Expedição Charco

Dia 3 – Café Mensageiro da Montanha, Mirante da Serra do Rio do Rastro, Bom Jardim da Serra, Santa Catarina.

Cansadxs, mas nem tanto. Era pra ter sido mais. Era pra eu ter escrito mais, dia-a-dia, e não assim, de trás pra frente, mas as tarefas de acampamento, e o caminhar por si só consumiram todo o meu tempo. Feriadopleno.

Fazem horas que estamos aqui, acampados nas mesas do café. Pulamos da cafeteria para o restaurante e de lá para rua e daí voltamos para um café. Só às 16h nossa carona deve chegar… e só aí iniciaremos nosso retorno a Porto Alegre.

No fim das contas terminamos caminhando muito menos do que a trilha que nos inspirou à vir pra esses lados. Calculávamos pouco menos que 40km mas acabamos percorrendo apenas 22km. Menos mal, parte do grupo já sofreu o bastante. A previsão de que enfrentaríamos charcos não foi em vão… antes mesmo de completar cinco quilômetros nossos pés já estavam encharcados. E assim foi todo o caminho.

Dia 1 – Porto Alegre

Começamos bem atrasadxs… terminamos saindo às 12:00 e não às 6:00 como antes combinamos. Depois de muitas horas de estrada de asfalto e algumas de chão-batido-terrivelmente-esburacado desembarcamos xs nove no inicio da trilha. Já eram oito horas da noite, tempo apenas para montarmos as barracas, cozinhar nossa lentilha e polenta e perceber que furamos o tanque de gasolina em alguma das pedras que acertamos na estrada de chão. Enquanto alguns se recolhiam para suas barracas, outros ficaram coletando a gasolina que escorria até o tanque esvaziar para no outro dia fazer algum tipo de remendo.

Dia 2 – Pé na trilha

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Despertamos antes do sol nascer, mas a equipe grande e diversa fez com que saíssemos bem atrasadxs. Depois de pegarmos algumas instruções com o pessoal da fazenda e da Indiada Buena, iniciamos a trilha entre os pinheirais encharcados de orvalho. Logo chegamos ao cânion das laranjeiras e fizemos nossa primeira parada nessa vista maravilhosa. Depois de conferirmos nosso mapa e bússola, nos orientamos e começamos a trilhar rumo ao sul. Poucos metros pra dentro da borda do cânion e chegamos à um campo encharcado… um a um fomos sucumbindo à água… uns mais e outros menos, agora tínhamos superado a preocupação de molhar os pés.

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A moral do time começou a baixar com a sucessão de charcos e coxilhas, e não melhorou muito quando chegamos no primeiro vara-mato. Esse trecho da trilha era de mata fechada e de difícil transposição, em um aclive íngreme e escorregadio. Os charcos e as áreas de mato fechado diminuíam muito nossa velocidade e eu começava a temer que não cumpriríamos nossa meta de andar mais de 20km no primeiro dia. A partir daí, meio que inconscientemente, começamos a trilhar mais em linha reta e a contornar menos as bordas do cânion. Depois de uma dúzia de charcos fundos e algumas transposições de rios paramos para um almoço rápido. Missô-shiru com macarrão e umas quantas batatas-doce cozidas mais paçoquinha de sobremesa. O fogareiro protegido do vento pela pilha de mochilas e a ansiedade de seguir caminho e não gastar mais tempo que o essencial.

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Assim que comemos retomamos a caminhada e pouco à pouco íamos nos dando conta de que estávamos muito mais adiantados do que imaginávamos, andar em linha reta estava dando resultado. Ainda que isso me tranquilizava, parte de mim temia que pudéssemos estar enganadxs. Parte do grupo se mostrava exausta, ainda faltava mais de uma hora pro sol se por, mais concordamos em parar pra acampar no próximo rio que encontrássemos.  Seguimos uma quina de cânion que entrava bem a dentro do planalto, até o ponto em que conseguimos cruzar, em seguida encontramos um lindo rio em uma encosta, que corria paralelo em direção ao abismo. Ficamos ali por um tempo, apreciando a água, nos hidratando, lavando o suor e enchendo nossas garrafas. Alguns de nós queriam acampar por ali mesmo, mas outros nos sugeriam dormir na borda do cânion mais a frente.  Rapidamente estávamos de mochilas nas costas, varando charcos, brejos, colinas e um vento que começava a incomodar em busca do acampamento com vista.

A vista era incrível mesmo, estranho como paramos tão pouco durante o dia para apreciar essa vastidão toda e agora com a noite caindo tudo ganhava ainda todo um novo aspecto. A escuridão das paredes da montanha descia o vale e dava lugar às luzes que aos poucos iam se enosando em cidades que do alto não pareciam tão ameaçadoras. Mas o lugar era vista apenas, a encosta íngreme não comportava todas as barracas e o vento arriscava nos arremessar ao cânion. O tempo que leva para uma pessoa perceber isso é diferente do tempo que leva um grupo de nove pessoas. Quando vi estávamos ali cozinhando, embrenhados no mato, buscando abrigo do vento e tentando bolar jeitos de dormir por ali mesmo num misto de cansaço e teimosia. Iniciamos a lentilha com polenta e eu tomei a tarefa de reabastecer nossos cantis. Esvaziei a mochila da carga do dia e a enchi de garrafas vazias, me encasaquei e iniciei meu caminho de volta ao rio onde estivemos mais cedo.

O vento era brutal, mas o pôr-do-sol à minha esquerda e o nascer da lua-cheia à direita recompensavam a tarefa. Como eu estava sem carga e sozinho, arrisquei umas corridas no campo vasto… ainda tinha uma energia pra gastar. Quase quebrei os dois joelhos quando caí no brejo e entalei em meio à ossos de alguma vaca que não teve a mesma sorte que eu. Apesar do ligeiro pânico, saí do “barro-movediço” depois de algum esforço.

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Com as garrafas reabastecidas, voltei pro acampamento e levei a noticia de que a menos de 1km o vento rugia muito menos e o terreno era plano. Comemos nossa janta, secamos duas garrafas de vinho e então recolhemos nossas coisas espalhadas pela encosta e, muito à contragosto rumamos cambaleantes até um ponto mais apropriado para passarmos a noite. Armamos às barracas no campo plano e com uma grama alta que nos proporcionou bastante conforto e isolamento térmico. Aqui o vento era mais fraco mais ainda assim suficiente para quebrar as varetas de umas das barracas.

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Dia 3 – O mirante logo ali

Acordamos sem muita pressa, a essa altura já estávamos convencidxs de que não restavam muitos quilômetros até o mirante. Menos mal, poucxs de nós tinham gás para muito mais nesse segundo dia. Desmontamos acampamento, comemos mingau com paçoca e o que restava de batata-doce e tomamos rumo. Já de inicio podíamos avistar a estrada que era nosso destino e o campo de turbinas eólicas. Passamos meia-dúzia de charcos, o que fez pouca diferença já que nossos calçados não haviam secado do dia anterior. Subimos algumas colinas, pulamos duas cercas, paramos para um lanche e atingimos a estrada. Foi rápido. Até demais. Entramos no modo toca-toca e não aproveitamos a vista da qual já sinto falta.

Acesse a rota no wikiloc:
http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=9592158

Coisas que aprendi:

– Botas impermeáveis são super-valorizadas
– Uma bússola decente é essencial
– Uma pá sanitária é essencial
– 500gr de farinha de milho + 1kg de lentilha alimentam 9 pessoas famintas
– 500gr de Aveia são suficientes para o café da manhã de 9 pessoas
– Dormir com um cobertor de emergência não é confortável

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IMG_7957*todas as fotos por Freitas Jr.
**Este texto usa linguagem inclusiva. Em lugar de utilizar o artigo masculino como universal, buscamos incluir as mulheres ao substituir o “o” pelo “x”.
Longe de ser uma solução ideal, a utilização do “x” é apenas o inicio de uma busca por uma forma de se expressar não invisibilizadora das mulheres.

Um pensamento sobre “Expedição Charco

  1. Já tinha visto o post..mas não parei para ler, mas as fotos falaram por elas mesmas.. são lindissimas! Hoje li o texto. Gosto como você escreve, é simples, direto e preciso. Espero por mais. 😉

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