Se assumindo Randoneiro – meu primeiro Audax

Para ler ouvindo:
 Mogwai - Come On Die Young
 I - The Storm I Ride

Enquanto giravam os pedais em uma noite qualquer de entregas, minha mente começou a relembrar as primeiras longas distâncias que eu me aventurei a fazer. A primeira que me lembrei foi uma ida e volta à Belém Novo, bairro distante cerca de 25km do centro da cidade, acompanhado de um amigo de colégio numa época pré-google maps. Naquele tempo eu nem bem sabia que dentro dos pneus da bicicleta haviam câmaras de ar, entre outras coisas simples sobre bicicletas ou o mundo, mas mesmo assim já sonhava em pedalar até lugares tão distintos quanto a Patagônia ou Capão da Canoa.

De lá para cá, usei a bicicleta para alcançar muitos lugares, uns mais distantes que outros mas sempre foi uma experiência única e que me marcou profundamente. O tempo passou mas esse romantismo incrustado em usar seus próprios meios para viajar de um lugar a outro não morreu. Porém tenho descoberto que além da satisfação no deslocamento ponto A – ponto B usando a bicicleta, existe algo em pedalar por horas a fio que é por si só meditativo, simplificador. E isso também é uma recompensa em buscar longas distâncias, quer seja pedalando, correndo ou mesmo caminhando.

Com essa ideia na cabeça, reavivei a minha antiga vontade de fazer uma prova de Audax. Pra quem não sabe, Audax “é o nome dado no Brasil a um evento ciclístico não-competitivo e de longa distância, conhecido internacionalmente pelo nome de Randonneur¹ . Já faz tempo que vou guardando essa vontade em algum cantinho, junto com todos os planos e metas que ficam para depois, que eu gostaria de fazer mas não faço. No caso do Audax, sempre acabei não me comprometendo, achando muito complexo todos os equipamentos obrigatórios ou inventando outras tantas desculpas. Muitas vezes eu dizia pra mim mesmo que seria bem mais simples sair e fazer desafios de longa distância autoimpostos, autônomos, mas nem isso levei adiante. Ás vezes é bobo como pequenas coisas podem mudar uma atitude que levamos há um tempo, bastou alguns documentários na ordem certa (como o Ride The Divide, por exemplo) juntamente com uma conversa com um amigo que recém tinha feito um Audax 300 para me convencer à me comprometer em fazer um o quanto antes.

Busquei no calendário de provas brasileiras no site Randonneurs Brasil e me inscrevi no próximo Audax 200 disponível, uma prova noturna com chegada ao topo, no interior do Rio Grande do Sul, no município de Teutônia. A prova de 200 quilômetros é a entrada oficial para os Audax e a partir dessa, as distâncias são 300, 400, 600, 1000, 1200 e 1400.

Depois de inscrito foi uma questão de organização, consegui os equipos obrigatórios que eu não tinha emprestados, encomendei duas bolsas para levar minha alimentação com o querido Gabé da Eleven Bags e meu pai ofereceu uma providencial carona de ida e volta até Teutônia.

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Na largada tive vários problemas técnicos. O Strava não achava sinal de GPS e o ciclo-computador não tava marcando nada. Sem qualquer um dos dois eu me virava, mas sem os dois ficava muito difícil de eu controlar minha média e ir cuidando minha estratégia de prova. Dei play no Strava assim mesmo, em geral ele dá um jeito na questão do sinal no meio do ride. A prova largou à margem de um lago artificial, no topo de um morro em Teutônia, e deveríamos dar a volta nesse lago para separar o grupo antes da descida brutal que se seguia. Ao final da volta resolvi parar e consertar o ciclo-computador, por mais que ficar pra trás já na largada era emocionalmente devastado, não era uma prova competitiva e o ciclo-computador ia fazer muita falta. Com um pouco de paciência, ajustei o ímã e consegui leitura das tão importantes velocidade média, quilometragem e tempo. Nesse momento eu nem imaginava que o Strava não gravaria nada no percurso todo.

Segui caminho e iniciei de fato a prova, ainda era dia e fui descendo com cautela a ladeira absurda que no fim da prova todos subiríamos. Depois dos quase oito quilômetros de descida que passaram num piscar, o trajeto seguiu por essas estradas menores, rurais com subidas leves e asfalto bom. Fui passando diversos grupos até achar uns pelotões com velocidade parecida com a minha, tentei me acomodar ali porque estava inseguro com as muitas bifurcações e conversões. Quase todxs pareciam ser da região e conhecer bem tudo a nossa volta.

Com pouco mais de uma hora cheguei no primeiro PC, onde devemos carimbar nossos “passaportes” e podemos recarregar nossas garrafas e comer algumas frutas que a organização oferece. Comi umas quatro bananas apesar de ter comido uma barra de frutas secas com cerca de 40 minutos de prova. Enchi as garrafas e segui, muita gente opta por fazer pequenas (ou longas) pausas nos PCs, mas eu começo a ficar preguiçoso se não estou em movimento.

Voltei pela mesma estrada até um ponto, vendo os grupos que iam em direção ao primeiro PC, em determinado ponto segui reto e encontrei um novo grupo com velocidade semelhante a minha para seguir. A noite começava a chegar e ligamos nossas luzes enquanto passávamos por uma região mais urbanizada onde as pessoas curtiam o sábado. O tempo foi passando e chegamos ao segundo PC, onde havia além das frutas e água, uma lancheria onde muitxs estavam parando para comer algo mais consistente. Comi mais umas quatro ou cinco bananas e uma maçã sem desmontar da bicicleta, carimbei meu passaporte e reenchi as caramanholas.

Quando vi, um grupo de cinco ciclistas montou nas bicicletas e voltou à estrada, resolvi segui-los. Não eram muitxs saindo em função da parada pra janta, então não podia ser muito picky. No fim foi uma boa escolha e acabei seguindo esse grupo por quase todo o percurso. Eu era um pouco mais rápido nas subidas, mas eles ganhavam distância nas descidas porque tinham faróis muito melhores e podiam enxergar mais do que apenas cinco metros à frente deles. Minha iluminação precária me prejudicou bastante num trecho em que pedalamos em uma estrada duplicada e muito movimentada porque o acostamento era extremamente sujo com pedaços de pneus e todo o tipo de lataria que eu só enxergava no último segundo. Por sorte esse trecho não foi longo.

O trajeto ia serpenteando por aquela região por onde eu nunca tinha estado antes. Fiquei imaginado como teria sido pedalar por ali durante o dia, mas sem perder a certeza de que a noite estava sendo muito mais agradável e misteriosa. Numa das estradas mais bonitas que pegamos a lua finalmente saiu de trás das nuvens e iluminou o sobe e desce sútil do asfalto. Passamos por um casamento nessa mesma estrada e imagino que nos estranharam tanto quanto eu estranhei elxs e seus hábitos “normais”.

Algo que me surpreendeu muito e me marcou foi que durante todo o percurso o ar estava saturado do cheiro de urina e fezes de galinhas e porcos. Raros foram os momentos em que senti o aroma do campo, aquele que temos em memórias de infância. Parece que estou pensando no meu conforto quando falo isso, mas o choque não é em função do cheiro, mas por deixar sentir, por evidenciar o massacre industrial de milhares de animais que acontece ali. Toda a região está tomada de criações intensivas de animais para serem assassinados e transformados produtos.

Todos esses gatilhos me fizeram não perceber, mas a meta inicial de 66,6km (um terço de prova, coincidentemente) tinha passado fácil e eu já batia 120km sem muitos sinais de cansaço. A estratégia de alimentação e poucas pausas estava dando certo… Comecei a me entendiar e ouvi um pouco de música para me motivar no último terço. Nessa altura me preocupava apenas com a subida final, o grande desafio dessa prova.

Nos últimos quilômetros antes da subida um grupo grande pedalava junto, talvez por estarmos chegando no final o ritmo geral estava se equilibrando. Saímos da estrada maior e entramos no caminho rural que levava a chegada, no pé do morro um PA – posto de alimentação – oferecia salada de frutas estupidamente gelada. Fiquei na dúvida se comia ou não, afinal subir lomba de barriga cheia não tá com nada. Acabei comendo, mas jogando fora os milhões de cubos de gelo, era umas 3h00 da manhã e não fazia muito calor. A ansiedade no PA era palpável, e só relembrar agora já me deixa com um nó no estomago. Como nas outras paradas, resolvi não me demorar, ainda mais faltando tão pouco. Quando uns dois ou três que estavam ali há um tempo saíram focados eu montei na bicicleta e os segui.

Uma curva depois e os oito quilômetros mais lentos do mundo começaram, cada metro sendo ganhado diagonalmente, em um zigue-zague sofrido, numa escuridão total que era no fim aliada por não deixar ver o topo e a inclinação abismal. No caminho alguns ciclistas empurrando, outros tentando achar algum sopro de ar restante no pulmão. Essa parte, mais do que todo o resto, era uma batalha individual consigo mesmx. Custou, mas em algum momento eu cheguei, estava de volta ao lago. Fiz uma foto, ganhei uma medalha, me alonguei e me atirei num canto para esperar a meu pai e a carona de volta.

Quem sabe ainda esse ano eu ache tempo e coragem para me aventurar em desafios de 300, 400 e talvez até mais quilômetros. Quem sabe dessa vez eu não engavete essa e outras vontades e projetos por tanto tempo, mas pensando melhor acho que foi no momento certo.

Para uma próxima, preciso de um farol melhor, mais conhecimento da região/trajeto e provavelmente algum tipo de treino.

O que eu ingeri:

4 Barrinhas de Frutas secas
3 Garrafas de MaltoDextrina
5 Garrafas d’Água
12 Bananas
1 Maçã
2 Sanduíches de melado, banana e manteiga de amendoim
1 Copo de Frukito
1 Copo de Salada de Fruta
1 Pacote de Oreo

O que eu levei:

1 Casaco corta vento Solo
1 Cobertor de Emergência – achava que era obrigatório, mas não era. Por sorte levei pois me  manteve aquecido no pós-prova na madrugada fria.
4 Pilhas reservas AA – para a lanterna dianteira. Desnecessárias, não gastei sequer uma.
4 Pilhas reservas AAA – para o farol dianteiro. Desnecessárias também .
Farol Cateye HL-EL135 – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Farol Knog Blinder – carregamento USB, não serve como lanterna principal pelo regulamento por não ser possível levar baterias reservas. Ilumina muito melhor que a Cateye que levei e poupei para os trechos mais complexos.
Lanterna Traseira Qlite – apenas por ser a pilha em função do regulamento.
Lanterna Traseira Knog Blinder – Idem dianteira.
Ciclo-computador simples com fio.
2 Câmaras reservas
Bomba
Canivete Multiferramentas
Espátulas
Kit de Remendos
Dinheiro reserva
Identidade

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Descobrindo que somos iniciantes no Circuito das Cascatas e Montanhas

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Para ler ouvindo:
 Deafheaven - SUNBATHER
 Modest Mouse - The Moon and Antarctica

Fazia um tempo que pesquisava sobre esses roteiros de cicloturismo que vem surgindo nos últimos anos. O Circuito das Cascatas e Montanhas por ser bem próximo de Porto Alegre era um dos que mais chamava a atenção e mais de uma vez tinha pensado em percorrê-lo a pé, ao invés de bicicleta. Quando o João me convidou para ir com ele não precisei pensar muito, de bike não precisaríamos de muitos dias nem de muita logística.

O roteiro é dividido em 4 etapas que é o formato que sugerem que seja feito, iniciando por Rolante, seguindo por Riozinho, Boa Esperança, São Francisco de Paula e retornando pra Rolante. Com uma média de cerca de 35km por etapa e paradas estratégicas para pernoitar nas cidades com infraestrutura. Preferimos fazer o trajeto em menos dias e de forma autônoma, levando nossa própria comida e acampando onde fosse possível. Dividimos em 3 etapas de cerca de 50km cada, sem fazer muita questão de decidir exatamente onde pararíamos a cada dia, tornando mais solta a viagem e deixando mais liberdade para mudanças de ideias pelo caminho.

Dia 1 – Porto Alegre

Acordamos cedo e fomos até a rodoviária para pegar o ônibus até Taquara/RS. O ônibus das 07h00 estava lotado e tivemos que aguardar para pegar o das 09h00. Embarcar no ônibus com as bicicletas é sempre uma luta, para piorar a cobradora lembrava de termos embarcado outra vez e ela ter deixado claro que aquela seria a última…  estávamos tentando a sorte, com um pouco de insistência conseguimos e dessa vez sim seria a última 😛

Desembarcamos passando das 10h em Taquara, duas horas mais tarde que o planejado, e prontamente pegamos o asfalto rumo ao inicio do Circuito. No caminho a fome ia começando a corroer nossos pensamentos… o plano inicial era um lanche em algum lugar já bem pra frente do percurso, mas como tudo tinha atrasado optamos por parar num restaurante bem no pórtico de Rolante.

Todos as variações possíveis de carboidratos ingeridas, barriga cheia, sol rasgando a pele e lá vamos nós! Poucos quilômetros adiante entramos de fato no centro de Rolante, a ideia era pegar o manual do Circuito, mas obviamente em cidade pequena tudo fecha nesse horário.

Seguimos então confiando só nos logs que tinhamos baixado e nas placas informativas. O sol estava fritando nossa pele e a sensação de calor no vale de Rolante era altíssima. Me fazia lembrar do documentário que assisti outro dia sobre ultramaratonas no deserto e essa lembrança mantinha minha mente sólida.

Só por volta das 15h algumas nuvens começaram a rolar pelo céu e até trouxeram alguns pingos de chuva. Mal tínhamos começado e já estávamos enfrentando subidas íngremes e com pedras soltas que nos fizeram empurrar as bikes, algo que eu não imaginava que rolaria nesse Circuito que é classificado como de nível iniciante.

Mas já que tem montanhas tem que ter cascatas! A primeira do Circuito é a da Colônia dos Monges, em um terreno da Prefeitura, o acesso é fácil e pudemos chegar com as bicicletas quase até a água. A cascata tem uma queda de cerca de 2 metros de altura, e quando estivemos lá estava com pouca vazão então nos refrescamos direto debaixo da queda! Um banho gelado e forte massageando nossos corpos e refrescando nossas mentes! No terreno tem uma torneira onde aproveitamos para recarregar nossas garrafas e bolsas de hidratação.

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A tarde ia correndo, mais e mais nuvens se acumularam no céu encobrindo totalmente o sol. Já estava chegando a hora de encontrar um lugar para passar a noite. Uma última subida íngreme já debaixo de chuva fina e gelada e encontramos uma bifurcação para uma estrada menor e nessa uma antiga estrada já há muito abandonada onde escolhemos montar nosso acampamento.

Fizemos um reconhecimento do terreno, a chuva deu uma trégua e enquanto o João armava a barraca, eu estendia o saco de bivaque, depois iniciamos a janta. Cardápio de hoje: Massa instantânea com Feijão Carioquinha Orgânico pré pronto, batata palha, azeite de oliva e pimenta, bastante pimenta.

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Dia 2 – Em algum lugar no interior de Riozinho

Não foi a melhor das noites, mesmo para mim que já não durmo muito bem nem na cidade. Primeiro foi o calor dentro do saco de bivaque, depois o isolante inflável furado, então a chuva. Cansado de tentar, olhei para o relógio torcendo para que já fosse hora de acordar: 23h40. Vou ter que tentar dormir “um pouco mais” … por incrível que pareça a chuva foi a solução porque ajudou a baixar a temperatura e consegui voltar pro bivaque. Dormi, uma sucessão de cochilos e tive todos os sonhos possíveis e imagináveis, mas ainda assim dormi. As 06h eu finalmente estava farto da batalha e me pus de pé.

Logo João também despertou e começamos a organizar as coisas e tomar nosso café da manhã: Aveia hidratada com passas diversas, farinha de amendoim, chia e açúcar mascavo. Terminamos de empacotar e deixamos nosso lar inclinado na mata antes das 08h00.

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Nem bem saímos e começamos a subir… o dia estava mais fresco e volta e meia garoava levemente. Poucos quilômetros depois uma placa informava que a estrada por onde devíamos seguir estava interditada. Tudo indicava que o caminho era esse e chegamos a conclusão de que a interdição fosse apenas para carros e caminhões, já que as placas não levam muito em consideração as pessoas em bicicletas. Seguimos e a estrada foi virando duas trilhas lado a lado, o mato tomando conta no meio e as pedras rolando como bem entendem sem serem compactadas pelas toneladas de aço. O nível técnico dessa parte do percurso era altíssimo, ao menos para bicicletas de cross carregadas com equipamentos de camping e comida para três dias… íamos descendo e rindo disso todo o tempo… se isso era para iniciantes, imagina o que seria para experientes?!

Seguíamos descendo por esta trilha pedregosa e cheia de curvas, me fazendo pensar o porque de subir tanto para depois descer tudo e ter que subir outra vez! Enquanto minha mente se distraia voei e só me dei por mim no chão, estirado debaixo da bike! Tudo doía e eu nem bem tinha força de tirar a bicicleta carregada de cima de mim. João veio me ajudar e fiquei ali contemplando meus esfolados e avaliando se tinha algum ferimento grave; tudo muito dolorido e esfolado e começando a inchar, mas nada grave a principio. Tentando descobrir o porque da queda percebemos que com a trepidação intensa da descida irregular um dos pneus reservas que eu levava saiu do lugar e entrou na roda dianteira me ejetando da bicicleta!  :/ Depois de uma dessas a pouca confiança que eu tinha na minha destreza em guiar minha bike por aquele terreno ficou bem balançada e a ideia de desistir começou a passar pela minha cabeça.

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Mais umas curvas – e um trecho de trilha que somente pilotos de downhill em bicicletas fullsuspension poderiam encarar – e chegamos na segunda cascata do Circuito: a Cascata do Chuvisqueiro. Já caia uma chuva fina e fria à essas alturas, mas uma coisa que aprendi é “sempre mergulhe quando a oportunidade aparecer”. A Cascata do Chuvisqueiro é linda e gigantesca com 78 metros de altura, uma piscina ampla e de fácil acesso, o terreno é particular e conta com área de camping, parece que o acesso é cobrado, mas nós não pagamos nada, talvez em função da chuva não tinha movimento por lá. Daria facilmente para passar o dia inteiro por lá… mas precisávamos seguir.

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Pouco adiante é a entrada para a terceira cascata, a das Três Quedas. Essa optamos por não ir para não nos atrasarmos. Falta informação muitas vezes de quão longe as Cascatas estão da estrada principal e qual a condição da estrada, para ficar mais fácil de avaliar o tempo que vai tomar. Como nossa intenção era em fazer o Circuito em 3 dias, tínhamos que manter certo ritmo.

Logo em seguida chegamos em Mascarada, uma pequena vila onde pegamos uma bifurcação para a Cascata das Andorinhas. A partir da bifurcação andamos uns 2 quilômetros por uma estrada bem embarrada que aos poucos se tornou uma trilha e por fim o caminho era pelo próprio leito do rio por cerca de 200 metros, tudo com a bicicleta cheia de tralhas nas costas. Finalmente avistamos a gruta curvada em S, como que um mini cânion que esconde a cascata das Andorinhas. Um lugar realmente único e muito bonito, como nada que eu tinha visto antes.

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Voltamos pelo mesmo caminho, parando no cemitério para repor nossa água, passando novamente por Mascarada e já quase chegando em Boa Esperança encontramos uma sombra debaixo de dois grandes plátanos para fazer uma pausa para o almoço: Polenta cozida direto no molho vermelho e massa instantânea com seleta de legumes. Tiramos um tempo para uma soneca também, seria bom se esconder um pouco do sol que voltara a dar as caras e também já tínhamos completado 25km, metade da meta do dia.

Não tínhamos noção, mas nossa pausa do almoço foi justamente antes do inicio da subida da serra, a tão temida 3ª Etapa do circuito que nós resolvemos juntar no segundo dia. Em menos de 10km subimos quase 500 metros, chegando a 980 metros acima do nível do mar! Foi menos íngreme do que algumas subidas que enfrentamos no dia anterior, mas foi constante e cada curva escondia mais e mais subidas. Rapidamente a paisagem foi mudando de plantações de milho e eucalipto para plantações de pinus e volta e meia umas matas de araucárias resistindo a expansão humana. Nas beiradas da estradinha de chão agora tinham hortênsias, naturais da China e do Japão, mas que estranhamente viraram sinônimo de Serra no Rio Grande do Sul.

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Quando chegamos de fato ao topo, a estrada de chão tomou grandes proporções e tinha largura suficiente para dois caminhões grandes lado a lado e não demorou para que a gente começasse a notar esse fluxo. Caminhões carregados de toras passavam volta e meia e me fizeram lembrar daqueles vídeos que mostram a construção da Transamazônica… claro, em escala um tanto menor.

Começou a chover fino e tivemos nosso primeiro pneu furado. Não consegui trocar sozinho porque meu polegar esquerdo tinha inchado muito, nesses momentos percebemos como os polegares são importantes. Com o trabalho em equipe a troca foi super ágil apesar do pneu largo não casar bem com o aro de bicicleta de estrada. Eram já umas 16h00 e começávamos a cansar e olhar para os lados da estrada buscando um esconderijo para a noite. Plantações e mais plantações de pinus e no fundinho eu me sentia meio que ludibriado por toda a propaganda que tinha sido feita sobre o trecho dos campos de cima da serra… onde eles estavam? Só o que eu via era o impacto da indústria da celulose e as árvores em linha, geometricamente plantadas por máquinas, onde nada mais vive.  Seguíamos tocando, no plano desenvolvíamos facilmente até que a chuva apertou muito e trovões começaram a soar. Paramos para pegar água na única construção em muito tempo, a sede da empresa de celulose. Aproveitamos para nos abrigar da chuva grossa e pegamos algumas dicas de alojamento em São Francisco de Paula, caso não desse certo o plano de ficar pela mata.

Água reabastecida, dicas anotadas e tempestade mais calma. Nos encasacamos e seguimos. Eu estava tão gelado e cansado que começava a achar que um hotelzinho barato em São Francisco de Paula seria uma boa pedida, não falamos sobre isso, só pedalamos e quando vimos estávamos na cidade. Paramos no Hotel barato que tinham nos indicado mas o valor era alto demais e não oferecia nada… resolvemos pedalar pela cidade em busca de alternativas. Acabamos no Corpo de Bombeiros, pedi alguma sugestão de lugar para acampar e obviamente nos ofereceram para ficar por ali mesmo.

Nos acomodamos atrás das viaturas, vestimos roupas secas e cozinhamos polenta com lentilha e seleta de legumes.

Dia 3 – São Francisco de Paula

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Quem poderia reclamar, foi uma noite seca e gratuita… mas ainda assim foi conturbada. Bombeiros para lá e para cá, lampadas fluorecentes potentes ligadas e chão muito mais duro que na mata. Mas teria sido muito mais miserável qualquer outra opção já que boa parte de nossas coisas estavam molhadas.

Levantamos um pouco mais tarde e nos enrolamos para sair. A chuva que caiu à noite toda seguia forte. A etapa de hoje era principalmente de descidas e apenas uns 40km.

Sair na chuva nunca é fácil, algo que aprendemos desde cedo é não pegar chuva, do contrário você morrerá de uma gripe terrível! Mas muita gente vive pegando chuva e está vivinha, incluindo a gente 🙂

Nos encasacamos, agradecemos os bombeiros de plantão e pegamos a estrada. O dia de hoje prometia ser mais fácil em função de ser principalmente em declive, mas eu tava com receio dessa multitude de descidas molhadas, escorregadias e íngremes, nesse momento preferiria fazer força subindo.

Saindo do centro de São Chico chegamos ao Lago São Bernardo que é ponto turístico da cidade. A chuva fina e a neblina deixavam tudo com um ar ainda mais tipico. Paramos para uma foto e duas quadras mais além chegávamos de volta à estrada de chão. A partir daí descemos todo o tempo, volta e meia não tínhamos escolha senão parar um pouco e dar uma folga para nossas mãos e pastilhas de freio.
Boa parte da estrada não era tão técnica como em alguns dos trechos dos dias anteriores, mas o barro não ajudava muito na tração.

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Em uma bifurcação acabamos errando o caminho e só percebemos muito pra frente o que nos fez optar por seguir por essa estrada que no fim era paralela à oficial. Chegamos por volta do meio dia e meio na RS-239 bem na altura do mesmo restaurante onde almoçamos no primeiro dia. Obviamente estávamos cansados, encharcados e com fome então resolvemos parar para o almoço.

Durante o almoço desistimos de ir pedalando de volta para Porto Alegre, as minhas marchas não trocavam mais em função do barro, não tínhamos mais freio e já estava ficando tarde para cobrir a distância toda. Optamos por pedalar até Taquara e tentar a sorte de pôr as bikes no ônibus para PoA.

Voltar pro asfalto não era algo pelo qual eu estava ansioso, depois veio a rodoviária, o ônibus e as grandes cidades que fazer parte da região metropolitana de Porto Alegre, a grande mancha cinza que encobre o mapa. Nunca é uma transição fácil e essa ainda tinha gosto de final de férias e volta à rotina.

Vou sentir falta de ter várias cascatas no meio dos meus trajetos.

O que eu levei:

Cozinha:
Fogareiro à Álcool
Panela tipo marmita de R$1,99
Pote Plástico (para auxiliar na “cozinha”)
Faca Opinel Nº 09
Spork LightMyFire

Ferramentas:
Canivete de Ferramentas EMT Sport SPZ
Bomba Airace
02 câmaras reservas 700x40c
02 pneus reservas 700x32c
02 câmaras reservas 700x32c
Chain Tool Topeak

Roupas:
02 camisas de linho mangas longa
01 camiseta sintética manga curta
01 camiseta polar manga longa
01 cueca para dormir
Calção de corrida (pra banho)
Bretele
Par de luvas de ciclismo com dedos
Toalha de linho UL
02 pares de meias
Bandana
Jaqueta Impermeável

Abrigo:
Saco de Bivaque Rab Storm Bivvy
Saco de Dormir Deuter Dream Light 500
Isolante Inflável Mammut CMP SlideStop

Packs
Mochila de Hidratação 2L+10L Curtlo X-Skin
Bolsa de Guidom Tour de France Impermeável
Saco estanque 12L Silva
Saco estanque 5L Sea to Summit

 

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Encarando estradas de chão só pelo pernoite a.k.a Inventando desculpa pra testar o saco de bivak

Assim, de uma hora pra outra, resolvi pegar a bici, juntar o que eu tinha de equipamentos em mãos e ir. Não é de agora que estou buscando estradinhas aqui perto de Porto Alegre para me perder, pedalar sem o estresse dos carros, curtir uma paisagem bucólica e, quem sabe, passar a  noite sob as estrelas. Tinha algumas rotas em especial arquivadas nas gavetas virtuais do mundo… só esperando o momento certo.

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