma cidade é sempre uma cidade e o que vai afetar nossa percepção são os encontros, as pessoas e o impacto dessas pessoas nesse lugar.

A impressão que construímos de uma cidade é muito influenciada por como se dão nossos deslocamentos. Estar hospedado próximo do centro permite que eu faça quase tudo a pé. Pensei em trazer minha bicicleta, mas estou contente que não trouxe. Caminhar é muito diferente, tem um ritmo mais meditativo e é um exercício de paciência. O tempo da caminhada me fascina. Não só a mim, claro. Tava lendo outro dia sobre como alguns filósofos conhecidos tinham a caminhada como um hábito diário, alguns caminhavam de forma metódica e outros de um jeito mais espontâneo, refletindo sua personalidade e a forma como desenvolviam suas ideias. Muita coisa vem à cabeça quando caminhamos, e na maioria das vezes parece tudo mais simples e organizado do que é, de fato, a realidade.

A história também é relativa, influenciada por nossa perspectiva e construída a cada segundo. Numa cidade nova desconhecemos as cicatrizes, os traumas de cada avenida e rua, e os prédios estão em branco esperando que a gente construa alguma memória ali ou desencave o seu passado. Até mesmo as pessoas são como novos mundos em potencial, sem ranços, predisposições ou tretas. Talvez a aventura da descoberta de novos universos e de escrever histórias frescas em cada esquina seja a grande recompensa de viajar.