Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 1

Em Março de 2015 embarquei numa jornada com mais quatro amigos para a Patagônia Chilena. Um sonho de infância se tornou realidade meio que sem querer… meio que de última hora. Vendi o que pude, me endividei, comprei equipamentos de segunda-mão e peguei algumas coisas emprestadas.
#clipouefoi
Todas as fotos por Suryan Cury, exceto quanto citado.

Minha experiência em trekking era zero, e ao darmos os primeiros passos essa realidade me tomou por inteiro: “Como fui entrar nessa, totalmente inexperiente embarcando logo numa trilha de 10 dias na temida Patagônia!”
De certa forma esses primeiros metros, esse primeiro dia foi de fato o mais difícil de todos os que viriam pela frente. Nossas mochilas ultrapassavam os trinta quilos, a ansiedade era enorme e o terreno plano nos dava pouca proteção contra o vento que rugia. Quilometro à quilometro a paisagem ia tomando conta e enxugando nossos medos.

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“Q” de quilômetros

O Parque Nacional de Torres del Paine, na Patagônia Chilena é um destino muito popular para trekking, então não foi difícil planejar a viagem com as informações e artigos que encontramos na internet, inclusive em português! Passamos as semanas que antecederam nosso embarque, lendo, discutindo e chegando à consensos quanto às muitas variáveis que uma jornada longa como essa pode trazer. O blog A Natureza Humana , por exemplo foi muito útil, recomendo a visita. O itinerário que ela e ele fizeram é bem próximo do que estávamos planejando (e no fim das contas, mais ou menos executamos) e mais do que isso, sentimos uma afinidade na proposta de viagem.

Em Torres del Paine, por se tratar de um roteiro de trilhas que se conectam, existem várias opções de percurso e orientação. A trilha mais popular e mais acessível, o “W”,  conecta os principais pontos em cerca de 4 dias, depois o circuito (também conhecido como “O”) agrega os mesmos pontos mas circunda toda a cordilheira totalizando de 8 a 10 dias. O percurso que optamos é conhecido como “Q”, pelo traçado do trajeto que adiciona um dia de caminhada ao circuito “O” – a perninha do “Q”. No “Q” a caminhada acumula cerca de 150km entrando no parque a pé avistando as cordilheiras o que dá outro senso de dimensão e perspectiva, totalmente recomendo!

17 de Março – Dia 1 – A bordo do voo POA-GIG

A cabeça dói. Os pés incham. Voar não é meu esporte preferido, muito mais radical que encarar um trilha na Patagônia, muito mais assustador que enfrentar o trânsito de Porto Alegre em uma bicicleta. Mas não estou tão assustado, whatever, who cares. Talvez em função da pressão, vazou minha garrafa na bagagem de mão e já começo com meus agasalhos molhados! E nem deixei a civilização 🙂

O sono e o cansaço começam a bater forte. Espero conseguir algumas horas de sono das sete que esperaremos no Galeão. Dormir no avião não é comigo, alguém precisa cuidar se as asas ainda estão no lugar.

wpid-wp-1426657651491.jpegfoto tosca do meu celular 😛

18 de março – Dia 2 – A bordo do voo RJ>SCL

Dormir é algo que há dias não faço. Tentei o “camping” no aeroporto com os guris mas o chão gelado acabou com minha esperança. Maldito ar-condicionado. Agora mais quatro horas de voo até a próxima conexão. Cansaço absurdo e enjoo de comer tantas tranqueiras. Precisava de comida viva. Vamos ver o que vem de opção no café-da-manhã que vem descendo agora o corredor inclinado do avião!

Alguns segundos de cochilo. Me sinto revigorado. Até parece possível viver a vida apenas de Cat Naps.

19 de Março – Dia 3 – Hostal Casa Lili, Puerto Natales, Chile

Escrevo com o resto de forças que ainda me sobra. Dia longuíssimo em busca de mantimentos e equipamentos em Punta Arenas e depois horas de viagem de ônibus até aqui. Principio de resfriado, dói-me a garganta e sinto todo o corpo. O cansaço somado à noite gelada de ontem… e minha cama colada numa janela de vidro simples me pegaram.

Agora pouco fizemos a divisão final das comidas… um pacotão por mochila. Finalmente da pra ver quanto peso vamos carregar e não é nada animador. Comida de verdade, pra dez dias, com um pouco de sobra. As mochilas com cerca de 30kg calculamos por cima.

Muitos opções de equipamentos em Punta Arenas, vale a pena pesquisar e deixar para comprar coisas lá.

Não faz tanto frio hoje, aqui parece menos úmido que Punta Arenas da garoa fina que corta lateral com o forte vento. Amanhã o despertar é cedo para pegarmos o ônibus que nos leva ao parque, estimativa de chegada: por volta das 10h30. Espero estar revigorado.

20 de Março – Dia 4 – Acampamento Refúgio Paine Grande

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Morrendo de frio. Morrendo de rir do perrengue. A vista é imperdível, de um lado o azul Lago Pehoe e do outro o Cerro Paine Grande.

Passamos muito trabalho, essa primeira etapa, quase toda plana e com nenhuma proteção do vento foi cruel ainda mais com as mochilas cheias até a boca.  Começamos a trilha tarde, o ônibus leva muito tempo, parando em vários momentos até chegar na Administração, o fim da linha, onde começamos. Passava do meio-dia quando demos os primeiros passos. No fim o plano de ir até o Campamento Italiano falhou, já foi difícil chegar até o Paine Grande.

21 de Março – Dia 5 – Acampamento Italiano

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É-P-I-C-O. Iniciamos tarde, dormimos dez horas no total… sono claustrofóbico, a barraca (uma minipack pra uma pessoa, que eu dividi com o Suryan) ficou ainda menor compactada pelo vento brutal. Até nos organizarmos e começarmos a caminhada já eram 10h… dia que iniciou cinza e gelado mas logo se tornou perfeito com a temperatura subindo e o sol dando as caras. Até arriscamos o banho no rio gelado que desce do Glaciar Del Francés até o Lago Nordernskjöld.

Largamos nossas coisas no acampamento e partimos com pouco peso para a subida do Valle del Francés. O terreno bem mais íngreme e rochoso do que o que pegamos até então… mas também a vista mais incrível! O vale verde entre os maciços, um coberto de gelo e o outro de pedra aparente! Subimos rápido, loucos para chegar ao mirante, mas ao chegarmos ao topo J.V. que vinha sentindo o joelho já há alguns quilômetros começou a sofrer bastante. Começamos a descida, e a dor dele só piorava no terreno inclinado e resvaladiço. Começamos a ficar tensos e preocupados com a luz solar que começava a acabar. Não restou muita opção a não ser nos revezarmos em carregá-lo lomba abaixo, quando o terreno permitia.

Chegamos de volta ao acampamento e enquanto uns preparavam a janta, JV foi gelar os joelhos no rio e iniciou a tomar anti-inflamatórios na esperança de acordar melhor.

22 de Março – Dia 6 – Campamento Los Cuernos

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Hoje foi o dia de levar o J.V. de volta. Ele não acordou bem e pensando que daqui pra frente o terreno só piora ele optou por desistir. Do acampamento italiano tinha a possibilidade de fazermos a caminhada de volta ao Paine Grande e de lá ele poderia pegar um ferry até onde poderia pegar um ônibus de volta a cidade. Deve ter sido uma decisão dura, não foi fácil pra nós também…

Pegamos a mesma trilha por onde viemos no dia anterior, com mochilas de ataque apenas e acompanhamos o J.V. até o ferry, nos despedimos e retornamos ao acampamento italiano para pegar nossas coisas e aproveitamos para fazer uma pausa para o almoço. O plano inicial que era estender esse dia e alcançar o Campamento Torres foi descartado já que retomamos a caminhada apenas as 16h.

Essa trilha até aqui foi uma das mais lindas até o momento. Costeando o Lago Nordernskjöld e emparedados pelos cuernos, agora de fato estávamos no pé das montanhas. Muitas cachoeiras e uma vegetação que me fazia lembrar das praias de Santa Catarina, ao menos com os mais de 20ºC que fez hoje.

Jantamos arroz japonês com shitake seco. As meias de merino estão quentes demais para o clima e os pés estão sentindo o abafamento, fora isso me sinto super disposto.

23 de março – Dia 7 – Campamento Torres

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Recém cinco da tarde e já estamos com as barracas armadas. Nem por isso nosso dia foi fácil. Cinco horas de caminhada pela manhã com sol forte e muita elevação e mais uma hora pela tarde. Acordamos às 5h00, desmontamos acampamento, comemos o tradicional mingau de aveia depois de descobrir que todas nossas castanhas foram comidas por camundongos e partimos. Trilha bem diferente hoje, gramíneas verde claro poucas árvores e muitos arbustos que parecem fofos ao longe mas na verdade são puro espinho.

Paramos para almoçar no Campamento Chileno, mais um desses campings privados, com certa estrutura e preços não muito convidativos. O camping fica num vale muito estreito e lindíssimo, tivemos bastante tempo para gastar e aproveitamos para tomar uma cerveja que compramos no camping enquanto víamos o enorme fluxo de hikers subindo e descendo a trilha que logo faríamos.

O plano é jantar cedo, dormir cedo e acordar muito cedo. Amanhã desmontamos acampamento, subimos com pouca carga uma trilha de 1km praticamente vertical até Las Torres – o cartão postal de Torres del Paine.

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…Continua na próxima semana!

2 pensamentos sobre “Sendero Austral – Trekking em Torres del Paine – Parte 1

  1. Pingback: Expresso Patagônia: Apresentação – BikeHandling

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