Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 2

Em Março de 2015 embarquei numa jornada com mais quatro amigos para a Patagônia Chilena. Um sonho de infância se tornou realidade meio que sem querer… meio que de última hora. Vendi o que pude, me endividei, comprei equipamentos de segunda-mão e peguei algumas coisas emprestadas.
#clipouefoi
Todas as fotos por Suryan Cury, exceto quanto citado.

Continuação. Essa é a segunda parte. Leia a primeira aqui.

24 de março – Dia 8 – Campamento Serón

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Mais um dia épico. Caminhamos das 6h30 da manhã até as 16h! Do acampamento torres até o Mirante Las Torres para o nascer do sol, dali voltamos ao camping, pegamos nossas coisas e rumamos até o acampamento Chileno. Lá pegamos ainda mais coisas, comida e roupas que deixamos para fazer a trilha de subida um pouco mais leves. Refizemos a divisão das comidas e do peso e organizamos as mochilas antes de descer pelo vale até o Hotel Las Torres onde paramos para o almoço. Comemos uma sopa rápida, engrossada com purê de batatas em pó.

Resolvi comprar no quiosque em frente ao hotel – uma das poucas opções no Parque – uns lanches diferentes porque meu estômago já tava saturado de tanto snack fibroso e natural. Está aí um aprendizado importante, nessas atividades de esforço constante e muito gasto calórico, o corpo pede alimentos de fácil digestão… nozes, amêndoas, castanhas e frutas secas são essenciais mas muito complexas para se ter como única opção.

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Mochila cheia de bolachas recheadas e água-e-sal que custaram mais que ouro, seguimos com sol a pino pela pior trilha até o momento. Foi um choque sair do single-track e agora dividir estradas de chão batido com camionetes, ônibus e patrolas. Logo deixamos a estrada e voltamos à trilha, agora dentro de uma fazenda… costeando uma cerca, lembrou o interior do Rio Grande do Sul… deu saudade das paisagens dos dias anteriores.

O dia hoje foi cheio de marcos. Saímos do “W”, completamos mais da metade do percurso total e chegamos ao quinto dia de trilha. Agora é como se não houvesse mais volta, a partir de agora cada passo dado é um passo a mais em direção à parte mais selvagem do Parque. Dá-lhe!

Jantamos massa com molho de tomate e cebola fresca! Coletamos a cebola e algumas batatas na cozinha coletiva do Campamento Chileno, onde muita gente deixa comidas que estão sobrando. Fazia tempo que não tinhamos algo fresco no cardápio, pena que nosso fogão principal estragou e o reserva, por ser pequeno demais e projetar a chama apenas no meio da panela, queimou a janta. O gosto de teflon queimado grudou na massa e foi a janta mais repugnante que se pode imaginar.

Agora estamos aqui no acampamento Serón, esperando a água ferver para o chá e comendo halawi. Percebo o quão puxado foi o dia de hoje quando lembro que as únicas coisas que me passavam pela cabeça eram as lembranças dos confortos da cidade.

25 de março – Dia 9 – Campamento Los Perros

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Mais épico que nunca. O plano inicial já era desafiador, caminhar até o Refúgio Dickson, porém no meio do caminho o boato era de que o tempo iria mudar e a chuva viria em dois dias. No plano inicial, em dois dias estaríamos cruzando o Paso John Gardner, a trilha mais desafiadora e exposta. Muitas vezes, com muito mau tempo, a trilha é fechada pelos guarda-parques o que significaria perder nossos voos de retorno ao Brasil.  Decidimos acelerar o passo e “comer” um dia.

Tocamos das 8h às 19h30, 30km de caminhada com bastante elevação acumulada e poucas pausas. Um massacre! Palito começou a ter muitas dores nos pés por causa da bota e resolveu caminhar de havaianas, Suryan também começou a sentir os pés e fez metade do dia nas minhas Crocs.

A primeira metade da trilha, até o Refúgio Dickson, era por uma encosta próxima ao Rio Paine e mais adiante o Lago Dickson que fica ao pé do Glaciar de mesmo nome. Muitas súbidas e descidas íngremes até chegarmos a um campo bastante encharcado. O Refúgio Dickson fica à beira do lago num campo plano e com vista de 360º para o Glaciar e montanhas adjacentes. Queriamos muito ter acampado lá, mas o medo da chuva fez fazermos apenas uma curta parada para um lanche e seguimos em direção a Los Perros.

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A partir daí a trilha era bem distinta, por dentro de um bosque fechado e úmido, sempre acompanhando o Rio Los Perros que corre num vale bem escarpado. Esses bosques me lembraram muitos os do sul da Alemanha e norte da Suíça. Ao final da descida chegamos à cordilheira, as costas do Valle del Francés, onde estivemos há uns dias atrás. Em parte da montanha forma-se um glaciar também chamado Los Perros e água do degelo forma um pequeno lago cinza, escondido num barranco íngreme e pedregoso. O resto do time parou para um mergulho nas águas do glaciar, pra mim era demais, me sentia exausto, com frio e com a garganta ainda dolorida. Sentei no topo do barranco e assisti eles mergulharem na água cinza e nadarem com cubos de gelo do tamanho de geladeiras.

Amanhã temos o tão esperado e desafiador Paso del Grey, 1200m de elevação, vento e neve. Depois disso é só tocar para casa.

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26 de março – dia 10 – Campamento El Paso

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Para nossa surpresa, primeiro dia de pouco esforço. Acordamos um pouco mais tarde, por volta das 7h30 e arrumamos nossas coisas com bastante calma. Começamos a trilha por um barranco de grandes pedras soltas, onde há mais fluxo as pedras se assentam e não fica tão difícil de acertar os passos. Suryan fez as pazes com o calçado, já Palito optou por continuar de havainas. Logo voltamos à entrar no bosque, só que esse estava muito encharcado e a caminhada perdeu o ritmo enquanto tentávamos manter os pés secos. O bosque foi ficando ralo e novamente estávamos num descampado de pedras cobertas por musgos, ali começava a correr o rio Los Perros que acompanhamos no dia anterior. A súbida ficava cada vez mais íngreme e o vale mais apertado… à nossa direita outro glaciar e a esquerda podíamos ver a trilha serpentear ao longe pelos rastros dxs outrxs caminhantes.

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Eram pra ser 6h, mas finalizamos em 4h mesmo com várias paradas. O vento e o frio lá em cima foram realmente tensos, nem dá para imaginar como seria em um dia de chuva ou neve. Mas a vista é intensa e vale congelar por uns segundos para ver o gigantesco Glaciar Grey se enrugando sobre o lago. Não menos estonteante é a vista para o bosque por onde subimos.

Chegamos cedo no acampamento e devagar fomos preenchendo o dia. Concordamos que vamos definir os próximos passos em função do clima… a promessa é chuva para amanhã e para os próximos dias. Se a previsão não se concretizar, faremos as coisas mais lentamente, curtindo esses últimos dias de parque… caso chova, aceleramos o passo e voltamos pra cidade.

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27 de março – Dia 11 – Refúgio Paine Grande

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De volta ao Paine Grande. TERMINAMOS O CIRCUITO e com quilômetros a mais! Sensação boa, cansaço mas sensação de missão cumprida. Enquanto bebemos um Gato Negro de caixinha aguardamos o tão esperado grão-de-bico ao curry e leite de coco que o Palito está preparando.

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Hoje foi outro dia tranquilo, apesar dos 18km que caminhamos, o terreno era bom e as mochilas estão muito mais leves. A trilha quase toda acompanhando o lago Grey e o gigante Glaciar. Vento nas costas impulsionando e empurrando. Chegamos a pensar em seguir jornada até a administração e encerrar a aventura hoje, mas como o dia foi lindo e a ameaça de chuva não se concretizou, resolvemos acampar e curtir mais um dia de Parque. Ainda assim estou ansioso para voltar para a cidade, e penso que não sou o único.

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Já aquecidos e alegres do vinho, mergulhamos no lago Pehoe sobre a luz da lua. Agora sim, prontos para encerrar por hoje e dormir.

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29 de março – Dia 13 – Punta Arenas

Mais uma vez hospedados no Hostal Independencia. Agora de barraca. Chegamos ontem, depois de emendarmos o ônibus que pegamos no parque com o que vem de Puerto Natales para cá. Longa jornada no ritmo da chuva que finalmente veio, felizmente, só depois de deixarmos o parque.

Agora é contar as horas até o embarque de volta ao Brasil. Reabastecer as energias e por em prática todos os planos e metas que povoaram minha cabeça em todas essas horas caminhando.

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