Encarando estradas de chão só pelo pernoite a.k.a Inventando desculpa pra testar o saco de bivak

Assim, de uma hora pra outra, resolvi pegar a bici, juntar o que eu tinha de equipamentos em mãos e ir. Não é de agora que estou buscando estradinhas aqui perto de Porto Alegre para me perder, pedalar sem o estresse dos carros, curtir uma paisagem bucólica e, quem sabe, passar a  noite sob as estrelas. Tinha algumas rotas em especial arquivadas nas gavetas virtuais do mundo… só esperando o momento certo.

Eu tinha a desculpa de ainda não ter experimentado meu novo saco de dormir e, principalmente, o saco de bivac (bivak, bivouac, bivvy, etc.) que comprei. Era o final da manhã de um domingo, decidi que apesar de eu não ter tudo que precisava em mãos, todos os equipamentos ideais, era uma boa partir assim espontaneamente, com o que se tem. Em poucas horas organizei a rota, a mochila e parti. De casa até o centro, do centro o catamarã até Guaíba e de lá até a zona rural.

Dia 1

No início me arrependi, a preguiça de domingo à tarde contagia mesmo eu estando de folga na segunda, o ritmo do mundo é meio deprê e incentiva cada umx a ir se esconder nas suas casas, com suas pessoas queridas… e eu fazendo o contrário. Mas o que é um dia da semana? Somos maiores que isso e todo o dia é dia! O centro da cidade de Guaíba estava fantasma, e o de Porto Alegre antes disso também. Passei pelas ruas quase sem notar qual delas era mão e qual não, fui me guiando apenas pelas anotações em meu braço até chegar numa estrada onde começava o tracklog. Em poucos quilômetros eu entrei na estrada de chão,  a quantidade de lixo e o cheiro de carniça não me acolheram muito bem, mas segui. A bicicleta aguentando bem, e o terreno bem firme apesar da chuvarada do dia anterior me deixaram mais confiante. Não tenho uma mountain-bike com suspensão, uma bicicleta pronta para qualquer terreno. A bicicleta que tenho e mais uma bicicleta de estrada adaptada de forma a encarar um pouco de fora de estrada. Com os pneus apropriados até que poderia ser ainda mais capaz, mas só o que eu tinha eram uns Gatorskins 700x32c que são lisos e feitos para a estrada apenas.

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A paisagem foi se transformando, as montanhas de lixo desapareceram depois de uma ou duas subidas, as colinas cobertas de pasto ou plantações de árvores para celulose não são a vista mais sublime que alguém pode esperar, mas o silêncio, a amplitude e o ar melhor já estavam me fazendo um bem enorme. Logo em seguida um grande lago sem nome que eu não antecipava me brindou com uma bela vista, o sol fez a cor dele ficar super azul e se não fosse a cerca em toda a volta seria bem bom um mergulho ali.

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Pedalei uns 30 quilômetros e o sol começou a baixar, rapidamente subiu um frio do mato e eu sabia que antes de escurecer totalmente eu precisava achar um local para acampar. Segui pedalando, agora mais rápido, buscando um bosque ou mata onde eu pudesse passar a noite despercebido. Campos e mais campos até onde a vista alcança, depois um vilarejo agrícola, e então florestas insólitas de eucaliptos com suas árvores igualmente espaçadas. Começa a bater um pequeno desespero e por um momento pensei em pedalar a outra metade do caminho que faltava e voltar pro conforto do lar. Loucura! Tenho que buscar mais. O sol descendo rápido e eu não podia ser muito picky, numa curva uma pastagem descia e aos poucos ganhava árvores pequenas que formavam um bosquezinho. É aqui, passei a bicicleta por cima da cerca e depois fui eu, desci pedalando a pastagem e vi há tempo uma cerca baixa eletrificada, das que são feitas pra manter os animais longe, pulei essa também e mais alguns passos eu estava dentro do bosque. Escondi a bicicleta e dei uma volta no lugar, era aqui mesmo. O único defeito eram as poças dentro do pequeno bosque que com certeza eram lar de milhares de mosquitos.

Sobre o Saco de Bivac

É um Rab Storm Bivvy, de tecido respirável e impermeável, feito de tecido leve e resistente (70D Hyperlite Storm) pesa 485gr. É o primeiro bivac que já usei e até mesmo vi, então não tenho muitas referências. De qualquer forma, existem basicamente dois tipos de bivacs, os que são como uma “jaqueta” impermeável para o saco de dormir e outros que são mais como uma barraca miniaturizada, com varetas para dar estrutura e estacas para prender no chão. A vantagens dos primeiros em relação aos últimos é principalmente o peso e o volume, sendo que os segundos chegam a pesar tanto quanto barracas para 2 pessoas me fazendo não entender muito bem sua real utilidade.

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O Storm Bivvy se encaixa na categoria, leve, sem estrutura, sendo apenas um saco em formato de um sarcófago, com fechamento por zíper e velcro fornecendo proteção  impermeável para o saco de dormir e seu ocupante.  Comprei pensando principalmente em viagens de cicloturismo, já que minha barraca depende de bastões de caminhada que não tem sentido levar quando estou de bicicleta. Sacos de bivac não são comuns aqui no Brasil e não é muito fácil encontrá-los para venda, achei este em um classificado, com pouco uso e bom preço.

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Era minha primeira incursão no mundo do bivac, oh boy was I ansious! Tirei do saco estanque em que ele vem e desenrolei no estreito chão do bosque fechado que eu achei para me esconder. Por o isolante de EVA dentro foi uma luta, com um inflável seria muito mais fácil, mas acho que mesmo com o de EVA pega-se a prática. Pus o saco de dormir pra dentro também para deixar ele recuperar volume enquanto eu comia a janta que trouxe preparada. Não tinha muito o que fazer no escuro então logo que acabei de comer me deitei para tentar dormir. Lutei bastante para me encaixar dentro de ambos os sacos, a abertura do saco de bivac poderia ser maior sem dúvida. Uma vez lá dentro, fechei os zíperes todos, os velcros se fecharam sobre os zíperes automaticamente e a sensação de claustrofobia não veio como eu esperava, pelo contrário, me senti seguro enclausurado ali. O único problema era que eu não estava nem com sono nem cansado, o pedal do dia tinha sido fácil e era super cedo ainda.  Fiquei ali deitadinho, acho que cochilei algumas vezes, daí comecei a passar bastante calor e a ter dificuldade em respirar o ar quente de dentro do bivac, abri um pouco o zíper do saco de dormir e do bivac e enfiei o nariz pra fora. Mais alguns cochilos, e o nariz teimava em voltar pra dentro do bivac… abri todo o zíper e dobrei o bivac deixando cabeça e parte do tronco de fora. Agora sim, a temperatura ideal… mas e os mosquitos? Acho que nunca tinham visto um bivac também.

Dia 2

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Acordei finalmente às 5h00, o despertador programado pras 5h30 então fiquei um pouco admirando o céu ainda bem estrelado. Acabei cochilando e acordando com o alarme tocando. Agora sim. Não tinha mais muita água e a sede estava grande, tomei uns goles da caramanhola de 500ml que já estava pela metade. A aveia que tinha planejado pro café da manhã precisava hidratar então foi substituída por alguns wafflles que tinham sobrado da noite anterior. Ainda no escuro empacotei todas as coisas em seus saquinhos e na mochila, e fico orgulhoso de dizer que não esqueci nada e a mochila ficou melhor ordenada que no dia anterior. Ainda estava escuro e eu estava totalmente pronto, fiquei em silêncio e esperei mais alguns minutos, nossa! fazia frio. Fiquei na roupa de dormir e guardei as mangas curtas na mochila. Pouco depois das 06h00 e eu estava de volta à estrada de chão, o céu começava a ter alguns tons mais azulados, mas o sol viria só em meia hora. Minha lanterna dianteira iluminou o suficiente o caminho, mas quase tomei alguns tombos em partes com mais velocidade… não tenho nenhuma experiência em estradas de chão, ainda mais no escuro! Foi rápido, dos menos de 30km que eu tinha por fazer nesse dia, pouco era ainda nessa estrada rural, o resto era na BR-116 e lá fui eu pro caos da segunda-feira – de novo o ritmo do mundo vem e te dá um tapa na cara.

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Usando
  • Camiseta de ciclismo manga-curta – Pedal Express
  • Bermuda de spandex sem forro – Puma
  • Boné de ciclismo – Labuena Pedal Express
  • Óculos de sol
  • Mochila Marmot Kompressor 18l
  • Par de meias
  • Sapatilha – Specialized Rime
  • Capacete – Giro Saros
  • Bandana preta – de estimação
Abrigo
  • Saco de bivac – Rab Storm Bivvy
  • Saco de dormir – Quechua UL 0º
  • Isolante de EVA
  • Camiseta polar manga comprida –  Forclaz – para dormir e usar quando parasse de pedalar
  • Calça térmica de compressão – Lupo – também para dormir, mas passei calor e foi mais útil na pedalada logo cedo do que para dormir de fato
  • Touca acrílica simples – para dormir
  • Jaqueta impermeável – Patagonia Torrentshell
Ferramentas
  • Bomba de ar – Giant
  • Par de espátulas de pneu – Super B
  • Duas câmaras reservas
  • Jogo de ferramentas de bolso – Sigma
  • Conjunto de remendos – Vipal
Faltou
  • Mosquiteiro – dentro do saco de bivac estava muito quente e fora dele fui comido pelos mosquitos.
  • Carregar farol dianteiro – no segundo dia comecei a pedalar antes do sol nascer, logo que saí minha luz dianteira (uma knog blinder USB) acendeu o aviso de falta de carga. No fim a bateria aguentou até o sol sair, mas da próxima é bom lembrar de levar com carga total.
  • Luvas – Nas primeiras horas da manhã minhas mãos ficaram congelando e perdi bastante mobilidade e controle da bicicleta. Não valeu a economia de peso.
  • Água – Levei uma caramanhola de 500ml, um frasco de Gatorade de 500ml e uma pet de 1,5l que enchi pouco antes de entrar na trilha. Menos de 3km de trilha e a garrafa rompeu com a trepidação… demorei pra perceber o vazamento e perdi mais da metade da água. Não achei nenhum ponto para repor a água, acabei racionando e com bastante dor de cabeça em função da desidratação. Na próxima levar a bexiga de hidratação e/ou outra caramanhola.

Trilha no Wikiloc
Trilha no Strava

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3 pensamentos sobre “Encarando estradas de chão só pelo pernoite a.k.a Inventando desculpa pra testar o saco de bivak

  1. Muito tri! Esse “canto” ali entre a 116 e a 290 tem muita coisa interessante, quanto mais pra dentro melhor. Como minha mãe mora em São Lourenço do Sul, seguido invento algum caminho louco ali pra dentro. Sugiro, quando tu puder, dar uma passada nos municícipios de Mariana Pimentel / Sertão Santana / Barão do Triunfo / Cerro Grande do Sul, e se tiver muito inspirado, Dom Feliciano, Encruzilhada do Sul e Amaral Ferrador. Tem MUITA paz e tranquilidade por lá, as estradas são geralmente compatíveis com ciclo-cross, e as variações de roteiro são infinitas!

    • Valeu pelas dicas Helton, vou passar por lá sem dúvida! Não foi fácil mesmo de CX mas principalmente em função da carga… ir sem nada seria um luxo 🙂 Valeu por passar pelo blog!

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