Uma Travessia Metropolitana

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Skagos - Anarchic IV-V 
Petrograd - Mullet 

A primeira imagem que me chegou de Belo Horizonte, ainda antes de eu aterrissar por aqui, foi uma vista do bairro Saudade e das Vilas Fazendinha, Marçola e Nossa Senhora de Fátima. Minha mãe tirou essa foto da vista que se tem da casa de minha tia, onde fui recebido com muito carinho nesse tempo que estou aqui pela cidade. Lá no fundo da foto estava a Serra do Curral com o Pico de Belo Horizonte despontando. Quando eu cheguei aqui, peguei o hábito de ficar admirando essa montanha dia e noite. Subo numa pilha de tijolos com todo o cuidado pra não pisar em nenhum dos calangos que ali vivem e espio sobre o muro, observando essa formação geológica tão diferente das que se encontram lá na região onde eu moro.

Buscando por trilhas na região através do Wikiloc, encontrei essa travessia que inicia aqui em Belo Horizonte e vai até a cidade de Nova Lima que fica na região metropolitana logo atrás do morro, passando justamente por esse pico. Na hora fiquei com muita vontade de fazer a caminhada, mas fiquei apreensivo com a proximidade da área urbana e sem ter muita confiança para fazer esse caminho sem alguém local. Um conhecido disse que estavam organizando um grupo para fazer essa caminhada por lá, mas seria num fim de semana que eu não poderia participar. Acabamos perdendo contato e sequer fiquei sabendo se a caminhada aconteceu ou não.

Como a parceria não apareceu, eu arquivei essa ideia e foquei em outras travessias mais distantes dos centros urbanos. Pensei em fazer uma parte da Estrada Real, percurso de longa distância que existe aqui no sudeste seguindo caminhos coloniais de escoamento de ouro e outros minerais. Para fazer a rota que escolhi, precisava chegar até a cidade de Ouro Preto onde tinha inicio a caminhada. Minha intenção era conseguir uma carona de Belo Horizonte para Ouro Preto e economizar na passagem. Conversando com o pessoal da cidade, descobri que o melhor lugar para conseguir carona em direção ao sul do estado é no Posto Chefão, que fica na BR-040 na cidade de Nova Lima. Eu até poderia pegar um ônibus metropolitano de Beagá até Nova Lima, mas essa coincidência me pareceu com um chamado para retomar minha ideia e fazer a travessia do Pico de Belo Horizonte.

Iniciei logo cedo, sete da manhã já estava caminhando pelas calçadas do bairro. O inicio da trilha em si não estava distante mais do que 4km da casa da minha tia, então não precisei de outro tipo de locomoção que não as minhas próprias pernas. No dia interior fiz um reconhecimento dessa primeira parte do percurso, a parte mais urbana da caminhada. Passei pelas ruas que me levariam até o inicio da trilha e conheci os bairros por onde iria passar carregado na manhã seguinte. Eu sentia uma ansiedade gostosa de estar vivendo muitas coisas inéditas. Essa era a primeira trilha que eu estava fazendo em Minas Gerais, era a minha primeira trilha no cerrado e também minha primeira travessia sozinho.

A caminhada já começou com subidas intermitentes, mesmo ainda nas partes com calçamento. Depois de cerca de 40 minutos caminhando passei pela Seção de Ortopedia do Hospital Baleia e entrei no inicio da trilha, na minha esquerda. Ignorei a placa que proibia a entrada e continuei subindo, só que agora por uma trilha batida e pedregosa. Nessa parte ainda há bastante lixo e as trilhas são confusas, indo em diversas direções, umas mais marcadas que outras.

Pouco tempo depois do inicio da trilha íngreme, a natureza começa a parecer mais preservada e uma sensação de ter deixado a civilização para trás começou a me tomar por inteiro. Essa ilusão não durou muito porque logo comecei a ouvir os grunhidos das máquinas de mineração. Apesar de eu estar fazendo uma versão da Travessia que desvia do canteiro da mineradora, a rota ainda assim passa muito próximo das crateras que vão sendo aprofundadas a cada minuto. As máquinas vão transformando a montanha em uma pedra oca, me fazendo lembrar que a civilização dificilmente fica para trás, mesmo quando deixamos a cidade. A civilização se estende muito além dos limites urbanos e suas construções, e não por acaso, esconde seu maior impacto ali logo depois da curva. Na Serra do Curral isso fica evidente: uma montanha escolhida em plebiscito como ícone de Belo Horizonte, nada mais é que uma casquinha oca. De qualquer forma, o panorama que se tem da cidade segue sem rastros da destruição.

As crateras estavam a minha esquerda e a trilha que eu seguia ia se direcionando lentamente para a direita, descendo uma depressão para logo em seguida iniciar uma subida íngreme. Quando atingi o fundo da trilha, pouco antes da subida comecei a ouvir vozes. Alguém falava alto, como que discutindo, mas eu não conseguia entender o que dizia nem localizar onde a pessoa estava. Iniciei a subida e avistei um homem lá no topo, aparentemente falando sozinho ou no telefone. A trilha que subia interceptava uma pequena estrada de terra que vem da cidade passando pela entrada do Parque Mangabeiras e chegando até as muitas antenas de televisão, rádio e telefonia e um posto da Policia Militar localizados no pico. Pelo menos não era alguém no meio do mato gritando ao telefone, e sim numa estrada. Acho que ambos estranharam a presença um do outro, esses encontros assim no meio do nada são sempre carregados de uma tensão subliminar.

Segui meu rumo pela estrada, dando as costas para o homem ao telefone. A estrada ia virando para a esquerda em direção a mineradora. Agora a caminhada tinha uma vista incrível de toda a cidade mesmo eu não tendo atingido o Pico ainda. Mais alguns metros nessa estrada e avistei uma placa muito irônica que dizia: “Proibido acesso de Ciclistas e Pedestres. Área em Recuperação. EMPABRA – Empresa de Mineração Pau Branco” Logo abaixo dessa placa, as crateras, as máquinas e os muitos caminhões alinhados zombavam de qualquer definição de “práticas de mínimo impacto”. Outra vez ignorei o aviso, dessa vez com orgulho. Dali a estrada fazia uma curva para a direita e a trilha sai numa tangente subindo quase que em linha reta até o Pico. Subi patinando na pedra solta, um tipo de brita preta e graúda, usando muito as mãos e tentando recuperar o folego a cada passada até atingir uma trilha batida que serpenteava o contorno do Pico em si.

Cheguei ao topo em exatas duas horas. Uma visão panorâmica da cidade de Belo Horizonte, com o Parque Mangabeiras e as crateras de mineração em primeiro plano e os milhares de prédios logo atrás a perder de vista. Olhando para o outro lado, a lagoa da Mina de Águas Claras, fechada há 16 anos e com acesso interditado¹, e os municípios de Raposos e Nova Lima, meu destino. Fiz um rápido lanche e tirei uma porção de fotos que não ficaram muito boas. Comecei a descida íngreme em direção a Nova Lima, curioso para ver com o que esse lado da montanha se parecia.

Dizem que para descer todo o santo ajuda, e quando a rampa é íngreme e com pedrisco solto ajuda mesmo! No tracklog que eu seguia esse trecho era chamado de “descida rala bunda”, e com razão, tomei três tombos em poucos metros. Percebi na prática porque os bastões de caminhada nunca devem estar presos aos pulsos nas descidas. Sobrevivi a essa parte com apenas um esfolado na canela. A rota se juntou à uma estrada vicinal para depois entrar em uma mata seca em um trilho bem profundo, provavelmente cavocado por mountain bikes. Seguiu assim por um bom tempo até a chegada do asfalto e das primeiras casas de Nova Lima. Trilha concluída ao meio dia, na hora exata para pegar um almoço reforçado em algum self-service sem balança da cidade.

 

 

 

 

¹A Mina de Águas Claras foi intensamente explorada por sucessivas mineradoras, incluindo a MBR e a Vale, que detém o terreno até hoje. Desde que deixou de ser utilizada, existe ampla pressão para que seja dado um fim para a área e acesso público. O lago está enchendo lentamente com água de três córregos da região e quando terminar de encher será o lago mais profundo do Brasil com 234m. Essa Mina levou Carlos Drummond de Andrade a escrever o poema Triste Horizonte.

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BikeHandling em TdP

Amanhã o pessoal do Bike Handling vai dar os primeiros passos numa jornada de 10 dias ao redor do massivo Paine Grande. No inicio de 2015 fiz essa caminhada também e foi algo que impactou minha vida enormemente. Nesse trekking de 2015 entre nós estava também João Vitor que acabou não conseguindo seguir viagem por problemas no joelho e agora retorna ao parque para retomar a caminhada de onde parou. Desejo muita sorte, bom tempo e bons ventos para elas e eles. Que as montanhas tratem vocês muito bem! Esperamos ansiosxs pelas fotos e relatos e por dividir essa experiência 🙂

ps: Já que você provávelmente vai dar um pulo no site do BH, aproveita e acompanha as aventuras do Expresso Patagônia. Meu amigo Freitas desceu de bicicleta daqui do sul do Bra$il até o Ushuaia pelas estradas inóspitas do leste Argentino e de lá está iniciando o caminho de volta ao norte pelo oeste chileno.

Paysage D’hiver – Caminhando no Passo do Inferno

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Paysage d'Hiver - Ausklang 
Paysage d'Hiver - Schnee II 

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O inverno nem tinha chegado ainda mas as temperaturas despencaram rapidamente aqui na cidade. Por algumas semanas as mínimas ficaram abaixo dos 10ºC e a previsão para o fim de semana era de temperaturas negativas. Na serra do estado a previsão era de frio intenso e isso foi a desculpa que nos faltava. Fazia um tempo que adiávamos a vontade de revisitar São Francisco de Paula e já tínhamos umas trilhas separadas.

Uma delas, a Trilha das Oito Cachoeiras, acabamos descobrindo que iniciava num terreno de uma pousada que não possuía lugar para acampar, isso envolveria dois custos, o de camping e o de ingresso à propriedade privada e quatro longos deslocamentos de carro para a trilha e de volta dela, porque nossa intenção era dividir o percurso de quase 16 quilômetros em dois dias. Achamos outros campings e um deles, o camping do Parque da Cachoeira, estava muito próximo de duas trilhas que encontramos na internet. Além disso, o Parque contava com duas trilhas dentro da própria propriedade que apesar do meu ceticismo com essas trilhas de parques particulares, me deixou motivado pois não nos faltaria opção.

Sábado – 1º dia

Saímos um pouco antes das 08:00. Depois de duas horas de estrada, entramos na estrada de chão que leva para o Parque das Cachoeiras, outras propriedades rurais e algumas pequenas represas para geração de energia. Logo antes da entrada do parque uma linda ponte metálica conecta as duas montanhas que o rio Caí corta. Descendo do carro o frio mordeu, mas mesmo assim ficamos ali observando a estrutura, o ar gelado e o rio lá embaixo, distante. Tomamos nosso tempo até finalmente cruzar a ponte e fazer a identificação na recepção do parque. A área destinada para camping é toda “reflorestada” com Pinus o que dá bastante cobertura do sol e deve ser uma vantagem no verão, já o restante do parque tem um aspecto mais natural, com cobertura de mata ciliar e campos de cima da serra. Buscamos uma área protegida do vento gelado, eu procurava alguma vista também, mas não dava para ver nada além das linhas de pinus. A área é toda inclinada, mas com platôs criados para montar as barracas. Nessa hora bateu a diferença de ficar em um camping estruturado em relação à acampar selvagem, todas as tomadas, as lâmpadas, as mesas e os banheiros por todos os lados. Mesmo sabendo desde o inicio que íamos ficar em um camping viemos carregando baterias externas, filtros d’água, lanternas e tudo mais para sermos autonomes. Porém essas facilidades de um camping estruturado iam ajudar a compensar o frio e no final das contas, tínhamos o camping inteiro só para nós.

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Armamos as três barracas para abrigar nós cinco em volta de uma mesa e churrasqueira, cozinhamos rapidamente uma massa com pesto e seleta de legumes, e depois de comer e dar uma breve pausa saímos para a primeira trilha. Como estávamos atrasades, optamos por uma trilha curta que o pessoal na recepção sugeriu, a Trilha do Pico da Bandeira, uma rota íngreme morro à cima, logo depois de cruzar a ponte de ferro. A subida foi forte mas não levamos mais do que 15 minutos para subi-la bem lentamente. A vista do topo é muito bonita, de lá pode-se ver a confluência dos rios Cará e Caí, a cachoeira, a ponte, e todo o parque. Lá de cima avistamos também uma trilha do outro lado do rio que saía da mata e serpenteava uma colina de campo. Parecia com uma das trilhas que encontramos na internet.

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Depois de curtir um pouco a vista e o sol no topo, retornamos para o parque, devolvi a chave do portão de acesso à trilha que tínhamos acabado de fazer (sim, a trilha tem entrada cadeada) e confirmei que a trilha que avistamos do topo era a Trilha dos Xaxins Gigantes (que no wikiloc era nomeada como Trilha Circular Dentro do Parque das Cachoeiras – Área nova).

A Trilha dos Xaxins Gigantes é uma trilha circular de pouco menos de 4km que se inicia dentro da mata de xaxins antes de sair pelos campos, passando por algumas ruínas até voltar a mata costeando o rio Cará. Alguns trechos eram de descidas escorregadias e bem expostas, mas tinham cordas bem posicionadas para garantir a caminhada em segurança. Nós levamos cerca de 2h30 fazendo longas pausas, primeiro para um lanche nas ruínas na metade do caminho e depois na beira do rio cogitando a possibilidade de um mergulho (não tivemos coragem de encarar o frio – por hora).

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De volta ao acampamento, hora de reanimar a fogueira improvisada na churrasqueira e aproveitar os últimos raios de sol. Eu, ansioso, já fui fazendo o pré-preparo do jantar: cuscuz com molho de tomate e grão de bico. Sentamos à mesa para jantar já reclamando do frio, o assunto não saía disso, o medo do frio que iria fazer mais tarde e como suportá-lo se já estávamos usando todas nossas roupas. Depois de jantar tomamos um chocolate quente, sem pausa alguma, ansioses para entrar em nossas barracas e sacos de dormir e se aquecer.

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Domingo – 2º dia

A noite foi terrível para umes e tolerável para outres, a temperatura sem dúvida baixou de zero, mas não sabemos o quanto. Muitas coisas estavam congeladas quando acordamos. Fomos levantando de acordo com a qualidade do sono e aos poucos dando inicio ao dia. A minha experiência não foi das piores, com dois isolantes térmicos, saco de dormir conforto 0ºC e várias camadas de roupa, tive uma noite relativamente boa.

Café da manhã ingerido, barracas desmontadas e guardadas e partimos para a Trilha da Toca. Outra trilha dentro do parque e também com aproximadamente quatro quilômetros de extensão, a única diferença é que essa é em sentido único costeando o rio Caí até a Toca e a Cachoeira Escondida, ou seja, dois quilômetros para ir e dois para voltar pela mesma trilha.

Apesar do frio noturno, o sol saiu com força na manhã e nos acompanhou por toda a trilha. Enquanto íamos costeando o rio numa de trilha de rolagem fácil, os casacos iam se indo para as mochilas. Não muito depois chegamos na tal da Cachoeira Escondida, que devido a baixa quantidade de chuvas era uma série de quedas menores descendo de um paredão protuberante e irregular para uma enorme piscina. Tínhamos os corpos aquecidos da caminhada e o sol inundava a piscina… não precisamos de muito convencimento para um mergulho! Minha vontade era de mergulhar e nadar por aquela piscina, mas a água estava tão gelada que ninguém durou mais que alguns segundos submerses.

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Depois de retornar para a pedra quentinha, deixar o sol nos secar e fazer um lanche, retornamos pela mesma trilha. Logo que saímos nos deparamos com um buraco e resolvemos investigar. Era a tal da Toca que também da nome a trilha e que não avistamos na ida, duas grandes rochas sobrepostas com uma passagem no meio que dá em uma pequena ilha. Essa ilha tinha uma vista mais completa da cachoeira e era uma das barreiras que mantinha a piscina. Ficamos apenas alguns momentos ali já que metade do grupo tinha disparado na frente sem perceber a entrada da toca.

No fim das contas foi uma experiência interessante, acampar em temperaturas super baixas, ter um camping inteiro só para nós e conhecer trilhar fáceis e bem demarcadas, algo incomum na região de Porto Alegre. Acabamos não tendo tempo para percorrer uma outra trilha que tínhamos separado do Wikiloc, a Trilha do Passo do Inferno que era um pouco mais longa e fora dos limites do parque, mas as trilhas dentro do parque foram uma ótima surpresa.

 

A prova de nada – Aquatrekking na Jungle

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 Keny Arkana - Tout tourne autour du soleil

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Não dá nem pra contar quantas vezes bolamos planos de viagens que não saem do papel. Em especial quando tem feriado se aproximando. É sempre um malabarismo tentando equilibrar diferentes vontades e possibilidades e tornar um desses planos realidade. Não ajuda muito o fato de que roteiros e trilhas de trekking não são assim tão comuns.

Para esse feriado de Páscoa que passou tivemos o mesmo brainstorming coletivo de sempre, muitas ideias de onde poderíamos ir, algumas muito distantes, outras muito longas, umas muito curtas… Pensamos em caminhar no Pontal de Tapes, nos cânions da fronteira com Santa Catarina e na cachoeira escondida de Nova Roma do Sul. Aos poucos o grupo foi diminuindo e as opções se limitando até o ponto de decidirmos por uma trilha que encontramos no Wikiloc, chamada “Garapiá-Bananeiras” em Maquiné/RS.

Dia 1 – Sexta

Pegamos o ônibus das 06h30 de Porto Alegre até Osório, teria sido mais confortável pegar o das 07h30, mas em função do feriado não tinha mais lugar para nós quatro. Chegando em Osório tivemos que esperar pelo primeiro ônibus que leva até Maquiné que sai às 09h20 diariamente.  Para passar o tempo, armamos um picnic num terreno baldio em frente à rodoviária, desenrolei o footprint de tyvek e nos posicionamos para nosso merecido desjejum. Nem bem sentamos e começou uma garoa daquelas super finas, fizemos um esforço tentando ignorar a situação e seguir com nosso plano, mas era cedo demais para molhar todas as nossas coisas. Nos escondemos na marquise de uma imobiliária que estava fechada em função do feriado.

Eu tava caindo de sono, a noite tinha sido super curta pois tive que ficar até tarde organizando tudo para a vinda… em geral sou bem metódico e adianto esse empacotamento deixando tudo pronto com antecedência, mas dessa vez foi super corrido e em cima da hora. Estiquei o isolante nos degraus da imobiliária que nos abrigava e tentei um cochilo. Dormir rapidamente e em qualquer posição não é meu forte e o cochilo não vingou.

Catamos nossas coisas e embarcamos no pinga-pinga até Maquiné. Uma hora e quarenta depois e o ônibus nos larga na bifurcação da Barra do Ouro. Chove mais forte agora, casacos impermeáveis, mochilas nas costas e iniciamos a caminhada. O arquivo de GPS inicia justamente aqui, provavelmente es autores também vieram de ônibus, daqui pra frente serão 31km. Na verdade ainda não tínhamos bem certo se faríamos a trilha inteira terminando na RS-486, precisando daí agilizar uma carona para voltar, ou se seria melhor retornar mais ou menos na metade do caminho para pegar o ônibus aqui.

Caminhamos pelas já conhecidas estradas do distrito da Barra do Ouro debaixo de muita chuva, nos abrigamos como pudemos debaixo de uma árvore para comer alguma coisa. Ainda bem que tínhamos alguns sanduíches prontos porque cozinhar com essa chuva não seria tarefa fácil. Não nos demoramos muito, molhades como estávamos perdíamos muito calor parades.

Cerca de dez quilômetros depois a estrada cedia lugar a trilha, mas não antes de cruzar o rio caudaloso. Tivemos bastante trabalho na travessia com água quase nas nossas cinturas. Mas o maior problema não foi cruzar, mais tarde iriamos descobrir que o GPS estava nos pregando uma peça e estávamos na trilha errada já de partida.

A trilha ia subindo bastante, numa mata com características de cerrado e passando por algumas roças de milho e algumas pequenas casas, a chuva não dava trégua e depois de subirmos um pouco começamos a percorrer um caminho de barro bem característico de trilhas criadas por animais. Não demorou para termos que negociar nossa passagem com uma égua que pastava bem no meio do trilho. A negociação foi mal sucedida e acabamos mesmo é dando a volta. A mata foi fechando e os trilhos criados pelos animais eram ambíguos, começamos a perceber que estávamos perdendo controle da direção. Tentando acompanhar o nosso ponto no GPS percebemos que tinha um delay de alguns metros e isso tornava impossível de saber onde estávamos de fato, apenas quando parávamos o ponto azul nos buscava e aí percebíamos que estávamos fora do log.

Depois de ir e voltar tentando reencontrar o caminho, escorregar nos barrancos molhados e muito se arranhar nos milhões de cipós espinhentos resolvemos encarar os fatos; Não fazíamos ideia de quanto faltava para chegarmos aos campos da serrinha onde seria possível acampar, muito menos sabíamos como chegaríamos lá, estávamos na chuva desde as nove da manhã e estava quase anoitecendo. Optamos por dar meia volta, retraçar nossos passos e acampar na barra do ouro, uma opção mais cautelosa.

Descemos rápido, seguindo nossos próprios passos enquanto a luz ia se extinguindo e a trilha ia ganhando uma tonalidade azulada. Cruzamos o rio novamente dessa vez com mais confiança e agilidade e logo estávamos no camping. Tivemos sorte que tinha um galpão onde pudemos cozinhar e estender nossas roupas encharcadas em volta do fogão a lenha.

Apenas um dia de caminhada e já tínhamos bastante história para contar, ficamos rindo de nossas presepadas e amadorismo junto com o dono do camping que prometeu nos levar na trilha certa no dia seguinte.

Dia 2 – Sábado

Como de costume, acordei antes do restante. Não demorou muito e meu companheiro de barraca também despertou, tomamos café da manhã, organizamos nossas coisas e nem sinal da outra barraca. Resolvemos dar um pulo até a Cascata do Garapiá não muito distante dali. Retornamos e o restante do pessoal começava a se mexer. Por volta das 10h começamos a caminhada acompanhados pelo Eduardo, o  proprietário do camping, e uma matilha de cães. Cruzamos o rio em um ponto diferente e lá sim começava a trilha! Um trilho profundo, que as vezes chegava a ter um metro de profundidade, formado por anos de incursões de tropeiros e tropeiras e reforçado pela descida da água do morro.

 

Seguimos esse trilho estreito e profundo atrás do Eduardo que ia nos mostrando o caminho. Apesar de fazer um dia ensolarado a trilha mais parecia um riacho de tanta água que escoava da chuvas do dia anterior. Subimos um bocado até um ponto que nos despedimos do Eduardo e seguimos por conta.

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Apesar da trilha ser bem demarcada, dos barrancos laterais nascem muitos arbustos espinhentos que não permitem um deslocamento muito ligeiro e confortável. Mais um pouco de subida e finalmente um alívio visual, subindo em uma grande pedra é possível ter um panorama do vale da Barra do Ouro. Uma vista que vale muito a pena e que é fácil passar despercebida. De volta a mata fechada que agora ia ganhando mais e mais araucárias e deixando de ser tão espinhenta!

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Depois de 3h de caminhadas chegamos ao mirante na borda do cânion, de lá pode-se ver uma bela cascata que vai terminar alimentando o rio Garapiá. Fizemos um intervalo para o almoço nós e nossa matilha que seguia firme conosco. Tiramos uma sesta apesar de que sentíamos frio por estarmos molhades de caminhar na água e de se esfregar na vegetação encharcada da chuva do dia anterior.

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Iniciamos a descida às 15h, já um pouco tarde, mas contando que descer seria mais rápido do que subir. Depois de um bocado de descida, já com a pele cansada de tanto lutar com os espinhos, começamos a não reconhecer a mata… a selva úmida por onde tínhamos subido tinha dado lugar à uma vegetação mais seca, como se fosse uma face do morro mais exposta ao sol. Decidimos por voltar e buscar a bifurcação onde tínhamos perdido a direção. A gravação de GPS que eu fiz da subida para termos de backup na hora de descer era apenas uma linha reta, e a tal da bifurcação não existia. Optamos por voltar a descer por essa trilha mesmo sabendo que não era a correta.

Andamos pouco e chegamos num ponto onde a trilha parecia acabar. Já passava das 17h e a essa altura já tínhamos perdido toda a confiança em nosso senso de direção e a única certeza que tínhamos era que descendo em linha reta chegaríamos ao rio e de lá seria fácil voltar ao camping. Foi isso que fizemos, nos embrenhamos na mata fechada, barranco abaixo. Ligamos o survival mode, já não contávamos mais piadas, mal dizíamos qualquer coisa.

Nos aliviamos quando a mata se abriu e deu lugar a uma área desmatada e descuidada onde nasceu um capinzal. Foi um alívio visual podermos enxergar que o morro estava acabando e que em algum lugar logo abaixo teria de estar o rio. Mas entrar no capinzal provou que o alívio era mesmo apenas visual, ficamos totalmente encobertos pelo capim alto e denso, não se podia ver mais do que alguns centímetros. Conforme íamos caminhando, caíamos em valas como se o barranco tivesse sido moldado em degraus para algum tipo de cultivo e o que era mata antes agora eram troncos queimados e caídos onde pisávamos em falso.

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Custou muito superar o capinzal, em silêncio fomos aguentando os tombos, torções e cortes que o capim e o terreno iam infringindo na gente. As vezes chamávamos ume pele outre só afim de confirmar que ninguém tinha ficado para trás. O Ogro foi o primeiro a alcançar um riachinho que nos encheu de esperança… talvez seguindo esse curso d’água chegaríamos no rio! A cachorra branca que nos acompanhava seguiu na frente o que foi outro bom sinal, parecia que finalmente ela reconhecia onde estávamos. Já com headlamps acesas começamos a seguir uma trilha fina, uma mangueira d’água e um cabeamento de energia elétrica… era de uma casa onde imaginamos que essa companheira canina vivia, mas que estava fechada e aparentemente vazia. Mais alguns passos apressados e encontramos o inicio do trilho por onde tínhamos subido pela manhã e finalmente o rio no mesmo ponto onde cruzamos.

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Passava das 18h mas agora tudo que tínhamos que fazer era seguir a estrada até o camping. Missão cumprida aos trancos, meio envergonhades de tantos erros e amadorismos. Relembrando juntes mais tarde, percebemos que durante todo o tempo todes estavam fazendo cálculos de quanta água e quanta comida tínhamos em nossas pequenas mochilas de quem só foi passar o dia e imaginando como seria passar a noite enrolados em si mesmes tentando combater o frio. O bom de quando as coisas não saem como planejamos é que aprendemos muito mais.

Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 2

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Continuação…

A chuva não veio, apesar de que o medo dela tirou meu sono e meu saco de dormir não venceu o pouco frio que fez. Os dois trens que passaram na madrugada também nos acordaram, mas isso era esperado e pode-se dizer antecipado até, durante todo o primeiro dia não tinhamos visto um trem sequer. Acordamos de fato pouco antes das 06:00 e depois de desarmar o acampamento e tomar o café-da-manhã, reiniciamos a caminhada. O dia amanheceu nublado, mas ainda nada da chuva para nossa sorte. Estávamos divididxs entre tocar todo o dia e concluir a trilha, ou manter um ritmo mais tranquilo, acampar mais um dia e deixar alguns quilômetros finais para o dia seguinte. Como sempre os principais motivadores das decisões eram o cansaço versus a possibilidade de chuva torrencial que prometia a previsão.

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Trilhos da Tigra – Travessia Colombo – Muçum – Parte 1

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A previsão de chuva intensa para o fim de semana não nos desengajou, depois de ter superado o medo-do-medo-de-altura e o medo da claustrofobia uma chuva não era de assustar. A trilha na ferrovia do trigo, localizada na serra do Rio Grande do Sul, era uma caminhada que vínhamos falando em fazer há um tempo. Um misto de natureza e exploração urbana, a caminhada segue os trilhos da ferrovia construída para escoar o trigo nos anos 1970, passando por túneis extensos e totalmente claustrofóbicos e pontes altíssimas, construídas para superar os vales dos afluentes do Rio Guaporé. Muito se falava sobre a dificuldade de andar entre os trilhos, tendo que aterrissar os pés entre dormentes e britas pontudas e soltas, mas me preocupava mais as sensações que os túneis e pontes teriam em mim. Agora, enquanto escrevo esse relato, meus pés e panturrilhas doem de uma forma totalmente nova na minha curta experiência em trekking, a trilha-sem-trilha, a trilha ausente cobrou seu preço sobre nossos corpos.

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Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 2

Em Março de 2015 embarquei numa jornada com mais quatro amigos para a Patagônia Chilena. Um sonho de infância se tornou realidade meio que sem querer… meio que de última hora. Vendi o que pude, me endividei, comprei equipamentos de segunda-mão e peguei algumas coisas emprestadas.
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Todas as fotos por Suryan Cury, exceto quanto citado.

Continuação. Essa é a segunda parte. Leia a primeira aqui.

24 de março – Dia 8 – Campamento Serón

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Mais um dia épico. Caminhamos das 6h30 da manhã até as 16h! Do acampamento torres até o Mirante Las Torres para o nascer do sol, dali voltamos ao camping, pegamos nossas coisas e rumamos até o acampamento Chileno. Lá pegamos ainda mais coisas, comida e roupas que deixamos para fazer a trilha de subida um pouco mais leves. Refizemos a divisão das comidas e do peso e organizamos as mochilas antes de descer pelo vale até o Hotel Las Torres onde paramos para o almoço. Comemos uma sopa rápida, engrossada com purê de batatas em pó.

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